Ufanismo acima da lógica e dos fatos

Bem, iria fazer apenas um post comentando o pronunciamento bem animador da nossa "queridíssima" presidenta Dilma Rousseff, mas o tempo passou e decidi transformar o post que farei agora num comentário sobre a onda "patriótica" que o Brasil experimentou de quinta-feira até ontem, quando o Brasil massacrou a poderosa...China. Mas vamos ao assunto, né pessoal?


Quinta-feira, véspera do feriado de 7 de Setembro, dia da independência do Brasil (tudo bem, independência feita por um português, filho de portugueses, da família real portuguesa, mas tá valendo), a nossa presidenta resolveu fazer um pronunciamento, digamos, bem otimista em relação à realidade. Para começo de conversa, como é possível falar que um país que nos últimos anos crescia entre 3,5% e 5,5% ao ano, com picos de até 7,5% (em 2010, durante a crise já) e que cresceu 2,7% em 2011 e que promete crescer "incríveis" 1,6% este ano (no início se falava em 4,5%) não foi abalado fortemente pelas incertezas que dominam a economia desde 2008? Lembrando que neste segundo trimestre nosso país cresceu apenas 0,4%, apenas melhor que os europeus, que estão agora apagando os "incêndios" de suas dívidas internas.

"O Brasil criou nos últimos dez anos, um modelo de desenvolvimento inédito". Inédito? Tem certeza? Ou será que o filme "A Lagoa Azul" virou filme inédito agora? Esse modelo de desenvolvimento, que se baseia em crescimento com estabilidade, no equilíbrio fiscal e na distribuição de renda, é, digamos, inédito na Europa desde a segunda metade do século passado (o Canadá entra na mesma balada). E diga-se de passagem, somos o quarto país mais desigual do mundo. Só por isso, comparar o nosso "inédito" modelo de desenvolvimento com o de qualquer país europeu seria um descabimento sem precedentes.

Foi interessante do momento em que nossa "excelentíssima" falou de competitividade. Tudo bem, melhoramos cinco posições no ranking do WEF sobre esse aspecto, apesar de que perdemos para "superpotências" como o Panamá. "É preciso melhorar a infraestrutura". Ué Dilma, mas não era você que falou que o Lula deixou uma "herança bendita" com investimentos consistentes nessa área? Sobre o aprimoramento dos vários níveis em educação, saber e conhecimento, tá precisando mesmo...O ensino médio praticamente estagnou o seu Ideb nos últimos dois anos (sendo que em nove estados esse índice caiu) e o que se viu nos últimos dez anos foi o aumento do número de analfabetos funcionais e de pessoas com nível básico de alfabetização (que é o exigido no ensino fundamental) no ensino superior. Isso porque não falei (em outro momento comento) sobre a expansão das universidades e institutos federais na base dos "puxadinhos".

O "ápice" do otimismo (que nesse caso beira ou até passa os limites da picaretagem a meu ver) foi quando a presidenta anunciou um pacote de "bondades" no qual a conta de luz cairia 16,2% para usuários residenciais e 28% para o setor produtivo. Mas o fato é que a "redução" na verdade não passa de uma reação do governo a um processo do TCU que apurou cobranças indevidas na conta de energia elétrica, na ordem de R$ 7 bilhões. Não foi bondade nenhuma. Uma hora ou outra nossa "excelentíssima" teria que fazer isso. Mas nada mais animador do que ser "boazinha" na véspera de um dia que pode-se dizer que ocorre o auge do "patriotismo" em nosso Brasil (em situações normais. Não conto jogos da Seleção, que comentarei ainda neste post).

"Revigoramos os fundamentos de nossa política econômica exitosa". Cai no mesmo balaio do ineditismo do "modelo de desenvolvimento inédito". Muitos desses fundamentos dessa "nossa política econômica" já existem desde a implantação do Plano Real, ocorrida em 1994, feita pelo odiado, execrado, demoníaco...FHC! E salvo pouquíssimas alterações (afinal antivírus bom é antivírus atualizado), muitas coisas da política econômica atual seguem em frente até hoje.


Mas creio que alguém pergunte: "Meu caro, o que cargas d'água o jogo do Brasil contra a China tem a ver com o pronunciamento da Dilma?". Tanto o pronunciamento como a partida da Selemano tem duas coisas em comum (na verdade, ambas se complementam): uma carga de ufanismo e de uma dissociação da realidade factual que empolga os menos informados e de certo modo espanta aqueles mais inteirados dos fatos (e que não deixa a onda de patriotismo decorrente do feriado ou mesmo a ideologia se colocar acima da lógica). Ufanismo porque tanto o governo federal como a Seleção se gabaram de realizações ou de acontecimentos que de extraordinários não tem nada. Querer fazer parecer uma redução na conta de luz que caminharia para ser obrigatória uma benesse governamental "a la Madre Teresa" é algo tão questionável (no mínimo) quanto querer fazer parecer a goleada de oito a zero do Brasil sobre a China algo espetacular ("um jogão", como diriam por aí). A propósito, eu assisti ao jogo (tirando o momento que minha mãe pediu para que eu lesse um livro com minha irmã) e não vi nenhuma diferença entre o futebol da Seleção no amistoso de  anteontem em relação à maioria dos jogos. A impressão de "bom futebol" gerado pelo placar avantajado (aliás, em dois anos sob o comando de Mano Menezes, foi a primeira vez que se vê um placar folgado como esse) se deve mais à fraca seleção chinesa que para piorar nem pode ter todos os seus reservas disponíveis. Aliás, não entendo como a seleção espanhola, campeã do mundo e bicampeã da Eurocopa conseguiu o DOM de ganhar por apenas um a zero (tudo bem, a gente sabe que eles preferem mais manter a posse da bola do que de fato partir pra cima e fazer vários gols, mas mesmo assim).

Enfim, o que queria dizer isso tudo é bem simples: a realidade tá longe de ser agridoce tanto para nós em relação a nossa economia, infraestrutura e educação quanto para o "futebol" da Selemano (até porque de grana vão muito bem, obrigado). Minimizar ou omitir ao menos parte disso me parece ufanismo. Agora, querer fazer isso parecer algo esplêndido me parece colocar este ufanismo acima de tudo que seja lógico e factual. Simples assim.

P.S.: Em parte do período em que existia essa cobrança indevida na conta de luz, Dilma era...Ministra de Minas e Energia...Agora sim, tudo faz sentido...

P.S. 2: A situação parece ser ainda pior: Clique AQUI.

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