Fim das sacolinhas plásticas nos supermercados: sustentabilidade ou oportunismo?


Hoje resolvi comentar sobre um assunto que marcou o início desta semana nos supermercados de Cariacica, Serra e Vila Velha: o fim da distribuição gratuita das "queridas" sacolinhas plásticas, cumprindo um acordo entre o Ministério Público e a Associação Capixaba de Supermercados(Acaps). O argumento principal para isso foi o ambiental: as sacolas plásticas levam 400 anos para se decompor (tudo bem, as biodegradáveis levam bem menos tempo, mas mal aguentam um saco de arroz), quando se joga em qualquer lugar causa enchentes, sufoca animais marinhos e outros que estamos cansados de conhecer. E confesso que nesta primeira semana de proibição tive um pouco de dificuldades para levar as minhas eventuais compras por conta disso. Mas enfim, será que a sustentabilidade é um argumento perfeitamente válido para isso? E se for, é de fato a maior motivação para que não tenhamos mais sacolinhas plásticas nos supermercados? Vamos a alguns pontos que podem ser muito bem considerados:

1 - Volta da venda dos sacos de lixo

A utilidade das sacolas de compras nos supermercados após levar o que a gente precisava para a semana ou para o mês era quase sempre a de colocar o lixo do que acabávamos consumindo. Com isso, a subseção dos sacos de lixo nos artigos de limpeza era algo praticamente esquecido. Agora que as "branquinhas" não são mais distribuídas, os "azuizinhos" voltarão a ser lembrados na lista de compras da família. Bom para os supermercados e também para os fabricantes dos tais sacos, que vão faturar mais.

2 - Tendência às compras semanais

Se antes as pessoas optavam por fazer a "compra da semana" em vez da "compra do mês" pelo argumento da economia (embora tenho minhas dúvidas quanto a real eficácia disso), agora terão mais um motivo para passar uma vez por semana no supermercado ao contrário de uma vez por mês ou quinzena: sem as sacolinhas plásticas, "encher o carrinho" pode se tornar uma tarefa extremamente complicada, principalmente se sua compra inclui muitos frios e congelados. O jeito mesmo será comprar "um pouquinho" a cada semana para contornar esse problema. "Mas por que cargas d'água você duvida da economia gerada pelas compras semanais?", alguém pode estar perguntando por aqui. Minha resposta é simples: pelo fato da compra mensal ser maior (por razões óbvias), é relativamente mais fácil identificar a quantidade (e quais são) de itens supérfluos que está no carrinho - e consequentemente tirá-los antes de passar os mesmos no caixa. Com a tendência às compras semanais, é normal que as pessoas coloquem "um item a mais aqui, outro item a mais ali, 'só um pouquinho disso' acolá"...E no final do mês o que você gastou com as compras da semana é maior do que o que gastaria com uma única compra para os 30 dias, especialmente com os produtos que não fariam nenhuma diferença se não fossem comprados. Enfim, bom para os supermercados e bom pra quem fabrica essas "tentações".

3 - Venda das sacolinhas plásticas

Tudo bem, ainda existe uma esperança...Você pode usar as sacolinhas plásticas caso seja inevitável "encher o carrinho". Mas você terá de pagar por elas. Cada sacola que você usar custará R$0,19, e nos primeiros seis meses de vigência da medida a cada cinco itens comprados ela possui um desconto de R$0,03. Ou seja, para sua compra ficar praticamente isenta de cobrança pelo pagamento das sacolinhas você teria de comprar ao menos 30 itens, o que torna-se difícil pra quem já se acostumou a fazer a compra toda semana, por exemplo. Mas vamos nos atentar a um simples detalhe: o custo de cada sacolinha. Uma tamanho 25x35 custa em média R$0,02, ou seja, mesmo considerando que os custos logísticos disso dobrem o custo unitário final o lucro que o supermercado teria com isso seria de 400%. E ninguém garantiu ainda que o fim da distribuição gratuita (na verdade de gratuita não tem nada, afinal no preço de cada produto comprado no supermercado está embutido o preço correspondente ao uso das "branquinhas") das sacolas plásticas tenha sido revertido em redução de preços nas prateleiras e gôndolas (um bom argumento relacionado a isso está AQUI). E é bom os órgãos de defesa do consumidor ficarem de olho nisso...

Bem, não tenho nada contra os supermercados, bem como as empresas em geral enxergarem oportunidades por conta de mudanças na legislação e/ou acordos, até porque isso faz parte do mercado de qualquer país do mundo e como futuro engenheiro de produção terei que ajudar as empresas a visualizarem tais chances para agregar valor aos seus produtos. Agora na boa, essa medida de cobrança pura e simples das sacolinhas plásticas pela "sustentabilidade" não me convence nem um pouco...

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