Prioridade é para os fracos



Bem, a semana que está terminando foi repleta de assuntos bastante relevantes e por sinal, polêmicos. Lá em Brasília, o assunto foi a Proposta de Emenda Constitucional que permite aos servidores públicos receberem salários que superem o teto correspondente aos ministros do Supremo Tribunal Federal, que é de R$26,7 mil. Do outro lado, os servidores do IFES resolveram se juntar aos servidores de outras universidades e institutos federais e entraram em greve (resta saber se o campus onde estudo entrará e se entrar terei não se assuste com o banho de postagens que esse blog vai ter). Tem ainda as candidaturas de Luiz Paulo e de Iriny Lopes para as eleições municipais na capital capixaba, que por sinal promete ser bem acirrada, uma vez que o Paulo Hartung desistiu de concorrer (apesar de que a influência dele pode definir o resultado final do certame de agora). Mas o assunto que de fato dominou a mídia capixaba e as redes sociais durante meia semana foi a interdição do bar Balístico e da boate Casa Clube, ambos localizados na badalada região do Triângulo, na Praia do Canto, bairro nobre de Vitória. Tal fato foi o suficiente para desencadear um protesto, marcado para anteontem, com o intuito de preservar a vida noturna na região.

Bem, antes de mais nada, não estou dizendo que a causa é de todo injusta, até porque a Prefeitura a meu ver falhou na hora de não normalizar de forma mais clara a instalação de tais estabelecimentos num bairro que é predominantemente residencial. Mas alguns dos argumentos utilizados pelos organizadores e participantes de tal manifestação beiram a ingenuidade pra não dizer o ridículo em alguns casos. Vamos a alguns deles:

"A gente está se sentindo prejudicado com essa ação da prefeitura de fechar as casas noturnas de Vitória por causa de som. [...]"

Bem, quando alguém vai ao restaurante pra comer algo e de repente a fiscalização da Vigilância Sanitária fecha o estabelecimento por conta de falha na higiene ou motivo análogo, com quem você deveria reclamar? Com a fiscalização que lhe impediu o "direito de comer" ou com o dono do lugar onde se almoça ou janta? O mais óbvio seria a segunda opção, mas se fosse seguir a mesma lógica do que foi destacado seria a primeira. Bizarro, não? Mas se fosse aplicar essa reclamação contra o fechamento das casas noturnas aos restaurantes, resguardadas as devidas proporções, seria por aí o "raciocínio".

"A fiscalização é o papel da prefeitura, mas isso não deve ser feito na hora que a boate está aberta, no horário de maior movimentação. Tem que ser feito de uma maneira que não prejudique a população, uma maneira que a ação da polícia não interfira e coloque a população em risco, como aconteceu."

Outro argumento completamente ingênuo. Pense nos fiscais da prefeitura de Vitória chegando à boate ou ao bar na hora de abertura ou ainda quando a movimentação de clientes é pequena para verificar se os níveis de som estão dentro dos conformes. Só esqueceram de um detalhe: independente da movimentação do local, a norma ou lei referente a isso deve ser cumprida e obviamente o horário de maior movimentação desses estabelecimentos, por ser o que gera os níveis mais altos de som, deve ser a referência para a ação dos fiscais municipais. E isso independe de haver ou não aviso anterior do poder público. Simples assim.

"O nosso protesto é contra o ato que aconteceu no final de semana, contra o fechamento de bares e também contra a violência. Nós cidadãos merecemos viver em segurança. Mas se o governo não se mobiliza para isso, nós estamos 'pagando o pato' com o fechamento desses bares. É um protesto que tem que ser levado em consideração pelas autoridades para que essa situação seja revertida de alguma forma"

Tudo bem, a questão da falta de segurança na Praia do Canto tá ganhando proporções absurdas (os índices de roubos e assaltos que o digam). Mas de qualquer forma isso soa bem estranho. A questão da violência naquele local não é de hoje, já faz um bom tempo (desde a época em que eu fiz um cursinho pré-vestibular na Praia do Canto a situação por lá já não era tão bonita) e mesmo assim a região continuou sendo um point para quem quer curtir a noite na capital capixaba, não só para quem mora lá, como para quem mora na Região Metropolitana. Só agora que dois estabelecimentos foram fechados por um motivo que não tem NADA a ver com a questão da segurança isso foi colocado "em pauta" nas reivindicações dos manifestantes? Não fosse isso, poderia morrer gente no meio do caminho que tendo vida noturna o resto "não importa"? Na boa, na minha terra isso se chama h-i-p-o-c-r-i-s-i-a.

"Destaca também que só será possível a conclusão do estudo com a manutenção dos estabelecimentos abertos, de forma que o resultado das medições representem a realidade e permita as correções definitivas." (Nota da Casa Clube sobre o fechamento ocorrido na semana passada)

Ok, faria sentido se não existisse algo que facilita muito a vida de quem queira projetar grandes estruturas ou ambientes para usos específicos. E isso se chama simulação. De modelos tridimensionais em escala para reproduzir os efeitos sonoros possíveis em tais ambientes até mesmo modelos computacionais que permitam descrever o que ocorreria em tais lugares (bem como o entorno deles) com determinados níveis de barulho. Enfim, essa nota não me convence nem aqui nem na China.

Enfim escolhi alguns argumentos tirados das matérias existentes nos portais de notícias que foram usadas anteriormente neste blog e dá para perceber claramente que estes, bem como outros são bem inconsistentes. E conforme a primeira matéria colocada neste blog sobre o assunto, não foi só na Praia do Canto que alguns eventos foram interrompidos por conta do som alto. Um ensaio ocorrido no bairro Bonfim passou pela mesma situação e sequer foi citado pelos manifestantes. O que pressupõe que isso só ganhou tanta repercussão pelo fato dos estabelecimentos fechados estarem num bairro nobre de Vitória e frequentados principalmente pela "high society" capixaba. O que também pressupõe que a questão da segurança e a insinuação de que tais medidas da prefeitura (conforme último parágrafo desse post aqui) "prejudicam a população" não passam de mera fachada. Se a boate, casa noturna ou bar fechado fosse num bairro de periferia, a repercussão e a comoção não seriam nem de longe as mesmas. Arrisco dizer que ocorreria até o contrário, ia ter gente dizendo que foi bom ter fechado uma vez que nesses locais as pessoas não respeitam os moradores (justamente) por causa do som alto, sem contar o uso de drogas e a presença de menores no local. Mas como é num local nobre, "a parada ficou séria". Quanto ao prejuízo à população por conta disso, chega a ser risível. Alguém aqui consegue enxergar qualquer pessoa na Grande Vitória (ou mesmo na capital, onde a qualidade de vida é reconhecidamente melhor) tendo pelo menos R$150 pra gastar a cada final de semana no Triângulo? Eu não...

Bem, por fim, existe o argumento mais boçal de todos que é "Se quer tranquilidade vai pro interior!". Primeiro, quem mora por lá na maioria dos casos vive há mais tempo, inclusive antes do Triângulo se tornar o fenômeno que é hoje. Segundo que o seu direito se curtir a noite e se divertir termina quando começa o direito de descanso de alguém que quer ter tranquilidade após uma semana de trabalho ou de estudo (dependendo do caso igual a pessoa que formula uma frase tão imbecil como essa). E por fim terceiro, o que seria dessa pessoa se uma boate se instalasse ao lado da casa dela e ela precisasse dormir e não conseguisse pro conta do som alto do local. Afinal, como diz o velho ditado: "Pimenta no dos outros é refresco".

Antes que me taquem pedras por isso que afirmei até agora, não disse em nenhum momento que a Prefeitura não tem nenhuma responsabilidade na queda de movimento na região do Triângulo. Mas é um exercício de má fé querer jogar ao poder público municipal a culpa por algo que é de responsabilidade maior dos donos dos estabelecimentos instalados na região. Aliás, nesse caso aplico a lógica darwinista (apesar de não acreditar na teoria da evolução) nesse setor: os que se adaptam primeiro sobrevivem e quem não se adaptar à nova realidade simplesmente vai quebrar. Também não tenho nada contra quem vai a esses locais pra se divertir (afinal ninguém é de ferro, apesar de que não adianta me chamar, não irei e ponto), afinal tenho amigos que vão a tais lugares todo santo final de semana. Mas querer transformar algo que a meu ver é tão trivial em um acontecimento tão relevante para a sociedade, no meio de fatos que são verdadeiramente importantes como os que descrevi no início deste post é um indício que o título do mesmo faz todo o sentido. Prioridade é para os fracos. O bom mesmo é pão e circo.

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