Sob um ar blasé, Luciano Rezende é o "vencedor" do debate na TV Capixaba. Ou: Luciano Rezende, o "vitorioso" no debate das retrancas


Boa tarde a todos. Conforme prometido, hoje irei comentar sobre o debate dos candidatos à prefeitura de Vitória nestas eleições, ocorrido ontem (15/09) a partir das 22h na TV Capixaba. E pelo título vocês já devem ter uma noção sobre o que achei do "confronto de ideias": um debate bem morno. E nem culpo tanto os candidatos (apesar de que eles tiveram uma parcela de contribuição para essa mornidão ao tangenciar vários assuntos perguntados tanto pelos jornalistas como pelos próprios candidatos quando estes tiveram a oportunidade de "se enfrentarem") não. Culpo as próprias regras existentes no debate, especialmente as que limitavam o tempo de pergunta para 30s e os tempos de réplica e tréplica para 1min, que a meu ver induziam os candidatos a não se aprofundarem em temas que são relevantes para a população da capital e também a darem respostas a certas questões de muitas vezes de forma evasiva. Enfim, se fosse um campeonato de futebol, o regulamento parece ter sido feito justamente para beneficiar os times mais retranqueiros. Mas bem, irei discorrer sobre o debate, bloco a bloco.

Primeiro bloco

Creio que pra quem assistiu ao primeiro bloco do debate em algum momento teve a impressão de que o mesmo fosse "pegar fogo", mas foi só impressão mesmo. Na primeira pergunta, na qual o mediador indagava a cada um dos candidatos sobre qual deles era o menos preparado, apenas Montalvani (que escolheu o Gustavo de Biase, alegando ele ser muito jovem e com pouco conhecimento de gestão), Iriny Lopes (que escolheu o Luiz Paulo alegando que os oito anos de gestão dele na Prefeitura não foram tão bons assim) e o próprio tucano, que optou por escolher a petista como a "menos preparada". Os restantes optaram por evadir na resposta, alegando que "não estavam afim de ofender ninguém, só estavam querendo debater propostas para a cidade". E pra variar, aproveitaram o momento para repetir seus slogans de campanha.

O momento em que parecia que o debate prometia fortes emoções foi o em que o Montalvani perguntou ao Edson Ribeiro sobre o vídeo deste no qual dizia que tinha candidatos que "subiam o morro para cheirar cocaína", pedindo-o que citasse quais eram esses. O pastor tentou se esquivar da pergunta dizendo que não ia falar sobre isso e tentando explicar sobre o motivo daquele vídeo polêmico. Mas na réplica Montalvani resolveu dar uma "prensa" no cheirador de Bíblia, criticando a postura dele pelo fato de estar generalizando todos os candidatos "colocando-os no mesmo balaio" e ameaçando-o de processo inclusive. Na tréplica Edson respondeu dizendo que os candidatos que não temem essa questão deveriam se prestar a fazer um exame antidoping (como se quem acusasse não tivesse que provar nada). Enfim, um "sacode" merecido.

O que veio depois foi só para levar a conclusão de que a impressão de que o "confronto de ideias" entre os candidatos fosse esquentar ficou só na impressão mesmo. Destaque para a conversa quase "entre amigos" entre Luiz Paulo e Luciano Rezende, o Montalvani falando da ideia "mirabolante" de suspender as pontes de Camburi e Ayrton Senna para possibilitar a navegação no local (nem parece que suspender uma ponte é algo caro, muito menos que a obra da Ponte da Passagem por exemplo custou algo próximo de R$60 milhões, mas é fácil...E pasmem: ele é engenheiro), Gustavo de Biase perdendo oportunidade de discutir suas propostas ao criticar a ligação dos candidatos que estão mais a frente nas pesquisas ao ex-governador Paulo Hartung e o "zero a zero" na questão do tratamento aos servidores públicos entre Luciano Rezende (vale lembrar que ele foi secretário na era LP) e Iriny Lopes. Enfim, difícil dizer quem se salvou. Mas dá pra dizer que o nosso "queridíssimo" cheirador de Bíblia levou a pior nesta primeira etapa. Só não foi pior no debate porque o Montalvani mais tarde falaria várias besteiras que a meu ver mostram que mal ele conhece sua profissão (discuto sobre isso mais tarde).

Segundo bloco

O bloco seguinte do debate, reservado ao confronto de ideias entre os candidatos, foi o início da confirmação de que seria morno o debate. Em nenhum momento algum dos prefeituráveis pareceu estar uma "saia justa". O primeiro grande momento ficaou para o Gustavo de Biase, que voltou a falar do que não sabe ao dizer que Vitória era uma das cidades mais poluídas do Brasil. Mentira. Vitória não aparece no Top 5 (no qual estão Rio de Janeiro, Cubatão, Campinas, São Paulo e Curitiba). Na verdade Vitória nao aparece nem entre as quinze cidades com o pior ar do país. Como se isso não fosse o suficiente, de Biase resolveu acusar os candidatos de que pelo fato de estarem recebendo dinheiro das grandes empresas para suas campanhas eles não estariam sendo isentos no combate à poluição promovida por elas. A questão é: que empresas doaram o dinheiro e para quem? Sorte dele que não teve um Montalvani para colocá-lo na parede...

Em seguida, o Edson Ribeiro pareceu que não havia aprendido com a dura que levou do tão falastrão quanto Montalvani e prometeu triplicar o dinheiro investido em segurança pública (só resta saber se tem orçamento e de onde ele tiraria essa grana "a mais"). Logo após, ao ser perguntado por Iriny Lopes sobre o plano de Luiz Paulo para começar a resolver a questão da violência e da criminalidade em 100 dias, o tucano respondeu que nesse período queria "mostrar a cidade que ela está sob nova direção"...Nada mais forçado. Como cereja no bolo, teve a Iriny mais uma vez se gabando de sua "experiência" como ministra de Dilma e pra fechar o Montalvani criticando a falta de atenção a certos aspectos técnicos de algumas obras ocorridas na gestão Coser (ele poderia ter incluído a primeira etapa da obra do calçadão de Camburi, também conhecida como calçadão Sonrisal, visto que praticamente desmanchou nas chuvas de novembro de 2008). Entre melhores e piores, o Edson Ribeiro continuou se superando na ruindade. Pelo menos teve o Gustavo de Biase que acompanhou nos horrores...

Terceiro bloco

O debate que estava morno finalmente esfriou ao chegar no terceiro bloco, em que os candidatos respondiam às perguntas dos jornalistas. Ao responder a uma pergunta referente à segurança pública, o Gustavo de Biase resolveu "copiar" Luiz Paulo e falou que caso fosse eleito teria um plano de fazer a capital capixaba uma das cidades mais seguras do país. Foi neste bloco que o Luciano Rezende resolveu furar a "retranca" dos demais candidatos e também deu sua proposta para esta área, algo que permitisse a integração da Guarda Municipal com a Polícia Militar no sentido de combater o crime e com medidas que atendessem aos usuários de drogas. Enfim, foi a partir deste momento em que o candidato do PPS começou a se destacar no debate.

Para finalizar este bloco, Montalvani voltou as suas bad trips quando perguntado sobre mobilidade urbana na capital. Criticou a implantação do BRT passando pela capital e a questão da ampliação das calçadas e ciclovias, inclusive no centro da cidade. A questão é que ele esqueceu que todo e qualquer projeto de mobilidade urbana hoje precisa primeiro contemplar os transportes pedestre, cicloviário e coletivo para só depois otimizar o transporte individual. Diga-se de passagem, pela "lógica" do nosso engenheiro visionário, Enrique Peñalosa foi um maluco ao implantar o Transmilênio, criar restrições ao uso de automóveis particulares no horário de pico e criar uma rede de ciclovias pela cidade de Bogotá quando foi prefeito. Enfim, não caiu a ficha de que a solução dos problemas de mobilidade urbana não passa mais pelo carro. Graças a isso, ele se tornou o destaque negativo deste bloco.

Quarto bloco

Era a última chance do debate pegar fogo...Era. Mais uma vez, os candidatos optaram por atuar na defensiva do que de fato fazer o confronto de ideias. Na verdade a retranca foi tão grande que há pouco do que comentar sobre esse bloco. Destaques para a "discussão" entre Luiz Paulo e Iriny Lopes sobre a criação de uma agência metropolitana (que a meu ver seria interessante, mas não algo crucial. Creio que o fortalecimento da CETURB-GV já seria o suficiente nesse quesito) que discuta a questão da mobilidade urbana e para o contorcionismo verbal de Montalvani ao não saber usar os argumentos certos para dar seus pontos de vista sobre os assuntos relevantes à capital, sendo mais uma vez destaque negativo do debate. Destaque positivo mais uma vez para o Luciano Rezende, que mostrou objetividade e clareza ao defender suas propostas nesta etapa.

Quinto bloco

O último bloco foi reservado para as considerações finais dos candidatos. Gustavo de Biase começou pedindo aos telespectadores pedindo para que votasse nos candidatos a vereador do seu partido (PSOL) pela competência que eles apresentaram (sim, o MC Tim Funk da Paz por exemplo é competentíssimo), Montalvani e suas pieguices seus apelos emocionais pelo fato dele ter vindo do interior do estado e falando de sua profissão (eu honestamente teria muito medo de colocá-lo para gerenciar qualquer projeto, afinal tanto na campanha como no debate mostrou que se ele tem alguma noção de economia da engenharia, é bem pífia), garantindo o papel de destaque negativo desta última etapa, Edson Ribeiro quase fazendo um culto...E Luciano Rezende mantendo a linearidade do bloco anterior, foi bem objetivo ao fazer suas considerações finais, ganhando mais uma vez destaque positivo.

Resultado do debate e expectativas

Se é possível dizer que teve um "vencedor" nesse debate de retrancas, foi o Luciano Rezende. Digo "vencedor" (sim, entre aspas) porque esperava mais dos candidatos a prefeito da capital quanto ao confronto de ideias, mesmo considerando que as regras do debate foram um convite à permanência na defensiva. Pelo menos o candidato do "gesto da mudança" mostrou clareza e objetividade na apresentação de suas propostas, por sinal bem "pés no chão". Aliás, após esse debate admito que mudei um pouco minha opinião sobre o LR. Seria simplista e superficial demais dizer que ele é uma "cópia pirata" do Luiz Paulo.

E por falar deste...Em seguida vem o tucano, que não foi mal no debate mas esperava uma postura mais cheia de vida "animada" para um candidato que está liderando nas pesquisas eleitorais. Honestamente, em alguns momentos essa postura excessivamente defensiva me fez beirar à irritação. Logo após vem a Iriny Lopes: não foi desastrosamente mal, mas para uma candidata que representa a continuidade de gestão petista a performance dela foi bem aquém do esperado...A impressão que se tem é que nem ela acredita que os oito anos da gestão dos "cumpanhêros" em Vitória foram tão bons assim.

A metade de baixo do "ranking" começa com o Gustavo de Biase. Considerando que ele é um candidato jovem, inexperiente e sem conhecimento técnico de gestão (o que pesou contra ele no debate, visto que ele falou uma série de coisas sem saber), não foi nada mal. Como ponto positivo pra ele, soube muito bem criticar alguns vícios existentes nas gestões de Luiz Paulo como a do João Coser. Após ele vem o Edson Ribeiro que pagou bem caro pelo falastronismo nos dois primeiros blocos, mas ao menos adotou uma postura mais comedida nas etapas seguintes.

Mas a meu ver o destaque negativo de todo o debate foi o Montalvani Lima. Tirando o "esporro" que ele deu no "cheirador de Bíblia", mostrou que fala do que não sabe e quando sabe, não usa os argumentos certos. Pior ainda que as propostas mirabolantes dele são ligadas à área dele (engenharia). A pergunta que não quer calar: ele faltou às aulas de economia da engenharia? Ele consegue fazer esses "milagres" na empresa dele, por sinal? Enfim, a impressão que se tem é que ele não conhece nem seu próprio ofício, quanto mais formular propostas coerentes para uma cidade de 330 mil habitantes, centro de uma região metropolitana de quase 1,7 milhão de habitantes.

Quanto às expectativas sobre a influência deste debate na preferência dos eleitores, creio que o Luciano Rezende pode ser o candidato que pode aproveitar melhor o momento para crescer nas pesquisas. Em relação aos demais candidatos, vejo uma tendência à estagnação. Para quem acreditava numa vitória de Luiz Paulo já no primeiro turno (isso me inclui) pode ser que a situação não seja tão confortável assim.

Comentários

  1. Concordo que essa forma de debate, prejudica o confronto de idéias pelo fato dos candidatos terem pouco para formular e responder perguntas. Na minha opinião esses debates deveriam ocorrer em áreas abertas e com tempo maior, onde o povo pudesse participar mais ativamente e levantar suas questões, mas como no Brasil este tipo de debates não funcionariam por vários motivos que devem ser de conhecimento de todos, temos que nos contentar com o modelo que temos e tentar dessa maneiras fazer a melhor escolha.

    Zé Mário

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