Fechamento dos shoppings aos domingos: direito ou estupidez?


Boa noite pessoal. Antes que alguém estranhe por que ainda não saiu um post comentando sobre a proposta  de fechamento dos shoppings aos domingos feita pelo Sindicomerciários, digo que encarreguei a candidata a integrar a equipe do blog a fazer isso. A propósito, uma breve apresentação: ela se chama Carol Comper, tem 20 anos, estudante do Técnico Integrado em Portos do IFES Campus Cariacica e que em breve (!) começará Engenharia Ambiental na UFES. Finalizada a apresentação, segue a íntegra do texto:

Na última semana foi noticiado pelos meios de comunicação uma proposta dos comerciários “para 2013” (depois será explicado o porquê das aspas), na qual os Shoppings, assim como foi com os supermercados, fechariam aos domingos. Na verdade, esta disputa está sendo travada entre a direção destes centros comerciais e o sindicato dos trabalhadores há anos. Em 2009 chegou a haver, inclusive, notificações para lojas abertas no Shopping Vitória no domingo.

Esta “luta do sindicato contra o trabalho aos domingos”, soa como um impedimento ao setor da economia capixaba, que segundo o IBGE, apresentou no acumulado do primeiro quadrimestre de 2012, um crescimento de 12,17% na receita nominal e 7,55% no volume de vendas. Alem disso, é mais do que claro para quem vai os shoppings da grande vitória, que o domingo é o dia preferido do capixaba para frequentar este ambiente, logo, o dia mais lucrativo para o comércio em geral. Esta medida, além de ‘engatar a marcha ré’ no fluxo econômico do estado, está novamente colocando o Espírito Santo na qualidade de “província do Sudeste”. 

Os trabalhadores do comércio varejista, obviamente, precisam ter seus direitos assegurados e bem estar profissional, entretanto, deve haver negociação para que mais este serviço não seja tirado do cidadão aos domingos. Os empresários são respaldados pelo artigo 6º da lei federal Nº 10.101, desta forma, é possível um acordo para que tal fato (assim como em 2009) não aconteça.

Não há mais supermercados aos domingos, querem fechar os shoppings, não vai demorar a bares, lanchonetes e até farmácias seguirem a lista. Que fique claro que o cidadão capixaba também precisa dos serviços oferecidos durante a semana aos domingos.

De uns tempos para cá, a Grande Vitória envelheceu. A cidade dorme cedo, não existem mais opções de lazer e quando há, são severamente enquadradas por milhares de normas e legislações, que incomodam e desestimulam os empresários a investir nesta área, que quando bem planejada, pode vir a ser uma das maiores fontes de renda de uma cidade (por exemplo, Búzios, que é sustentada praticamente pelo turismo). O Espírito Santo é um estado extremamente rico em beleza, já pensou se existissem governantes inteligentes para investir no setor turístico do estado? Ah! Se eles soubessem o dinheiro que poderiam arrecadar, os milhares de empregos e renda que poderiam gerar...

Voltei...

Pois bem, o máximo que farei será acrescentar alguns comentários ao feito pela Sra. Comper (que por sinal citou e detalhou alguns itens que passariam batido se eu tivesse feito este post. Algumas considerações a fazer que não são menos importantes:

1 - De fato, como dito no texto, os trabalhadores do comércio precisam ter seus direitos e seu bem-estar assegurados. E como eu disse em minha página pessoal do Facebook, ninguém afirmou (ainda que implicitamente) que trabalhar aos domingos é bom. Aliás, trabalhar no final de semana (não só no domingo) é um porre (se eu não dissesse isso estaria mentindo). Mas é necessário adicionar uma certa racionalidade a essa discussão. Uma alternativa viável para a questão seria criar uma escala de trabalho tal que para cada domingo trabalhado houvesse dois ou três domingos de folga na sequência. Ou então, numa proposta mais "radical", reservar de oito a dez domingos no ano (preferencialmente próximos de datas comemorativas) para que as lojas do shopping estivessem abertas. No caso da primeira opção, não só os trabalhadores do comércio teriam mais tempo para suas famílias (uma das alegações para a proposta do sindicato), como dependendo da montagem da escala, obrigaria o empregador a contratar mais funcionários. Junta o "útil" ao "agradável".

2 - Caso a proposta dos comerciários seja aceita pelos lojistas, vale lembrar que os patrões não vão arcar (não sozinhos) com os custos a mais de manter "o mesmo" número de empregados para trabalhar um dia a menos. Resumindo? Simples, vai ter gente que não só terá o domingo como também o restante de semana para descansar e ter um tempo "a mais" em família. Só que claro, sem receber um tostão furado por isso (tirando os direitos trabalhistas). Ah, em tempo: não se iludam, o fechamento dos shoppings aos domingos não significa que o horário de atendimento de segunda a sábado será estendido para "compensar" esse dia a menos. Quando os supermercados passaram a fechar nesse mesmo dia, usaram esse mesmo argumento para tranquilizar os consumidores. Ledo engano, o horário permaneceu o mesmo nos demais dias da semana;

3 - O assunto do trabalho aos domingos de fato é polêmico e levanta muitas discussões. Negar isso é negar os fatos. Mas o que se vê nos comentários sobre esse assunto é uma combinação enfadonha de desconhecimento e ao mesmo tempo de "paladinagem moral". Um comentário desse nível sobre o assunto está aqui:


Para começo de conversa, esse relação entre o fechamento dos shoppings aos domingos e a movimentação nos demais pontos turísticos de Vitória (demais porque os shoppings Vitória, Praia da Costa e Mestre Álvaro também podem ser considerados pontos turísticos de suas cidades) não passa de especulação. São Paulo e Rio de Janeiro também tem importantes pontos turísticos tanto em sua região metropolitana como no entorno desta e nem por isso o comércio por lá deixa de abrir (pelo contrário, possui um horário muito mais extenso que o de Vitória, inclusive com atendimento 24h em alguns casos). Alem do mais, ninguém é obrigado a gostar de passear ou passar o tempo apenas em parques, praças, praias e museus...Seja por questão pessoal ou seja pela questão de conservação, conforto e segurança desses locais, que é deficiente (quem for ao Horto de Maruípe citado nessa imagem sabe muito bem disso...já vi várias pessoas fumando maconha por lá, inclusive).

O segundo ponto a ser comentado sobre isso é o quanto as pessoas aproveitam esse momento para mostrarem que são "engajados" e "interessados nos direitos dos trabalhadores": criticam os "templos de consumo", a "exploração" que os comerciários sofrem e vem com aqueles discursos requentados não só contra o "trabalho escravo" (coloquei aspas e logo mais explico isso) como também contra o capitalismo (como se o socialismo tivesse sido uma ótima opção, e a história recente não nos deixa mentir). O estranho é que muitas dessas pessoas se valem justamente dessas lojas para comprar a roupa nova de marca, o calçado novo, o seu iPhone, entre outros...Se fossem tão "conscientes" assim estariam fazendo boicote a essas lojas. Mas entendo, é irresistível ter acesso aos caprichos que o sistema nos oferece...

A propósito, coloquei "exploração" entre aspas (apesar de que de fato, algumas empresas não utilizam o trabalho aos domingos de forma racional, sobrecarregando os trabalhadores) apenas para contestar mesmo. Até porque tem outras categorias que também trabalham aos domingos: policiais, bombeiros, médicos (profissionais da saúde em geral), motoristas e cobradores de ônibus...Ah, mas alguém vai vir me dizer: "você não tá querendo comparar serviços essenciais com comércio no shopping, né?" (a propósito, ninguém que usou esse "argumento" deu uma definição razoável de "serviço essencial", sem contar que essas categorias possuem seres tão humanos quanto os comerciários, ou não?). Pois bem, cito outras categorias cujos serviços não são tão "essenciais" que também trabalham aos domingos: farmacêuticos, trabalhadores de algumas lanchonetes, bares e restaurantes, vendedores de gás de cozinha, trabalhadores dos quiosques na praia, bem como os ambulantes que vendem aquele Ajjelso picolé que todo mundo gosta, sem contar nos trabalhadores do chão de fábrica da Vale, Arcelor Mittal, Samarco...Cito algumas condições de trabalho dos grupos citados: risco de morte ou de acidente, trabalhar ao ar livre (seja debaixo de sol, chuva, calor ou frio de rachar) em condições muitas vezes antiergonômicas, lidar com pessoas bem inconvenientes (entenda isso, por bêbados ou drogados, não que no comércio isso não exista), transporta pesos muito grandes (no caso dos ambulantes tem que fazer isso andando na areia (que não é nada fácil) mesmo sob temperatura à sombra acima dos 30 graus. No caso de quem trabalha por escala nas empresas do setor de mineração/siderurgia as pessoas precisam de se submeter a ambientes com odores e temperaturas quase que insuportáveis (eu já visitei o laminador de tiras à quente - LTQ da Arcelor Mittal e a sensação é de quem está de frente a uma churrasqueira gigante, só que bem pior). Em pouco ou nada se compara às condições que o ambiente de um shopping oferece aos seus trabalhadores: ambiente climatizado, segurança constante e posicionada em diversos pontos, conforto. Não que seja a oitava maravilha do mundo (por exemplo, tem a questão da ergonomia que em algumas lojas é negligenciada e a pressão de empregadores e clientes durante os serviços prestados), mas se eu não me importasse tanto com salário e as opções de trabalho apresentadas a mim tivessem expediente aos domingos, obviamente escolheria trabalhar no comércio de shopping. Em relação à maioria dos grupos citados e até mesmo a algumas categorias que só tem expediente de segunda à sexta ou sábado, as condições de trabalho são superiores de longe. 

Para fechar: quem usa o argumento do "dia do Senhor" ou que "até Deus descansou nesse dia" não sabem (ou fingem não saber) que estamos num estado laico e que qualquer iniciativa que privilegie um ou outro grupo religioso fere esse princípio (e olha que em muitas vezes no Brasil a questão da laicidade é quase que ficcional). Para reforçar a minha tese de que existem fortes motivações religiosas por trás dessa proposta foi em 2005, quando começou a engrossar a discussão sobre o assunto: num show promovido pelo Sindicomerciários para promover a causa deles, houve a participação de vários cantores gospel, além de padres e pastores (alguém imaginaria padres lado a lado com pastores há 20 ou mesmo há 10 anos?). Enfim, a questão da "qualidade de vida" dos trabalhadores não passa de mero engodo para agradar aos ouvidos dos mais sensíveis. Ah, antes que me acusem que sou ateu ou agnóstico, não sou nenhum dos dois. Em tempo: não vou querer aprofundar uma discussão sobre religião por aqui, mas para quem é evangélico (que acredita na Bíblia como única norma de fé), não existe nada nas Escrituras Sagradas que afirme de forma bem clara que o dia de descanso é o primeiro dia da semana. Repito: NADA!

Enfim, a questão do comércio aos domingos, seja em shoppings, seja em supermercados ou nas lojas de rua em geral é polêmica e bem intrincada, e isso é indiscutível. Agora querer abrir mão do mínimo de racionalidade em nome de interesses que extrapolam a questão dos direitos dos trabalhadores é mais uma demonstração de como nós, capixabas, mesmo numa região metropolitana com mais de 1,6 milhão de habitantes, somos provincianos. E claro, isso pode abrir precedentes, digamos, perigosos num futuro não tão distante.

Comentários

  1. Para ser sincero, eu não sou uma pessoa baladeira, muito menos agitada. Prefiro ficar, na maioria do tempo, em casa, com a namorada, sair às vezes e aproveitar a vida de forma calma. Essas questões das baladas barulhentas e do shopping fechado aos domingos realmente são um problema, porque além de limitar o lazer dos capixabas (o que não é lá grandes coisas), atrapalha - mesmo que pouco - nossa economia.
    E outra: é uma merda que SEMPRE os religiosos dão um jeito de opinar onde não são chamados ... pqp!
    No mais, gostei do texto e da estreia da amiga Carol Comper na equipe do Blog.

    Um abraço :)

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva