Mercosul pra quê?


Meu post especial é sobre um assunto que de certo modo tem a ver com a repercussão do impeachment relâmpago do até aquele momento presidente do Paraguai Fernando Lugo, sendo que o estopim para isso foi um conflito entre sem-terra e policiais, que resultou na morte de 17 pessoas. Esta, entre outras ingerências do ex-bispo pegador que mora ao nosso lado, acabou levando o Congresso a abrir um processo político que foi finalizado em tempo recorde. A partir daí, houve diversas movimentações dos líderes dos países sul-americanos em forma de repúdio à ação do Congresso paraguaio, especialmente da presidente da Argentina Cristina Kirchner e do presidente venezuelano Hugo Chávez, que classificaram o ocorrido no Paraguai como "golpe". No Brasil a reação do nosso governo foi nesse sentido, apesar de ter sido bem mais comedida (aliás, comedida como a maioria das ações tomadas pela Dilma Rousseff, talvez se o Lula estivesse no poder enquanto isso acontecesse já teria falado poucas e nem tanto boas sobre o assunto). Alem disso o nosso vizinho foi rapidamente (o que chega a ser irônico) suspenso do Mercosul e da Unasul até que se realizem novas eleições. É a partir daí que começa o pastelão promovido pelos nossos vizinhos com o intuito de recolocar o Lugo ao poder.

Pra começo de conversa, chega a ser engraçado que lideres como Hugo Chávez (Venezuela), Cristina Kirchner (Argentina) e Rafael Correa (Equador) queiram dar "lições de democracia" aos poderes instituídos do Paraguai. Será que ninguém lembra do fim da concessão à RCTV em 2007 apenas porque fazia críticas ao líder venezuelano? Será que ninguém lembra da guerra da líder embotocada argentina com o grupo Clarín, pelo mesmo motivo que levou ao fechamento da RCTV no nosso vizinho cheio de petrodólares ao norte? Será que ninguém lembra da ação tresloucada do exército equatoriano na expulsão da Odebrecht de seu país, isso sem contar ações semelhantes aos dois líderes supracitados? Não tô dizendo que a ação no Paraguai foi justa ou se atentou ou não a democracia, mas convenhamos, não são esses três líderes as melhores pessoas a falar de "liberdades democráticas".

Segundo é pelos "dois pesos e duas medidas" adotados pela nossa diplomacia. Há pouco mais de seis anos, Evo Morales tomou as refinarias de gás natural da nossa estatal Petrobras, nacionalizando-as e descumprindo uma série de contratos. Lula, como aquele pai que passa a mão na cabeça de filho rebelde, deixou a coisa correr e no final permitiu que o preço de nosso GNV subisse, afinal, tínhamos que "respeitar a soberania", aliás política defendida pelo partido tanto do antecessor como da atual presidente, ainda que esse tal "respeito" signifique rasgar acordos já feitos ou até mesmo fazer vista grossa às ações antidemocráticas de nossos "muy amigos". Cadê o respeito à soberania em relação a decisão do congresso paraguaio, que usou e SOMENTE usou os meios legais para tirar um presidente que pela mesma lei que o derrubou foi eleito? Quem deveria estar insatisfeito - e lutando contra isso, se realmente fosse golpe - deveria ser o povo paraguaio, que deveria pedir reformas em suas leis para impedir que algo ocorresse de forma tão acelerada. Aliás, se pelo menos nosso "queridíssimo" Lugo tivesse feito algo favorável ao Brasil até justificava defendê-lo mas nem isso...Graças a ele pagamos mais caro pela energia de Itaipu, sem contar que os brasiguaios - brasileiros que moram por lá, principalmente na área rural - foram tratados com indiferença pelo ex-bispo. Enfim, não há NENHUMA razão lógica para questionarmos o impeachment de Lugo.

Creio que alguém neste momento tenha perguntado: o que cargas d'água tem a ver com o título do tópico? Enfim, finalmente chegamos ao ponto. Devido ao ocorrido, o Paraguai foi suspenso do Mercosul (e por muito pouco não foi expulso) e da forma que isso foi feito a impressão que se tem é o bloco no qual fazemos parte é a última bolacha do pacote e que o Paraguai depende profundamente dele pra existir. E isso é um ledo engano. Primeiro porque o nosso vizinho que foi "colocado de castigo" possui uma economia baseada fortemente na informalidade (já sabem o que estou falando) e de Itaipu, já que boa parte da energia que é reservada ao Paraguai no final é vendida ao nosso país. Lembrando ainda que não é invencionismo meu ou ainda alguém tenha igualmente apoiado a decisão do impeachment, mas isso foi igualmente defendido por Peter Lambert, um crítico do ocorrido. Alem disso o Paraguai sempre foi uma espécie de "primo pobre" no Mercosul, sendo a economia mais fraca do bloco. Outra razão de eu duvidar da eficácia de que a suspensão do Paraguai do bloco econômico trará o Lugo de volta é que salvo este e outros (raros) momentos, coesão e cooperação nunca foram o forte de nossa união aduaneira. E nem precisa viajar muito no tempo pra comprovar o que digo. Uruguai e Argentina trocaram farpas por conta de uma instalação de uma fábrica de celulose no rio que possui o nome do primeiro país e que serve de fronteira, nós volta e meia estamos disputando alguma questão comercial com nossos "hermanos" argentinos. Em comparação à União Europeia (que apesar das falhas recentes em relação ao euro em outros parâmetros é a melhor referência no que se refere a blocos econômicos) e em alguns pontos até ao NAFTA o Mercosul passa longe de ser um bloco harmônico ou que ao menos busque a harmonia entre seus países membros. Enfim, essa decisão conjunta da suspensão do Paraguai do bloco é um dos raros momentos em que os líderes de Brasil, Argentina, Uruguai e agora Venezuela se entendem. Depois disso volta(re)mos a nos bicar e bater cabeças. Olha que a visão política de nossos líderes é semelhante. Imagine se não fosse...

Enfim, tanto para o restante do bloco como para o próprio Paraguai, a existência do último no bloco é indiferente economicamente falando, ou se faz alguma diferença não justifica nem um pouco querer mostrar ao nosso vizinho que esse é "a última bolacha do pacote" e que sem o Mercosul o país governado agora por Federico Franco não vai sobreviver. E se formos adotar uma postura imperialista (algo que Chávez e Kirchner tanto odeiam), vamos fazer isso de forma mais coerente, sem participar de papelões como este.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou