"Noobs" do ENEM: seria esta a prova de que uma boa parte dos problemas na educação brasileira são de responsabilidade dos...Estudantes?


Boa tarde (ou noite, já que talvez eu demore a terminar este post, ainda mais porque esse primeiro dia no “sedão” do IFES Campus Cariacica está bastante movimentado para mim) pessoal. Conforme prometido “descansei” neste feriadão de finados, enquanto milhões de estudantes em todo o Brasil estavam decidindo suas vidas fazendo as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que ocorreram anteontem e ontem. Mas, como insinua o título, a prova em si não será o assunto principal, e sim sobre o comportamento irresponsável de alguns candidatos, que a meu ver levam à reflexão: será que só o governo (federal, estadual e municipal), além dos professores e da infraestrutura das instituições de ensino tem (grande parcela de) culpa na péssima qualidade que está a educação brasileira? Ou será que os estudantes também merecem ser responsabilizados por isso?

Os casos e “causos” ocorridos nos dois dias de prova são vários e com explicações diversas, mas alguns deles ganham destaque pelo nível de leseira burrice incompetência necessário para se chegar a tal “façanha”. Começo pela “proeza” de esquecer de marcar o cartão-resposta após mais de quatro horas de prova. Tudo bem que esse primeiro caso até merece o benefício da dúvida, até porque a candidata que conseguiu fazer isso alegou estar nervosa e passando mal, mas convenhamos, custava a ela comunicar aos fiscais que ela não estava bem? Lembrando que em duas provas nas quais eu era auxiliar aos fiscais de corredor (tudo bem, não era o ENEM, mas se repararem os processos seletivos em geral possuem normatizações semelhantes) sempre tinha um espaço para atender a pessoas que estavam com problemas durante a realização da prova. Enfim, perdeu um ano inteiro de estudos por conta de falta de atenção ou mesmo de comunicação. Como diz o ditado: “quem não comunica se trumbica”.

Bem, como dito, até que é possível dar um desconto nesta situação. As outras, porém, são realmente demonstração de desatenção, falta de ler ou de interpretar as principais regras da prova ou ainda, desinteresse em algo tão importante e capaz de decidir os próximos quatro, cinco ou seis anos da carreira (e até a vida) de uma pessoa. O primeiro “causo” foi da primeira aluna a sair da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que foi um dos locais de prova) que disse que acabou “chutando” todas as questões. Até aí nada de absurdo, não fosse a justificativa dela que foi estar cansada porque passou a noite anterior numa festa na quadra da Salgueiro (escola de samba). Só por aí já para ver a “vontade” que ela tinha de fazer a avaliação. Será que é tão difícil abrir mão de algo que dá para aproveitar praticamente a qualquer momento em prol de algo decisivo para o futuro?

Os outros “causos” foram aos atrasos, que honram a tradição do brasileiro em querer fazer as coisas sempre na última hora: um foi por conta de uma garota que chegou cinco minutos atrasado isso morando na Tijuca, que fica próxima à mesma Uerj (qualquer coisa para detalhes confira o primeiro link deste post); Outro ficou por conta de uma rondoniense que perdeu a prova por que seu pai estava assistindo ao GP de Abu Dhabi de Fórmula 1 e acabou não a levando de carro (com um simples detalhe: ela tem 18 anos); Tem outro que ficou por conta de uma baiana que perdeu a prova porque a família foi fazer uma oração...Pois bem, para todos estes casos (assim como qualquer caso de atraso) existe uma recomendação simples e óbvia (que existe na maioria dos processos seletivos): chegar com uma hora de antecedência ao local. Tal recomendação não existe por um mero acaso ou para assustar as pessoas, acredite, é justamente para evitar situações como essa. Principalmente levando em conta que nos finais de semana, mesmo com “esquemas especiais” de linhas de ônibus estas costumam ser escassas e o trânsito próximo aos locais de prova pode ser infernalmente caótico, ou seja, motivos suficientes para se preparar desde cedo. Sobre a justificativa da rondoniense, nem precisa falar né... Com maioridade alcançada e dependendo de pai para ir para cima e para baixo tem mais é que ficar sem vaga na faculdade mesmo (lembrando que aos 11 anos ia a pé para a escola e na época do integrado, mesmo com meu (hoje) falecido pai tendo carro fazia questão de ir de ônibus para o antigo CEFETES).


Por fim, a cereja do bolo de irresponsabilidades ficou por conta dos candidatos eliminados por postar fotos da prova nas redes sociais. Nem é necessário dizer que beira (vamos pegar leve, galerinha...) a idiotice ficar tirando foto de prova para provar (uau, que trocadilho bonito) que realmente estava fazendo o ENEM. Mas claro, não podia faltar um “bode expiatório” para isso tudo. E os pseudorrevolucionários “engajados” politicamente e socialmente escolheram (tudo bem, não é a primeira vez) a revista Veja como fonte dessa miséria que aconteceu nesses dois dias de tantas pérolas. Tudo bem, não considero a revista da editora Abril um oásis de imparcialidade (aliás, passa bem longe disso na maioria de suas reportagens), mas na boa, ela é culpada pelos pregos pelos noobs pela incapacidade alheia de interpretação de texto. A não ser que essas tais pessoas que demonizaram a Veja por isso realmente acreditam que a pessoa pode colocar um pedido de uma revista acima de uma norma (ainda que implícita) comum a todos os processos seletivos (o que reforçaria a ideia de que a galera realmente necessita, e com o máximo de urgência, de aulas de interpretação de texto). Pensando bem, se a revista teve (mas só se tivesse mesmo) a intenção de “trollar” alguns candidatos, até aplaudo de pé, afinal fez um favor em eliminar alguns “anarfas” funcionais (sim, é exatamente isso que digo). É a publicação da Abril auxiliando na “seleção natural”.

Enfim, tem certos problemas na educação que aumentando os salários dos servidores que trabalham nessa área (principalmente o dos professores) e uma porcentagem maior do PIB resolve (apesar de que investimos uma proporção semelhante a dos países desenvolvidos e a correlação disso no nosso caso manda um abraço e um beijo, né?). Mas nesses casos dos parágrafos acima sou tentado a acreditar que nem se um professor recebesse o mesmo de um deputado (com todas as regalias ainda) e se 100% de nossas riquezas fossem investidas para ensinar nossas crianças e jovens um caminho para uma vida melhor deixaríamos de estar ferrados (para não dizer outra coisa) e mal pagos.

P.S.: Agradecimentos especiais à Carol Comper por ter ajudado na revisão deste texto.

Comentários

  1. Cara, francamente. Idiotas existem em todos os lugares. O número de idiotas que fizeram o ENEM dividido pelo número de candidatos é ínfimo, portanto não poderia tirar a conclusão que tirou.

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  2. Por isso que não afirmei "todo" o problema, e sim "parte".

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