Especial: Aeroporto de Linhares, futuro Viracopos capixaba? - Parte I: O contexto

(Fonte da imagem: G1)

Boa noite pessoal. Hoje, conforme prometido no início desta semana, usarei o Minuto Produtivo para começar a falar de uma forma pormenorizada sobre os projetos que poderiam mudar a cara do Espírito Santo nas próximas décadas. E para seguir a sequência, começarei falando sobre a possível (e futura) necessidade de se construir um aeroporto internacional no município de Linhares. Para quem for perguntar se estou falando sério neste post, sim, estou falando de algo que poderia e até ser realidade nos próximos anos. Como diz o extinto "Emergency Broadcast System" norte-americano, "este não é um teste".

Por se tratar de um tema relativamente extenso e que pode gerar polêmicas, vou dividí-lo em pelo menos duas partes. A primeira delas será dedicada a falar sobre o contexto que embasaria a justificativa para a construção de um empreendimento de tal porte neste município. A próxima seria para falar sobre o projeto em si e eventualmente pode ser que haja uma terceira parte para responder a eventuais questionamentos. Mas enfim, vamos lá.

A dificuldade de implantação de grandes empreendimentos na Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV)

Aeroporto de Vitória. Acredite se quiser, nossa rodoviária é bem melhor. (Fonte da imagem: Infraero)

Basta uma breve visualizada em algumas das estatísticas sobre a Região Metropolitana da Grande Vitória para pensar o quão simplória (para não dizer errônea) é a opinião de algumas pessoas ao dizer que "moramos em um ovo". De acordo com o Censo 2010 do IBGE, a RMGV ocupa uma área de 2319 km², tem uma população superior a 1,7 milhão de habitantes (mais de 700 hab/km²) e um PIB superior a R$ 45 bilhões. Levando em conta o último dado, se nossa região fosse um país, teríamos uma soma de todas as riquezas produzidas semelhante a de Luxemburgo por exemplo. Tudo bem, não somos uma megalópole, mas simplesmente não é admissível sermos considerados pequenos.

Se levarmos em conta que a densidade demográfica da RMGV é simplesmente algo próximo a dez vezes a média do Espírito Santo e a da capital ultrapassa quarenta vezes, somado ao boom do setor imobiliário nos últimos cinco anos e a falta de um planejamento urbano de modo a comportar de forma adequada essa população em períodos anteriores, já é possível entender o porque da dificuldade de se implantar qualquer empreendimento de grande porte por aqui. Se tomarmos como exemplo os projetos de mobilidade urbana, mesmo uma obra relativamente (destaquei em negrito propositalmente) simples como a construção de um terminal de transporte coletivo pode se tornar cara e demorada (a questão é saber até que ponto os gestores de tais projetos levam isso em conta na construção dos mesmos). Para se ter uma ideia o Terminal de Jardim América ficou apenas "no tapume" por mais de um ano. E a duplicação da Avenida Fernando Ferrari durou catorze anos. Se falarmos do Aeroporto de Vitória, também se enquadra nesta problemática, com o agravante de existir uma disputa judicial rolando há decadas sobre tal área (clique aqui para conferir).

Sobre o nosso ponto de ônibus voador puxadinho aeroporto, bem, nem precisa falar que caminhamos para uma década e a novela sobre o assunto e ao que tudo indica estamos longe de chegar ao último capítulo. Desde 2004, tal projeto de ampliação foi anunciado com alarde pelo governo federal e recebido com esperança pelos usuários que esperavam um dia voos internacionais de passageiros em terras capixabas. Porém em 2008, quatro anos após o anúncio (três após o início das obras) a dita esperança de termos uma infraestrutura aeroportuária coerente com o crescimento do nosso estado foi paralisada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) diante de denúncias de irregularidades e superfaturamento e está assim até agora. Existe a possibilidade de haver a retomada das obras acontecer em agosto. Por enquanto, sabe-se lá quando isso ficará pronto. Ah, sim, sobre a esperança de termos um aeroporto internacional depois que tal novela termine um dia? Não, não se iludam. Mesmo depois de concluído ele NÃO receberá o status de aeroporto internacional. Isso porque a nova pista de pouso e decolagem terá 2535 metros, quando o mínimo exigido pelos padrões internacionais é de 3200 metros. Enfim, por isso e pelo fato das possibilidades de futuras (HAHAHA-HA!) expansões serem limitadas que o nosso aeroporto continuará sendo apenas um aeroporto para voos domésticos ou conforme o penúltimo link deste parágrafo, teríamos de fazer escala em outro aeroporto (no caso o de Manaus) para chegarmos a Miami. Mas pelo menos nossa capital pode se orgulhar de pelo menos ter um aeroporto melhor estruturado que sua rodoviária.

Alternativas 

(Fonte da imagem: CBN Vitória)
Sim, elas existem. Uma delas, inclusive foi apresentada no ano passado pela prefeitura da Serra (na época administrada pelo então prefeito Sérgio Vidigal), que era a de construir um aeroporto na região do Planalto de Nova Almeida. A proposta inicial era de construir um aeroporto de cargas para desafogar o Eurico Salles (Vitória), porém a Infraero sugeriu que fosse preparado uma infraestrutura tal que no futuro ele se tornasse um aeroporto capaz de receber também voos de passageiros. Na época inclusive o então prefeito de Serra havia adiantado que o novo aeroporto seria capaz de receber voos internacionais para Miami (EUA) e Madri (Espanha), apesar de que ele também falou sobre a extensão da pista, 3000 metros, um valor ligeiramente inferior ao padrão estabelecido pela Infraero para recebê-los.

Local provável para a construção do Aeroporto de Nova Almeida, circulado em vermelho. (Fonte da imagem: Google Earth)

Observando (por alto) a proposta, ela tem seus pontos positivos. Um deles, o mais óbvio, é que ele ficaria relativamente próximo à RMGV. Outro deles, citado inclusive na própria matéria (ver o link no parágrafo acima) é que 95% das desapropriações que seriam feitas para abrigar a área do futuro empreendimento correspondem a terrenos de um único dono, sendo que este (no caso, a Fibria) não estaria necessariamente interessado em receber compensação financeira por isso, mas sim um outro terreno do mesmo tamanho para que possa continuar produzindo. Mas arrisco a dizer que as vantagens parariam por aí mesmo. Uma delas é quanto às próprias características do terreno. Uma delas é que ele é florestado e por razões óbvias, essas árvores em sua maioria precisarão ser derrubadas e destocadas. Um custo a mais na obra em relação a uma área descampada, por exemplo (que bastaria apenas a limpeza do terreno). Outra delas (ainda nas características do local), é que se for observar a imagem acima existem alguns "sulcos" (vales) que precisarão ser aterrados para receber a estrutura, o que também implica em custos de terraplanagem.

Outro porém do projeto de construção do aeroporto de Nova Almeida seria: a construção de um acesso rodoviário ao local de tal forma que ele passe o mínimo possível por dentro da área urbana do município de Serra. A Rodovia do Sol Norte, com construção prevista para este ano, resolveria parcialmente tal problema (uma solução mais próxima a da ideal nesse caso seria estender o Contorno do Mestre Álvaro até que ele se encontre a essa via). Tem ainda a necessidade de se construir uma rede hoteleira de padrão internacional próxima ao aeroporto, bem como restaurantes e lojas, de forma a minimizar os deslocamentos dos possíveis ou futuros turistas.

Outra alternativa, proposta há dez anos, era de construir um aeroporto internacional em Guarapari. Não lembro da localização exata do possível empreendimento (e infelizmente não achei nenhum link sobre o assunto), mas pelo que se falava na época, diria que hoje tal construção passaria pelos mesmos problemas que teria o futuro aeroporto de Nova Almeida, com o agravante da fortíssima expansão imobiliária que a "Cidade Saúde" sofreu (e sofre) nos últimos anos.

Mas afinal, por que Linhares e não, sei lá, Piúma?


Uma possível localização se fosse o caso de construir um aeroporto internacional entre os municípios de Piúma e Itapemirim, no sul do Espírito Santo. (Fonte da imagem: Google Earth)

Uma possível localização do que poderia ser o futuro aeroporto internacional de Linhares. (Fonte da imagem: Google Earth)
Antes de defender minha ideia de que Linhares seria a melhor opção para se construir um aeroporto internacional nos próximos anos, preciso, claro apresentar o meu ponto de vista chave que embasa não só este post como embasará a maioria dos posts que eu farei desta série especial (apesar de que em um post meu, datado de 06/12/2012, citei esse ponto de vista no parágrafo de encerramento): é interessante e até necessário que os futuros empreendimentos, tanto logísticos como produtivos sejam construídos preferencialmente fora da área da Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV), embora estejam relativamente próximos a ela (se houver como), bem como a outros importantes centros regionais do Espírito Santo, e que estes sejam versáteis o suficiente para a minimização de tempos e/ou distâncias de transporte, ofereçam segurança durante a operação e que permitam uma integração rápida e se possível perfeita entre os diferentes modais de transporte (rodoviário, ferroviário, portuário, aeroviário e dutoviário). Tais empreendimentos auxiliariam as regiões beneficiadas a se desenvolverem, gerando emprego, renda e acima de tudo, serviriam para equilibrar as disparidades regionais existentes em nosso estado. Confesso a vocês que tal ponto de vista é um tanto abstrato e nem sempre será possível conciliar todos os parâmetros listados, mas vejo essa como a alternativa para o momento.

Bem, eu citei Piúma porque seria uma alternativa razoável de se construir um aeroporto internacional se fosse o caso de tê-lo ao sul da RMGV. Para ser mais exato, a localização sugerida ficaria no vale do Orobó entre Piúma e o distrito de Itaipava, localizado em Itapemirim. Tal empreendimento possui pontos positivos, sendo que alguns deles até mais fortes em relação a erguer tal estrutura em Linhares, apesar de que também possui desvantagens, também mais graves em relação a Linhares.

Uma vantagem de se construir um aeroporto no vale do Orobó é que este ficaria localizado a uma distância menor da RMGV (a distância de Vitória a Piúma é de 89 km, contra 134 km de Vitória a Linhares). Também pesa a favor o fato de que em tal área seria possível construir uma pista de pouso e decolagem mais extensa (para se ter uma ideia, seria possível construir duas pistas paralelas com extensão próxima ou até superior a 5 km cada), o que possibilitaria pousos mais confortáveis (uma das reclamações que escutei quanto ao aeroporto de Vitória é que no pouso o avião precisa freiar bruscamente, causando incômodo aos passageiros). Isso sem contar a maior proximidade em relação ao litoral, o que agrada um tanto aos turistas (apesar de desagradar um tanto aos pilotos das aeronaves que precisarão lidar com o vento lateral).

Mas construir um aeroporto em tal localidade também tem desvantagens: uma delas seria o fato de que existiria a necessidade de se construir uma infraestrutura hoteleira de padrão internacional. Até aí nem é tanto um problema, uma vez que no verão seria até algumas opções a mais de hospedagem para os turistas que chegam ao litoral sul do ES, inclusive para aqueles que não usam o avião. Também existe a necessidade de se construir um acesso rodoviário interligando a BR-101 ao aeroporto bem como este à ES-060, assim como melhorar (entenda-se por duplicar) ambas as vias. Nesse caso, seria extremamente bem-vinda também a ideia do governo estadual construir a ES-150, bem como os contornos de Piúma e Itaipava (confira o mapa rodoviário do DER de 2012 para maiores detalhes). Porém temos outras desvantagens mais graves e/ou que afetam diretamente a integrabilidade de tal empreendimento, como defendida no parágrafo de abertura deste tópico. Uma delas seria a integração com o modal ferroviário, que poderia ser praticamente perfeita...Poderia, se já tivéssemos a Ferrovia Litorânea Sul concluída. Outras desvantagens são ainda mais elementares. Uma delas é quanto a construção de lojas e restaurantes capazes de atender à nova demanda. Levando em conta o efeito de sazonalidade quanto à movimentação de turistas, em períodos de baixa o público local seria suficiente para viabilizar economicamente a existência de tais empreendimentos que viriam embarcados com o novo aeroporto? Outra desvantagem elementar se deve à topografia do local. Apesar de permitir a construção de pistas de pouso e decolagem mais extensas, pelo fato da área plana ser relativamente estreita isso limitaria a possibilidade de construção de mais pistas no caso de futuras expansões. Além disso existe o fato de que tal aeroporto seria construído ao lado do Monte Aghá (ver o ponto mais escuro da primeira imagem circulada em vermelho), um bloco rochoso de 340 metros de altitude. Seria um fator complicador e tanto para a aproximação de aeronaves para os pousos (é só ver o imbróglio gerado por esta situação no entorno do Aeroporto de Vitória).

Agora, iremos para o caso de construir este mesmo empreendimento em Linhares. Antes que sejam identificadas possíveis vantagens e desvantagens, voltemos ao item em negrito no parágrafo de introdução deste tópico. Das duas opções apresentadas, como dito antes, Linhares é a opção mais distante em relação à RMGV. Porém se trata da melhor opção no que se refere à proximidade com centros regionais. Na verdade Linhares por si só É um centro regional e possuem três centros regionais em um raio inferior a 100 km (Aracruz, Colatina e São Mateus). A posição geográfica do município, bem como a das rodovias existentes, em fase de implantação e planejadas, dá condições ótimas no que se refere às distâncias, tempo e segurança de operação e não levando em conta possíveis ressalvas (isso será tratado mais adiante), é possível ter uma condição perfeita de integração entre os modais de transporte envolvidos. Tal empreendimento, em conjunto com toda infraestrutura auxiliar que precisaria ser construída ou melhorada para receber o novo aeroporto ajudaria não só Linhares como todo o Litoral Norte capixaba a se desenvolver, gerando emprego, renda e ajudando a minimizar as disparidades existentes entre esta região e as demais. Vale lembrar ainda que do ponto de vista turístico um empreendimento deste porte ajudaria a impulsionar o turismo naquele lugar, ainda subaproveitado em relação ao Litoral Sul.

Levando em conta a correlação feita, vamos às vantagens e desvantagens do empreendimento em si. Uma vantagem seria quanto ao local de construção, relativamente plano e com pouca presença de árvores, o que minimiza gastos com derrubada e destocamento de árvores, bem como custos de terraplanagem (corte e aterro). Outra vantagem é que apesar da área não permitir a construção de pistas de pouso tão extensas em relação ao vale do Orobó, em caso de futuras expansões seria possível construir várias pistas adicionais. Além disso possui uma posição privilegiada em relação aos acessos rodoviários (intersecção das rodovias estaduais ES-248 e ES-245), restando apenas a necessidade de construir um acesso da BR-101 imediatamente ao sul do Rio Doce até o entroncamento das duas rodovias estaduais e outro que ligue o aeroporto até a BR-101, entre os bairros Mobrasa e Palmital, bem como a melhoria (entende-se por duplicação das estaduais citadas no entorno do novo aeroporto. E lembrando que por se tratar de um centro regional em expansão, Linhares já possui um hotel de padrão internacional e possui um shopping que está sendo construído. Isto minimiza a necessidade de construção de infraestrutura hoteleira, bem como de alimentação e lojas, uma vez que a cidade já as possui, cabendo apenas a ampliação da capacidade da mesma. E diferente do Vale do Orobó, que possui o Monte Aghá como obstáculo natural para aproximação de aeronaves, em Linhares tal problema seria praticamente desprezível.

E claro, porém, que construir um aeroporto internacional em Linhares apresenta desvantagens. Uma delas é o fato de Linhares a opção de construir tal instalação mais distante da RMGV, o que aponta uma necessidade de implementação ou melhoria das vias que darão acesso ao local, como a BR-101, bem como melhorar a infraestrutura hoteleira, alimentícia e de lojas no trajeto Vitória-Linhares. Nem é tanto um problema, já que para isso que servirá a duplicação da rodovia federal bem como a construção prevista do Contorno do Mestre Álvaro por exemplo. E sobre as melhorias da infraestrutura turística nas cidades cortadas pela BR-101 neste trajeto (bem como as adjacências, em uma proposta mais ousada), tal intervenção seria bastante benéfica, uma vez que além de beneficiar as pessoas que sairiam de Vitória a Linhares para tomar um voo internacional por exemplo, beneficiaria as pessoas que apenas estão passando ou querem ficar em Fundão, Ibiraçu e João Neiva (neste caso), o que geraria receita, emprego, renda e arrecadação de impostos a tais cidades. A maior vulnerabilidade de tal projeto caso fosse levado adiante, seria a necessidade de se construir acessos ferroviários (tanto para cargas como para passageiros) da RMGV ao empreendimento, bem como inibir ocupações de terrenos no entorno dos acessos rodoviários para o litoral de Linhares, intencionando uma integração futura entre os modais rodoviário e ferroviário caso se construa um superporto por lá (este será um tema a ser tratado mais adiante).

Encerrando

Enfim, pesando os prós e contras e levando em conta a ideia a ser defendida no parágrafo de abertura, vejo que hoje Linhares seria a melhor alternativa para se construir um aeroporto internacional nos próximos anos. Uma coisa seria certa: tal empreendimento por lá seria algo tão revolucionário como o boom industrial que o Espírito Santo sofreu nos anos 60/70.

No próximo episódio da série especial: O Minuto Produtivo continuará a falar deste tema, desta vez detalhando como seria o projeto propriamente dito. Aguardem.

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