O sensacionalismo em torno de "Sandy"


Boa noite pessoal. Conforme prometido (apesar de que o editor chefe, no caso, eu, estou quase preferindo a procrastinação) o Minuto Produtivo fará um post comentando sobre a cobertura midiática (no caso, a brasileira) em torno do furacão Sandy, que trouxe transtornos aos norte-americanos a partir da última segunda-feira, 29 de outubro, apesar de que no Caribe ele já fez muitos estragos e muitas vítimas.

Desde já, o motivo da crítica em relação ao que a imprensa fez com relação a mais um da série de furacões e tempestades tropicais que atingem o Atlântico Norte todos os anos não é pela cobertura em sí, mas pela forma dramática, quase que "apocalíptica" que os meios de comunicação expuseram este fenômeno natural. Para começo de conversa, quando Sandy ainda fazia estragos e provocava mortes no Caribe, nossa imprensa tratava tal tragédia apenas como "uma nota de rodapé": dedicava apenas um minuto, mostrava algumas imagens e dava algumas estatísticas de mortos e desaparecidos por conta das chuvas torrenciais e dos ventos fortes causados pela tormenta, assim como qualquer furacão ou tempestade tropical que passa pela região. Mesmo quando tais fenômenos conseguem chegar aos EUA, o máximo que costuma acontecer é um maior tempo falando sobre a tragédia causada ou até mesmo um bloco inteiro de um noticiário, como foi o caso do Furacão Katrina em 2005.

Mas bastou que a previsão apontasse que Sandy chegaria à costa leste americana para a imprensa das Bananas transformasse isso num "espetáculo" para que milhões de brasileiros acompanhasse tal fenômeno que estava ocorrendo a milhares de quilômetros daqui praticamente "ao vivo". Tudo bem, é na costa leste que tem uma das maiores concentrações de imigrantes brasileiros nos EUA. Lá também fica uma das maiores metrópoles do mundo e praticamente o centro financeiro do planeta (Nova York). Lembrando ainda que os norte-americanos ainda não venceram completamente a crise econômica iniciada em 2008 e que dependendo dos impactos que isso gerasse sobre a economia da região e, por conseguinte, do país, algumas consequências poderiam ser sentidas mundo afora. Mas não considero isso como justificativa de lotear quase todo um noticiário para transmitir algo que não estava acontecendo por aqui. Tudo bem, os atentados de 11 de setembro de 2001 também não aconteceram no país, mas vale lembrar que era um fato de proporções inéditas, inclusive catalogado no Guinness como o atentado terrorista com mais vítimas no mundo, o que não é (não exatamente como nossa imprensa tupiniquim pinta) o caso de Sandy. Lembrando que nesse meio-tempo em que os telejornais e os sites de notícias demandavam tempo na "turnê" da "supertempestade". Aliás, se eles chamam tal tormenta, classificada como furacão tipo 1 na escala de Saffir-Simpson de supertempestade, o que seria o Katrina, ocorrido em 2005? Super-mega-hiper-ultra-blaster-tempestade? Lembrando que este antes de tocar o solo americano era um furacão tipo 4. Mas tudo bem, apesar de ter provocado bem mais vítimas que Sandy, não atingiu o centro financeiro dos EUA (e do planeta) nem ao menos fez Dow Jones parar por dois dias, então "dane-se o resto".

Isso sem contar que enquanto os noticiários demandavam quase todo o tempo para a turnê da cantora tempestade, alguns fatos a meu ver mais relevantes e urgentes ocorreram no Brasil e não tiveram tamanha repercussão, como a transição entre as atuais gestões e as novas (que foram recentemente eleitas) e a guerra entre a Polícia e o PCC em São Paulo. Mesmo se falarmos em clima (ou de tempo), temos ainda a seca na Região Nordeste (uma das piores em décadas) e a recente onda de calor registrada no centro-sul do Brasil, com recordes históricos de temperatura sendo batidos (inclusive com temperaturas próximas ou superiores a 40 graus sendo registradas). Em Vitória (ES), cidade vizinha a de onde moro, foi registrada a maior temperatura em mais de dois anos, 36,3ºC (anteontem, 31/10). E graças ao forte calor registrado na segunda quinzena do mês passado outubro encerrou com média das máximas próxima a 30ºC, sendo que a média é de 27ºC.

Enfim, não há nada que impeça de nossa mídia nativa de noticiar um fato que ocorre numa outra parte do mundo. O que não me parece normal é dedicar a maior parte do tempo para isso, sendo que coisas muito piores já ocorreram por lá e não tiveram tamanha espetacularização. Menos normal ainda é fazer isso com acontecimentos mais urgentes ocorrendo por aqui.

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