Agora pedir qualidade nos serviços virou algo elitista? Ou: nunca se voou tanto e nunca se teve tanto prejuízo

(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)
Boa noite pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar sobre a medida drástica tomada pela Gol depois dela ter tomado um tombo bilionário no ano passado. Na verdade meu foco nem será sobre isso, mas será sobre o texto de Matheus Pichonelli na Carta Capital, que trata como "Almeidinha" quem questiona isso. Antes que alguém me pergunte, "Almeidinha" seria uma forma carinhosa de dizer que a pessoa é "elitizada" ou mesmo "elitista".

Também antes de comentar sobre a pérola o texto em si, antes que alguém me critique pelo fato de estar questionando ou contestando o texto do Sr. Pichonelli ou a revista semanal em si, eu, de um certo modo, apesar de não concordar com a Carta Capital na abordagem sobre certos assuntos (na verdade a maioria), vejo como interessante e até certo ponto necessário ver uma forma alternativa de se enxergar os fatos do cotidiano. O que não me impede de achar ou pensar que a maneira de tratar certos temas pode ser parcial ou totalmente infeliz (o que é o caso). Ah, em tempo: da mesma forma que ler Veja não te faz mais cult e intelectual, ler Carta Capital também não causa este efeito magnífico que todos gostariam de ter ao menos uma vez na vida. Muito menos ler Carta Capital e tachar de "alienado" quem lê Veja (o contrário também vale). O máximo que pode fazer é você acabar se tornando um chato (só não mais por falta de espaço).

De volta ao assunto, transcreverei trechos do texto. Volto mais tarde.

"Foi uma confluência de incidentes. No mesmo dia em que descobriu que terá de pagar hora extra para a empregada e o guaraná no voo da GOL, acabou o estoque de lexotan na casa do Almeidinha. Se fosse na semana anterior, seria uma quádrupla tragédia, a contar o litro de leite de soja com detergente ingerido após o treino de spinning.

Não está sendo fácil.

Almeidinha já faz as contas do quanto terá de economizar para dormir tranquilo, com a cueca limpa e sem passar vontade nas duas horas e pouco da viagem até Porto Seguro com a família que pagou a prestação.

Pensa em levar amendoim e garrafinha Dolly enrustida no casaco para evitar um escarcéu do filho mais novo. Se começar a espernear, berrar, babar, fingir desmaio, o menino é capaz de convencer os comissários de bordo a distribuir gratuitamente até PlayStation no avião. [...]

[...] Nesta vida de humano direito, conclui, quem trabalha está condenado a pagar a própria bebida no avião. Isso quando a bebida não vem contaminada por detergente. Nunca foi tão difícil viver."

Voltei...

O texto do Pichonelli é até certo ponto interessante e bem-intencionado no que se refere a fazer uma crítica a uma certa parcela da sociedade brasileira que vive alienada em relação aos problemas reais. Mas quanto à crítica feita em relação a quem questiona o pacote de austeridade feito pela Gol, eu vejo com algo um tanto infeliz ou que minimamente pode abrir precedente para argumentos infelizes. Digo isso porque afinal, é natural e/ou pelo menos é um direito de quem usa o avião para viajar a lazer ou a trabalho exigir o mínimo de qualidade nos serviços prestados (o que se estende em qualquer procedimento de compra/venda de qualquer produto e/ou serviço em qualquer empresa). A propósito, alguém em sã consciência, considerando uma viagem para o mesmo destino, em aeronaves semelhantes, com tempos de viagem e preços relativamente próximos, optaria o que? Um voo que tenha pelo menos um suco de maracujá com biscoito  (pelo menos aqueles de isopor que tem em algumas padarias, serve...Pelo menos pra enganar o estômago)? Ou isso não importa, afinal, se preocupar com algo alem de uma garrafinha de água durante um voo, mesmo que demore uma manhã ou tarde inteira, é algo de gente elitizada, fresca? Ou como diria o Sr. Pichonelli, coisa de "Almeidinha"? Ele próprio optaria por qual serviço, hein?

É claro que ninguém (creio eu) está pedindo para que a pessoa seja recepcionada no avião com tapete vermelho, com um serviço de bordo que tenha filé de salmão servido com pratos de porcelana chinesa e talheres de prata, até por que isso tem um custo (muito alto) e acaba afastando o transporte aéreo das massas (como afastava até uns dez anos). Mas será que é tão penoso oferecer ao menos um engana-estômago aos passageiros de avião além de uma garrafinha de água? Aliás, pensando que a Gol teve um prejuízo bilionário e não é a única que está nessa pindaíba toda por aqui, vem mais uma pergunta, inclusive feita neste último link: como justificar esse tombo mesmo com tanta gente indo e vindo de avião? A (maior) culpa seria realmente do lanchinho servido aos passageiros? E já que estão "no vermelho", quem está ganhando com isso (além do governo, com suas n+1 tarifas, taxas e impostos que ainda não são diretamente proporcionais à qualidade da infraestrutura ligada ao setor)? Procuro uma boa resposta, e apesar de essa pergunta merecer valer um milhão de dólares, não tenho nem um iene para pagar a quem responder bem essa questão.

Enfim, eu não vejo demonstração de "elitização" ou de "elitismo" exigir um tratamento minimamente digno a quem fica horas em um avião (como já disse, o mesmo vale para qualquer comercialização de um produto ou serviço). Até porque se formos seguir a "lógica" pichonelliana até as últimas consequências, daqui a alguns anos protestar por um transporte no qual você pelo menos não ficará compactado e em pé ou querer um sinal melhor da TIM poderá ser considerado coisa de "Almeidinha". Se não é uma generalização infeliz, caminha para isso.

Comentários

  1. Muito bom, na verdade eu vejo esta taxação de quem reclama por qualidade no serviço de "Almeidinha" como uma forma elitizada de ver o mundo. Eu explico, é uma visão de que como o avião está se tornando um meio de transporte de massas, então pobre está acostumado com serviço de quinta qualidade, logo deveria estar satisfeito em ter uma cadeira pra sentar e pronto. Agora eu pergunto: quem é "Almeidinha"? Quem reclama melhor qualidade nos serviços ou quem acha que isto não deveria ser cobrado?

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