"Super-heróis" da inconsequência vs. "super-heróis" do conformismo...Não importa quem vença, nós perderemos (ou não)

Conforme prometido, vou comentar sobre o texto feito pelo Gabriel Tebaldi na coluna "Outro Olhar" no jornal A Gazeta de 15/09/2012, no qual ele dá sua opinião sobre os acontecimentos ocorridos na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), onde o colunista estuda História. Antes de transcrever o texto para depois comentá-lo, digo que conheço os textos dele desde o final do ano retrasado, quando ele ainda era estudante do 3º Ano do EM do Darwin em 2010. Agora que já fiz a "ficha técnica", transcreverei a coluna:

"Não é novidade que as universidades costumam andar distantes da realidade. O mundo acadêmico tem a incrível capacidade de mover-se alheio à sociedade que o cerca. Porém, os acontecimentos da instituição do Espírito Santo vão mais além: a UFES têm andado acelerada na direção da inconsequência.

De início, vale falar da porta de entrada da federal, seu vestibular. Hoje a UFES já preenche todos os pré-requisitos para abrir um doutorado em "Falhas e negligência de processos seletivos", afinal, é especialista em anulação de questões, fiscais despreparados, vazamentos de resultados e informações desencontradas. Os absurdos se acumulam ano a ano e as críticas são respondidas apenas com o silêncio.

Mesmo com todos os contras, alguns felizardos entram no ensino superior. Mas os aprovados de 2012 quase não tiveram tempo de usar seus cadernos novos. Há quatro meses, os professores da UFES foram os primeiros do país a entrar em greve.

A greve docente, assim como o vestibular, está repleta de absurdos. Para percebê-los, basta ir às assembleias do movimento. Lá os sindicalistas atrasam a abertura das reuniões e, quando começam, cospem discussões e bate bocas sem fim. 

Com esse retardo estratégico, a reunião vai se esvaziando, afinal, nem todos podem passar o dia sentados no campus à mercê dos desserviços de alguns. Aí a jogada é simples: com 
a assembleia vazia, os grevistas votam e aprovam seus interesses recheados de má-fé.

Os quatro meses de paralisação têm prejudicado dos estudantes até comerciantes das redondezas, que amargam meses de baixo movimento. Mas, embora tal situação incomode qualquer pessoa de bom senso, há um tipo de gente muito peculiar na federal conduzindo essa novela: são os super-heróis, que se sentem filhos da revolução, seres iluminados pela verdade.

Os super-heróis grevistas, por exemplo, acreditam que sua insistência fará com que Dilma atenda as reivindicações. Quase todas as instituições públicas já saíram da greve, menos a UFES, que está no mangue. Mesmo assim, ao contrapor um sindicalista, você corre o risco de ser atacado por gritos de mobilização e frases de efeito.

Tão sem lógica quanto a manutenção da greve foi a ocupação do Núcleo de Processamento de Dados (NPD) por alguns super-heróis menos elegantes. Todo o sistema de informática foi tirado do ar, prejudicando toda a universidade, sobretudo o Hospital Universitário. Mesmo assim, os "guerreiros" acreditavam estar salvando a UFES de sabe-se lá o que. A salvação terminou com uma decisão judicial de reintegração de posse.

Agora, poucas displicências são tão gritantes quanto quando o assunto é a violência. Assaltos acontecem quase que diariamente. A circulação e consumo de drogas é livre e não respeita nem as salas de aula. Em 2011, uma jovem foi sequestrada. As festas são verdadeiros pandemônios. E na última semana, uma jovem foi estuprada enquanto participava de um desses eventos. Mesmo assim, os super-heróis da ignorância são contra a entrada da PM no campus. Segundo eles, "a polícia iria reprimir as livres ideias e manifestações".

É claro que a simples entrada policial não traz a segurança desejada. Porém, hoje a universidade é uma terra sem lei, refúgio perfeito para bandidos que se beneficiam dos discursos pseudorrevolucionários que cheiram a mofo. Meia-dúzia de super-heróis querem por a segurança de milhares em risco para poder invadir a reitoria, botar fogo em pneus em frente as cancelas e, claro, queimar suas ervas.

Hoje a UFES caminha na contramão, acelerada por super-heróis que sonham combater ditaduras inexistentes e, na primeira oportunidade, lançam-se na política ou num cargo comissionado. 

Felizmente, porém, a universidade conta com milhares de pessoas dispostas a por fim nessa farra e retomar o eixo do ensino superior. E é exatamente esse grupo de professores, alunos e funcionários que hoje é responsável por reagir aos desmandos dessa minoria, afinal, os super-heróis da inconsequência são tão pequenos quanto suas ideias."

Voltei...

Não se assuste ou se incomode com as eventuais comparações que farei com onde estudo (antes tarde do que nunca, sou estudante de Engenharia de Produção do IFES Campus Cariacica) mas, me valerei delas para comentar o texto de Tebaldi sobre o assunto.

Sobre a greve dos docentes, todo mundo sabe que em relação a causa em si vejo-a como justa. Vejo que o professor deveria estar (junto com profissionais ligados à segurança, saúde e infraestrutura/logística) entre os profissionais melhor remunerados, visto que estas áreas são estratégicas para o desenvolvimento de qualquer país. Mas de fato, certos métodos utilizados na condução de movimentos grevistas como o citado por Tebaldi não só mancham a credibilidade como fazem as pessoas perderem a simpatia e o respeito pela causa dos docentes. Aproveito isso para criticar (no caso da greve ocorrida aqui no IFES) a falta de uma divulgação mais ampla e constante das manifestações que o sindicato que representa os professores e técnicos administrativos daqui (SINASEFE) ocorrida na greve recém-terminada de agora. Enfim, a questão não é a causa e sim os métodos.

Vale também destacar que o governo federal, como disse antes, a atitude deste ao encerrar as negociações com os grevistas pela assinatura do sindicato menos representativo das instituições de ensino superior foi no mínimo covarde e mostra que a fala de nossa "excelentíssima" governanta não passou de mera promessa feita em debate eleitoral. Um lado que o Tebaldi não mostrou em seu texto.

Outro ponto também não destacado na coluna é que a invasão e ocupação do Núcleo de Processamento de Dados foi motivada pela questão da falta de moradia estudantil e do auxílio moradia dado a estudantes de baixa renda. Mas de qualquer forma cai na mesma lógica que defendo no segundo parágrafo deste tópico: o método utilizado para defender tal causa foi bastante descabido. E seria perfeitamente merecido se a PF (que também estava de greve naquele momento) botasse alguns destes "super-heróis" atrás das grades.

Sobre a questão da segurança, nisso vou ter que concordar em gênero, número e grau com o Tebaldi. De fato, andar pela UFES (semanalmente preciso estar lá para uma reunião de um grupo de pesquisa relacionado à iniciação científica que faço sobre logística) é uma aventura (isso porque normalmente vou pra lá de manhã ou à tarde, quando precisei de ir a uma palestra, imagine andar à noite). Os poucos seguranças que rondam o local servem mais para garantir a segurança do patrimônio da instituição (entenda-se que o caso do estupro da jovem estuprada numa festa foi uma exceção das grandes, e foi muita sorte ela ter saído viva dessa). E realmente não dá para enxergar algum motivo lógico para ser contra a entrada da PM ou mesmo da Força Nacional de Segurança Pública (que não deixa de ser uma polícia militar também, sendo que a única diferença é que ela pertence ao governo federal, logo seria mais fácil a utilização desta) para garantir a ordem e o sossego de quem estuda por lá. E se fosse para entrar no IFES, seria plenamente a favor do mesmo jeito. A propósito, o que seria as "livres ideias e manifestações" que certas pessoas temem tal repressão? Seria o fato de poder empestiar o ar com aquele "cheirinho de erva" (se é que vocês me entendem) como ocorreu na USP ano passado e que foi motivo dos confrontos com a polícia (e posterior invasão da reitoria)? Ou seria usar a universidade como "bunker" para fazer uma guerra campal com a PM como a do dia 02/06/2011, tudo isso porque eles acham normal cercear o "direito de ir e vir" da população na sua luta pelo direito de vir e ir supostamente cerceado pelo aumento da passagem? Agora sim, tudo faz sentido...

E não é só a UFES que anda na contramão, como o colunista disse. Várias universidades federais e estaduais andam no mesmo caminho. E os institutos não estão salvos disso, ora em maior, ora em menor grau.

E o que tem a ver isso com o título do texto?

Bem, vou utilizar o que disse antes como base para este tópico e explicar porque disse que os institutos federais (sim, incluo o IFES nessa) não estão a salvo desta dispersão em relação ao objetivo principal de tais organizações, que é o ensino, a pesquisa e a extensão.

Os meus quase seis anos de IFES (na verdade quatro anos quando estudava no então CEFETES em Vitória e dois no IFES Campus Cariacica), bem como as eventuais discussões no grupo geral da instituição e no grupo do Campus onde estou locado me permitem dizer que existem dois grandes grupos que "disputam" a atenção dos estudantes e que querem liderar os movimentos que estes fazem.

O primeiro destes, como Tebaldi descreveu sobre alguns "estudantes" da UFES, é composto por aqueles que não interessam o método, o que importa é lutar pela causa (isso quando esta realmente importa). São aqueles que, por exemplo, acham perfeitamente correto fechar uma via principal em nome do "aumento abusivo" (este ano foi de 6,5%, praticamente ao nível da inflação do ano passado) da passagem de ônibus, andam encapuzados e levam bombinhas (apesar do protesto, segundo eles, ser "pacífico") para a manifestação. Tudo isso em nome da "consciência social". E não adianta contrapô-los. Se fizer isso ouvirá inúmeras frases de efeito, trechos de músicas de artistas "engajados" e adjetivos como "conservador", "reacionário", "egoísta" e coisas do tipo (isso pra não dizer coisas piores). Tudo isso só pela crítica aos métodos, não a causa em si. Só pra se ter uma ideia, teve gente que me acusou que eu era de extrema direita apenas pelo fato de que fui contra à invasão ao SETPES ocorrida no dia 8 de fevereiro deste ano. Enfim, é a "democracia de mão única": eles tem a liberdade de falar ou de fazer o que bem entender, mas ai de você se resolver criticá-los...São os "super-heróis" da inconsequência, como o colunista falou muito bem.

O segundo, oposto ao primeiro, mas não menos nocivo e perigoso, são aqueles que fazem questão de usar as manifestações e movimentos estudantis como forma de "babar o ovo" dos governos. Não importa quão ruim seja a situação do lugar ou as condições para estudar, como dizia o Felipe Massa após ter levado um passão de Alonso nos boxes no GP da China de 2010, "tá tudo bem". Apenas porque nas gestões anteriores supostamente (sim, supostamente) era pior. Claro, não resolva criticá-los ou criticar o governo que eles defendem com tanta empolgação ou ainda, criticar a situação do local onde você estuda (como é o caso), senão a "chuva de pedras" é certa. Também vão dizer que você é "conservador", "reacionário", "reclamão" e coisas do tipo...Só pra se ter uma ideia, quando num post no Facebook que alguém estava defendendo Fernando Haddad para ser prefeito de São Paulo e teve um que estava sendo quase malhado como Judas por criticar os malfeitos no ENEM (que todos conhecem muito bem) e a expansão das universidades na base de puxadinhos (que todos igualmente conhecem muito bem). Resolvi entrar na discussão para argumentar melhor para ajudar o cara que estava sendo malhado...Por que cargas d'água fui fazer aquilo? Teve gente que pediu pra que eu saisse do IFES por estar dizendo isso...Tudo porque não achei bonitinho estar num campus cuja unidade onde estou tem apenas quatro salas para seis turmas, uma biblioteca minúscula e que nem sempre tem os livros das matérias que tenho aula e apenas um laboratório de informática (tudo bem, o prédio é novinho até, mas e o prédio definitivo?) e a outra unidade, na qual fui monitor (e é provisória, tudo bem, há quase seis anos, mas é provisória...) era um prédio cujas salas estavam caindo aos pedaços, volta e meia ocorrem falta de água e energia elétrica e a quadra existente não pode ser usada porque fica em cima da sala dos professores (gênios da engenharia quem fizeram este prédio!). Detalhe: as pessoas que quase me "queimaram vivo" por isso estudam justamente...No prédio provisório com todos os defeitos que disse! Mas como me disse um professor de comunicação e expressão, tem gente que reclama do Transcol lotado e o cara ao lado fala pro sujeito "pegar um táxi" então. Estes são os "super-heróis" do conformismo, conforme a descrição acima.

Enfim, nesta batalha entre essas duas "forças" do movimento estudantil os únicos que saem perdendo são os próprios estudantes e as instituições públicas de ensino superior como um todo, infelizmente.

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