Tudo pela diversão, todos pela diversão, nada fora da diversão. Ou: a "jenialidade" que mata

(Fonte da imagem: Estadão)
Boa noite pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar sobre um assunto que dominou o noticiário nacional e até internacional: a tragédia na boate Kiss, em Santa Maria (RS). Até agora foram contabilizadas 233 mortes. A hecatombe, provocada por um incêndio, é a segunda maior do tipo ocorrida no Brasil, perdendo apenas para o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, ocorrida no dia 15/12/1961 em Niterói (RJ), que causou 503 mortes.

A repercussão do acontecimento foi rápida. O governo gaúcho montou um comitê para cuidar da situação, diversas autoridades ofereceram apoio, a presidenta Dilma Rousseff cancelou alguns compromissos que ela tinha no Chile para visitar o local e até mesmo fora do país houve comoção. Nas redes sociais as reações foram variadas, desde comoção até piadinhas de "humor negro" por conta da tragédia (nada contra humor negro, mas respeito não custa nada), passando por indiferença disfarçada de "campanha contra falso moralismo". Pois bem, não entrarei no mérito de discutir isso, até por que a intenção deste post é discutir se temos ou não que nos comover com isso, bem como sua proporção. Até porque para efeito da situação em si, isso pouco importa.

Também a intenção deste post não será de apontar, julgar e condenar A, B ou C pela tragédia, até porque para isso existem as investigações e só com elas para se tirar de fato qualquer conclusão. Mas algumas informações preliminarmente levantadas nos levam a algumas perguntas ou hipóteses. A primeira delas fica quanto à licença contra incêndios do estabelecimento, vencida desde...Agosto de 2012! Durante cinco meses o estabelecimento estava funcionando de forma irregular. E, por sinal, nada de fiscalização para garantir a não operação da casa de shows enquanto a situação não fosse regularizada.

O segundo ponto fica por conta do procedimento dos seguranças, que durante os momentos iniciais da confusão tentaram impedir a saída dos frequentadores da boate. Na verdade se for para achar culpados nesse ponto os últimos seriam os "homens de preto", até porque de certo modo eles estão na base da empresa e apenas estão lá para cumprir ordens dos administradores do local. Então, a maior responsabilidade fica por conta dos gestores, que de um certo modo negligenciaram no sentido de oferecer o treinamento necessário não só aos seguranças quanto aos outros funcionários para lidar com o público diante de situações como essa. O pior é pensar que isso não é um procedimento exclusivo da boate Kiss. Ano retrasado, numa confusão numa boate na Praia da Costa, em Vila Velha (ES), a falta de senso foi a mesma. A "sorte" é que foi apenas uma "noite das garrafadas", ninguém estava armado ou ocorreu incêndio por lá.

Mas talvez o que me chamou a atenção (e de certo modo justificou o segundo título deste post) foi o fato de ter ocorrido um show pirotécnico (e que pode ter sido a causa mais provável do incêndio). Sim, em um local fechado, num local revestido com espuma acústica. Qualquer pessoa com o mínimo de noção de química e de lógica sabe que num ambiente fechado (quantidade finita de ar, por sua vez quantidade finita de oxigênio, logo tendência maior à combustão incompleta), o risco da fumaça produzida conter monóxido de carbono (CO) é maior. E como todos sabem, o CO é um gás altamente tóxico que inclusive pode provocar a morte por asfixia caso a pessoa o inale por muito tempo. Obviamente, com o incêndio, a situação se potencializou, e dependendo do material que compõe a espuma outros gases tão ou mais tóxicos que o CO foram produzidos. Enfim, o que quero dizer com isso? Simples, falta de bom senso, digna daquele meme "Genius".

Tudo bem, alguém pode vir aqui e dizer: "Ora, eles são experientes, os shows pirotécnicos são a marca registrada da banda". Ué, várias pessoas soltam balões e nem de longe todos eles caem numa floresta ou em algum local habitado, provocando incêndio, e mesmo assim não deixa de ser um ato perigoso (e crime, diga-se de passagem). Várias pessoas bebem e depois dirigem e nem de longe a maioria acerta um carro num poste ou em outro veículo, se matando e matando outras pessoas. E mesmo assim não deixa de ser um ato perigoso (e uma infração gravíssima no Código de Trânsito Brasileiro). Enfim, o que quero dizer é que o fato de tal ato não causar em sua maioria dano a algo ou alguém não reduz a sua periculosidade. Simples. E ainda fica uma pergunta que as autoridades poderiam fazer ao dono do estabelecimento: custava investir em espuma acústica anti-chamas? Sim, ela existe!

A tragédia de Santa Maria deixará algum legado?

Muitas tragédias costumam deixar, por menor que seja, um legado, especialmente na questão de segurança e nos planos de contingência e emergência. Um exemplo disso foi uma tragédia semelhante ocorrida em Buenos Aires (Argentina), no ano de 2004. E diante das interrogações preliminarmente levantadas (boate operando com licença vencida, show pirotécnico sendo feito em um local fechado, materiais usados na construção do estabelecimento que facilitam a propagação de incêndio e equívocos crassos na hora de se lidar com o público diante dessa situação), cabem as partes envolvidas (poder público, empresários do setor de entretenimento, artistas e frequentadores) buscarem maneiras de se garantir uma diversão segura e responsável.

Ao poder público, cabe a tarefa de cobrar e fiscalizar com maior constância e rigor, apenas permitindo que tais estabelecimentos funcionem quando as exigências de segurança forem cumpridas, assim como estabelecer normas claras e contundentes em tal sentido. Aos gestores do setor de entretenimento, cabem reforçar (ou passar a ter, caso não tenha) a mentalidade de que um estabelecimento que não dê só conforto, mas resguarde a segurança e a integridade física de seus clientes é sinônimo de maior credibilidade e garantia de fidelização do cliente (no final, ele teria muito mais a ganhar ao investir nisso). Aos artistas que atuam em tais lugares, cabem valer do bom senso e da parcimônia antes de usar efeitos especiais que envolvam eletricidade, fumaça e fogo. Mas você, que curte a vida noturna e não perde um final de semana à noite para ir à boate, pode ser o principal elemento dessa mudança. Sim, é você mesmo! Se você paga (e caro, diga-se de passagem...Só lembro de amigos meus que falam que uma simples garrafa de vodca custa mais de R$70, sendo que no supermercado a mais cara custa um terço disso) para ter algumas horas de diversão é direito seu cobrar da casa de show que ela ofereça e garanta a segurança necessária para que você possa sair de lá apenas com as boas (ou nem tanto) lembranças do local. Tenha a curiosidade de visitar o local e verificar se possui saídas de emergência, extintores com fácil acesso, bem como sprinklers e outros dispositivos que evitem a propagação de chamas. E, procure verificar junto ao dono ou aos administradores do estabelecimento se o mesmo possui todas as licenças necessárias para funcionar. Procedimentos simples, óbvios e triviais até, mas que podem salvar a sua diversão ou pelo menos sua vida. No mais, torço para que a realidade brasileira nessas situações e bem descrita pelo Sr. Guilherme Macalossi não torne a repetir-se, infelizmente.

No mais, espero que as famílias das vítimas consigam se recuperar de tal situação, bem como de seus possíveis traumas. E que o pensamento descrito no primeiro título deste post (uma paráfrase da política "tudo pelo Estado" do fascista Mussolini. E antes de me interpretarem mal não tô chamando nenhum dono ou frequentador de boate de fascista, pelamor) possa ser mudada.

E a vida segue.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva