A greve das UF's e IF's e a indiferença do governo


O assunto escolhido para o comentário da semana foi um assunto que - "téquinfim" - ganhou maior espaço na mídia (o que não necessariamente quer dizer repercussão positiva) e que de um certo modo causa polêmica, por mais que se concorde com as causas do movimento: a greve dos servidores das universidades e institutos federais. Entre as causas do movimento estão a questão do reajuste salarial tanto para os docentes como para os técnicos administrativos e uma melhor infraestrutura para os novos campi destas insituições, que em não raros casos, está precária. Durante dois meses o governo federal pouco se mexeu quanto às reivindicações dos servidores, mas na semana passada eles anunciaram a proposta de que os docentes (sim, só os docentes. Os técnicos administrativos sequer entraram na discussão) receberiam até 45% de reajuste salarial até 2015 e um novo plano de carreira, que reduziria os níveis de 17 para 13.

Pois bem, não pretendo entrar a fundo no mérito desta proposta, até porque ao final deste post terão três vídeos explicando melhor o atentado à inteligência que o Ministério do Planejamento tentou fazer com os servidores, mas só para efeitos de conversa, alem dos TA's não serem contemplados como disse antes, se levarmos em conta as projeções de inflação para 2015 só quem teria benefício real nessa história toda seriam professores com doutorado, dedicação exclusiva e praticamente no final de carreira. Os demais professores, coitados, acabariam tendo seus salários reduzidos ao longo deste período. O novo plano de carreira - outro presente de grego proposto pela trupe de Miriam Belchior - seria pior em relação ao atual (melhores explicações nos vídeos). O resultado desta proposta PMPO* não poderia ser outro: a greve se manteve e no campus do IFES onde estudo os professores, que até então estavam relutantes em aderir a mais uma greve (visto que eles participaram de uma outra no ano passado), acabaram se juntando às várias universidades e institutos federais que também estão com as aulas paralisadas.

Então, passado o resumo da ópera, vamos à minha opinião propriamente dita: é complicado falar deste assunto como estudante, até porque os argumentos e "argumentos" em relação a isso são praticamente os mesmos: "no final isso não vai dar em nada", "isso só prejudica os estudantes", "tinha viagem/intercâmbio/sei-lá-o-quê marcado pra tal data e não poderei ir por que agora vai ter aula". De fato, é frustrante assistir a uma aula enquanto seus amigos nas universidades e institutos federais que não entraram em greve ou das escolas e faculdades particulares estão viajando ou tomando água de coco na praia. Também confesso que quando os primeiros rumores desse grande movimento estavam no ar, já estava começando a ficar puto da vida só com a possibilidade de voltar a ter as aulas paradas por conta de mais uma greve, até porque na paralisação do ano passado no final de tudo as aulas voltaram ao "normal" e o governo no máximo deu uns 4% de reajuste e algumas promessas de negociação, o que levou a algumas críticas (algumas delas exageradas e sem noção, igualando greve a férias remuneradas) ao movimento e consequentemente uma adesão a conta-gotas no movimento atual. Mas sou a favor do movimento. Primeiro porque de fato, salvo raríssimas exceções, um professor de uma universidade e principalmente de instituto federal não recebe rios de dinheiro. Alguns deles (basta só conferir no Portal da Transparência Pública) recebem entre R$2000,00 e R$3000,00 (isso tendo mestrado), mesmo salário que ganham pessoas de nível técnico na Vale, por exemplo. Se eu quisesse comparar com concursos que exijam basicamente a graduação na Caixa Econômica ou o Banco do Brasil por exemplo a comparação beira a covardia. Basta só comparar os salários oferecidos no novo concurso que o IFES está oferecendo e os oferecidos nos lugares onde falei.

Segundo porque por mais que tenha sido boa a expansão das universidades e institutos federais no sentido de permitir aos estudantes do ensino superior estudar seu curso sem precisar de grandes deslocamentos (eu mesmo sou um exemplo disso, afinal, não fosse tal expansão precisaria de me deslocar 15km todos os dias num Transcol lotado para poder estudar sem precisar de pagar mensalidade), ela trouxe efeitos bastante negativos para alunos e servidores. Cito o Campus Cariacica do IFES como exemplo. A "sedinha" de Itacibá tem apenas quatro salas para atenderem a seis turmas (o que obrigou minha turma a ter aulas quase que somente de manhã), um laboratório de informática, um laboratório de física e uma (mini) biblioteca. Mas aí alguem vai perguntar: tem laboratório de química? Não. Repito mais uma vez: NÃO! A sorte da minha turma é que conseguiram alocar um laboratório no Campus Vitória para poder ter essas aulas. No caso da turma que entrou em 2012/1, nem essa sorte tiveram, e no final essas duas aulas experimentais terão que ser na sala de aula mesmo. Mas em São Francisco (prédio provisório em que inicialmente se situava todos os cursos, hoje estão locados os cursos técnicos integrados e subsequentes) a situação é ainda pior. Lá, onde uma vez por semana preciso ir para lá para atuar como monitor, a quadra até existe, mas não pode ser usada para as aulas de Educação Física. Os banheiros não tem trinco nas portas. A salinha onde atua os monitores o concreto em volta da báscula está quebrado. A maioria dos computadores já tem mais de quatro anos e como se isso não fosse o bastante, volta e meia ocorrem quedas de energia elétrica e falta de água, o que por conseguinte interrompem as aulas. A promessa é que o prédio novo (ao lado da "sedinha") estará pronto em setembro deste ano (mas já falam nisso desde quando entrei no curso...). O pior é que num grupo nas redes sociais onde participo teve gente que queria dizer que o prédio de São Francisco não era tão ruim, afinal era melhor em relação às escolas públicas estaduais e municipais e até em relação a algumas privadas (com certeza ele não estava se referindo às grandes redes privadas de ensino). Como se não fosse obrigação do governo federal, tanto pelos impostos que nós pagamos como pelo fato das inicialmente escolas técnicas, depois CEFET's, hoje IF's historicamente serem referência especialmente na educação profissional termos estruturas de altíssimo nível...

Por fim, apoio a greve porque diferente de muitas pessoas que muitas vezes pensam no que virá logo depois do movimento como sendo prejuízo puro e simples por conta das férias, viagens e intercâmbios frustrados por conta disso, eu (e as demais pessoas bem que poderiam tentar pensar assim) também tento pensar uns 20, 30 anos a frente. Quero daqui a esse tempo poder dizer a(o) meu filho(a) que tive orgulho de estudar onde estudei e acima de tudo recomendar a ele(a) que estude lá também porque é certeza que terá não só uma boa formação como também boa experiência de vida. E também acredito que por mais que muitos depois de formados, aspirem a altos cargos em grandes empresas (estatais ou privadas), alguns depois de algum tempo estarão de volta como professores, técnicos administrativos, coordenadores de curso, diretores de pesquisa e quem sabe, reitores nas várias universidades e institutos federais espalhados Brasil afora. Eu mesmo confesso que, não fossem esses percalços inerentes à carreira docente por aqui, ficaria rodando no mercado por algum tempo pra logo depois seguir carreira acadêmica (que apesar dos pesares vejo como algo fascinante). Mas para isso é necessário que o governo federal, não importa qual ideologia siga (aliás, esse tema é prato cheio para discussões político-partidárias desnecessárias), remunere bem quem for seguir essa carreira e dê condições boas a alunos, docentes e TA's boa estrutura para que a trinca ensino-pesquisa-extensão seja levada de forma que realmente precisa ser levada.

Mas aí vem o "argumento" mais piegas de todos: "Estamos numa crise econômica, não podemos reajustar porque isso aumenta os gastos da máquina pública, blá, blá, blá...". "Argumento" este que foi repetido pelo nosso "querisíssimo" Ministro da Educação Aloízio Mercadante. Na verdade ele deixou bem claro que "A prioridade do governo é enfrentar a crise econômica" e que "não há margem fiscal para ir além" (segundo o governo o reajuste custaria aos cofres públicos R$3,9 bi). Comovente, não fosse o fato de que foram gastos R$5,2 bi em compra de helicópteros para às Forças Armadas, sendo que dois são destinados para atender diretamente a presidenta Dilma Rousseff. Tudo bem, Exército, Marinha e Aeronáutica são outras classes que são bastante negligenciadas pelo governo federal, mas mesmo assim, gastar isso com helicópteros num momento em que se exige tamanha "austeridade" e num país que sempre preferiu a diplomacia (por mais desastrada que fosse) à guerra me soa um tanto incoerente. Mas a fala do nosso atual Ministro da Educação nem me surpreende, afinal educação no Brasil não costuma dar voto né...

Enfim, estes são os três motivos que me vem a memória para apoiar a causa dos professores e demais servidores das universidades e institutos federais. Por hoje é só, mas antes de me despedir deixo estes três vídeos comentando sobre a tal "proposta" do Planejamento:




* PMPO = Peak Music Power Output: é a potência de áudio que o auto-falante suporta sem queimar. Diferente da RMS (Root Mean Square), não é a potência real do aparelho.

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