Voo de galinha: nossa prioridade?



Bem, normalmente os posts no qual dedico tempo para opinar sobre os assuntos que dominam a semana deixo para o sábado à noite, mas por conta da repercussão dos fatos e também por certos comentários "construtivos" a respeito do assunto, tanto por especialistas como por leigos, resolvi adiantar para hoje.

A semana começou com uma paralisação na fábrica da General Motors em São José dos Campos (SP), onde trabalham 7500 funcionários. Devido ao fato dos modelos Zafira, Meriva e Corsa saírem de linha, quase 2000 postos de trabalho estão em risco. Em termos bem claros, 2000 funcionários podem ser demitidos.


Bem, o interesse do governo federal nessa situação pareceria até estranho se não fosse o fato de que, conforme o último link do parágrafo anterior, ele deu redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) não só a GM também como às demais montadoras, sendo que em apenas três meses o governo federal abriria R$2,1 bilhões em impostos arrecadados. Cabe lembrar ainda que tanto em 2008 como agora, para que a redução deste imposto fosse concedida, as montadoras assumiram o compromisso de manter empregos, situação que corre o risco de não ser cumprida neste momento.

Só por aí já é possível perceber a diferença clara do tratamento que o governo federal dá à crise na fábrica da GM em relação à greve dos servidores federais da educação superior (foi o assunto do post do último sábado). Diante do risco de demissões e de uma possível greve para defender os postos de trabalho que serão perdidos, existe uma mobilização imediata de forma a tentar resolver a situação. Já quanto a greve de professores e técnicos administrativos das universidades e institutos federais, bem como de outras categorias de servidores, bem...No caso dos docentes e TA's só por volta de dois meses depois que o movimento começou que o governo, por meio do Minstério do Planejamento, começou a buscar soluções para encerrar a greve, apresentando duas propostas, sendo que só na última houve resposta positiva apenas de um sindicato. Ah, lembrando que tanto esta como a anterior NÃO contempla os TA's. Além disso, como forma clara de desmobilizar não só este como outros movimentos, existe ainda a intenção governamental de se cortar o ponto dos servidores que estão parados. Não querendo cornetar ninguém, mas tal iniciativa lembra do "odiado" e "famigerado" - pelo partido que hoje está no governo - FHC, que usava praticamente a mesma tática para lidar com tais situações.

Mas aí creio que alguém venha perguntar: "Mas vem cá, são situações diferentes, no caso da GM são 2000 empregos que correm perigo, 2000 pessoas que deixarão de ter renda para comprar, consumir e blá, blá, blá...". Sim, eu não disse que as situações são iguais. E também não disse que essas possíveis demissões que a montadora norte-americana fará em terras tupiniquins são justificáveis. Muito pelo contrário, considerando não só a redução do IPI para tais produtos, mas também pelo fato de que salvo no ano passado, em que o mercado de automóveis deu uma certa amornada, as vendas de veículos bateram recordes após recordes. Enfim, não só a GM como qualquer outra montadora de veículos instalada no Brasil não possui nenhum motivo plausível para mandar gente embora, mesmo considerando o fato de que três modelos serão descontinuados. Pelo menos a meu ver.

Outra grande diferença da forma que o governo lida com ambas as situações é que no caso da GM o Ministério do Trabalho está participando das negociações, mas nos movimentos grevistas dentro do próprio serviço público federal não há sequer um sinal da pasta chefiada por Brizola Neto nas negociações. Resta apenas depender do amolecimento do coração de nossa "queridíssima" Ministra do Planejamento Miriam Belchior.

Apesar de que como disse antes, a intenção da GM de demitir 2000 funcionários não possui uma razão plausível, simples e lógica, uma outra visão disso é que tal medida da montadora serviu como um belo "tapa na cara" do governo federal, que usa o argumento (que mais parece disco arranhado) de que "estamos num momento de crise econômica, não temos margem fiscal para dar aumentos salariais aos servidores"...Não irei usar valor presente até porque se for fazer as contas terei que delongar ainda mais do que espero no post de hoje, mas quem quiser poderá pedir nos comentários ou na página do blog no Facebook e procurarei fazer isso com calma. Mas só observando o quanto o governo abrirá mão em impostos arrecadados no setor automobilístico e quanto o governo prometeu abrir mão através do reajuste (na primeira proposta era R$3,9 bilhões, na atual R$4,2 bilhões) para os docentes das universidades e institutos federais e o tempo em que essa "generosidade" que o governo vai fazer em cada uma das duas situações (três meses contra três anos), já seria possível inferir que para Dilma Rousseff e sua trupe acha mais importante despender dinheiro em favor a empresas que podem muito bem rasgar os compromissos assumidos para receber tais benefícios (caso as demissões na GM de fato ocorram) em vez de fazer algo semelhante para uma classe que em não raros casos ganha a mesma coisa ou menos que os profissionais que trabalham nessas empresas e que foram formados por esses mesmos professores.

Mas aí provavelmente alguém pergunte: "Mas e quanto se arrecadaria com o crescimento das vendas, isso não compensa o que inicialmente se perderia com a redução do IPI?". Tudo bem, talvez, e duvido que o governo federal abriria mão de uma alíquota maior de imposto se não soubesse que a um dado prazo isso compensaria. Porém, mesmo assim, atitudes como a da GM, ainda que fiquem somente no estágio de rumor ou ameaça, mostram que algo de muito errado existe nas políticas de incentivo ao crescimento econômico por aqui. A propósito, com todos os incentivos que o governo federal deu não só para o setor automobilístico como também para o de eletrodomésticos, a promessa do mercado é de que cresceremos "incríveis" 2%. Uma prova de que no Brasil o que se pensa mais é fazer vários "voos de galinha" ao invés de preparar a geração atual para fazer o país ter um crescimento sustentado por mais tempo.

Creio que venha outra pergunta, e não tiro a razão de quem diz isso: "Então você acha melhor não reduzir os impostos para as empresas poderem produzir mais, empregar mais gente e gerar mais renda para o nosso país e por cima defende aumentos que onerem ainda mais nossa máquina pública, é isso?". Não, em nenhum momento disse que as empresas em certos momentos não deveriam ter seus impostos reduzidos para ter mais fôlego para produzir, empregar mais gente e por conseguinte gerar mais renda e que o melhor seria distribuir aumentos a torto e direito para o funcionalismo público federal, o que de um certo modo torna os gastos com o erário mais pesados (aliás, sobre isso se vê tanto na mídia como nas redes sociais comentários esdrúxulos sobre isso, e mostrarei em breve). Mas devemos avaliar com critério o que deve ser melhor para o nosso país, tanto a curto como a longo prazo. E o fato é que mesmo com os incentivos governamentais oferecidos nossa economia não está decolando. Enfim, os momentos de crise, sejam em pessoas, empresas, instituições ou governos, mostram quais e a que nível são as limitações de cada um dos citados, e querer incentivar as empresas sem investir de forma adequada e racional em áreas estratégicas (saúde, segurança, infraestrutura e especialmente educação) pode até garantir uns poucos anos de bom crescimento mas em situações como a atual nossos gargalos ficarão expostos.

Outra indagação que pode surgir neste post é: "E os tais comentários 'construtivos', cadê?". Pois bem, ao ler certos comentários sobre a questão da greve (no caso) dos docentes e TA's das universidades e institutos federais, dois sentimentos resumem o que se lê: indignação e vergonha alheia, principalmente pelo desconhecimento (seja por ingenuidade ou estupidez pura e simples) de alguns pretensos "especialistas". Como primeiro exemplo, colocarei aqui trechos de um comentário feito pelo sociólogo (pasmem) e doutor em ciência política Alberto Carlos Almeida (a integra está aqui):

"Nada é mais caro nos dias de hoje para todos nós contribuintes do que nossos professores universitários funcionários públicos.(sic) [...]

Trata-se da mais longa e abrangente greve remunerada do mundo. Eles querem mais recursos para as universidades. Obviamente, querem aumento salarial, querem que o governo gaste mais com eles. A reivindicação deles poderia também ser colocada do ponto de vista da receita: eles querem que o governo aumente os impostos.(sic) [...]

O governo federal não irá ceder para um grupo de privilegiados que, apesar de chorar miséria, pertence à classe A brasileira, compõe o andar de cima de nossa pirâmide social(sic). É preciso direcionar os recursos públicos para quem realmente precisa. Dilma e Mercadante sabem disso."

Já poderíamos parar de ler no primeiro parágrafo. Só por aí já temos noção do nível de sandice do que o cidadão está falando. Se um professor de nível superior na rede federal é tão caro assim, o que dizer de um deputado federal, senador ou ministro do STF? Um supérfluo, pela mesma lógica? Cabe lembrar que estes, sem os auxílios, podem valer por dois "caríssimos" professores universitários ou até três, dependendo do tempo de carreira do último. Se contar os auxílios a comparação beira a covardia. Considerando a nova proposta do governo federal para um professor titular com doutorado e dedicação exclusiva poderíamos dizer que os representantes do Legislativo e do Judiciário valem por até 10 professores (ou mais)! Isso é barato então? Ah vá, hein...

O segundo parágrafo mostra outra sandice na correlação feita entre a questão salarial dos professores e os impostos. Não lembro de qualquer momento em que os docentes pediram aumento de impostos, ainda que fosse para disponibilizar mais verbas para a educação (o que NÃO significa somente aumentar o salário destes). Aliás, tanto a política de redução do IPI como a recente compra de helicópteros para as Forças Armadas (o que, apesar de ter uma certa necessidade, não deixa de soar estranho para um país em paz) mostra que o governo federal tem sim folga de orçamento para não só aumentar os salários de docentes e TA's como também fazer os investimentos necessários para dar condições decentes às novas universidades e institutos federais.

Para finalizar, a cereja do bolo de besteiras é quando ele diz que os professores fazem parte da classe A brasileira. Por sinal ou ele não tem o mínimo de visão crítica para analisar a nova divisão de classes feita pelo governo ou então é muito malintencionado. Será que se ele seguisse a lógica e essa divisão, ele diria que eu sou de classe média apenas com o que ganho com minha bolsa de monitoria, é isso mesmo? Só por aí já se percebe o quanto de bobagem tem na cabeça de uma pessoa dita "socióloga". Principalmente pra ser cornetado por exemplo, por Reinaldo Azevedo, um jornalista que apesar de concordar com as opiniões dele em certos momentos, em outros não é nenhuma flor que se cheira...

Mas não é só na mídia que se vê comentários "inteligentes". Nas redes sociais também se vê soluções "jeniais" para a questão da greve. Segue abaixo:


Bem, se eu quisesse apelar para erros de português, a "opinião" do sujeito seria dispensável apenas pelo "pessam" escrito no primeiro comentário. Mas vamos relevar. Para começo de conversa é esdrúxulo comparar a situação econômica do Brasil com a Espanha ou Grécia, sendo que o primeiro país que foi comparado ao nosso possui uma relação dívida pública/PIB maior em relação a nossa e está correndo risco. Já no caso do país dos filósofos e das bases da política a dívida pública ultrapassa 100% do PIB e mesmo com os cortes que temos no orçamento corre o risco de quebrar...E o sujeito quer colocar o Brasil no mesmo balaio! Tudo bem, não temos ainda a qualidade de vida deles, mas querer insinuar que os professores irão quebrar o Brasil por conta de um aumento salarial é dose...Haja chá de lírio!

Segundo, o cara defende a privatização das universidades. Não sei se ele não tem a menor noção da realidade brasileira ou se ele acha realmente certo que apenas quem puder pagar R$800 a R$2000 reais por mês poderá realizar o sonho de ter o ensino superior (é nessa faixa que são cobradas as mensalidades das melhores instituições privadas), ou se realmente acredita terão bolsas de estudo para todos aqueles que porventura não puderem pagar.

Por fim, queria saber a lógica existente em se demitir professores justo no momento em que se expande a rede federal...A propósito, considerando que os cursos de licenciatura em áreas básicas estão sendo preteridos justamente pelo fato dos baixos salários oferecidos aos docentes, gostaria de saber se existe a mesma facilidade em substituir esses 15000 professores caso uma quantidade dessas fosse simplesmente demitida no Brasil. E mais uma vez a comparação ridícula entre o nosso país e os falidos da Europa...

Enfim, para encerrar o post de hoje, deixo bem claro que eu seria muito ingênuo se dissesse que o problema na educação brasileira é a baixa remuneração dos docentes. Sei e estou convicto de que o buraco é mais embaixo. Aliás, diferente do que muitos pensam (e a mídia alardeia), a reivindicação dos professores não é pura e simplesmente por salário. Tem ainda a questão do plano de carreira e maiores investimentos nas novas universidades e institutos federais, bem como melhorias urgentes nos campi das instituições já existentes. E também sei que isso, apesar de necessário, não será suficiente para resolver os problemas do ensino superior público em nosso país, muito menos da educação como um todo. Mas o governo federal precisa rever seus conceitos de prioridade se a intenção e estarmos realmente fortes diante das crises que são inerentes ao sistema econômico mundial ao invés de achar que ainda está fazendo um favor ao gastar com professores uma quantia proporcionalmente menor em relação a empresas que no final parecem pouco se importar com o nosso país.

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