"Noobs" do ENEM - II: a chuva no molhado

(Fonte da imagem: UOL Educação)
Bom dia pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar sobre um assunto que causou polvorosa no noticiário educacional em nosso país: a "correção" (se é que pode chamar desse nome) da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), onde você descobre que pode escrever receitas, hinos de time e até cometer erros dignos de ensino fundamental e mesmo assim você pode tirar metade da nota máxima (isso na pior das hipóteses, lembrando que no último caso citado você pode inclusive "fechar" essa parte da prova). Para quem achava que depois da saída de Haddad as coisas iriam melhorar foi um balde de água fria e tanto.

Ontem, o presidente do Inep, Luiz Cláudio Costa, defendeu a punição de candidatos que apresentarem alguma forma de "deboche" nas redações do ENEM, discutindo a possibilidade de zerar os textos. A medida é de certa forma razoável, mas é simplesmente desnecessária. E digo isso por um simples motivo: o argumento de "fuga do tema" é mais que suficiente. Afinal, o que cargas d'água tem a ver um hino de time de futebol ou ainda uma receita de macarrão com imigração ilegal?

Um exemplo que reforça a minha versão foi uma experiência própria dos tempos (primeiro ano) em que eu fazia o técnico integrado no IFES Campus Vitória (na época CEFETES Sede). Um dia, minha então professora de português pediu uma atividade para ser entregue na semana seguinte. Era para elaborar uma notícia cuja foto era sobre o trânsito numa rua de Dacca, capital de Bangladesh (inclusive ela permitiu que isso pudesse ser digitado, para a época um avanço até). Quando voltei para casa, resolvi elaborar o texto. Comecei falando do caos do trânsito de lá, depois comecei a falar que o problema era recorrente em outras grandes cidades do planeta até que no final acabei falando dos projetos de mobilidade urbana que estavam sendo feitos pelo governo do Espírito Santo na época: o Transcol III e a duplicação da Avenida Fernando Ferrari. Obviamente, estava achando minha notícia um máximo e que eu havia feito tudo certinho. Terminado o prazo, entreguei a atividade e uma semana depois ela resolveu entregar as mesmas corrigidas. Teve notas máximas, notas baixas e alguns zeros. Quando chegou minha vez de pegar minha redação, desdobro a mesma e no final da folha vejo "Sua redação não está de acordo com o tema proposto. Zero.". Claro que de início fiquei assustado e dei um jeito de esconder a prova de minha "proeza". Mas com o tempo entendi o porquê de isso ter acontecido e no final acabei dando algumas risadas, com direito a digitalizar a redação e postar uma foto no álbum do moribundo Orkut (sim, tenho perfil naquela rede social até hoje, mas a redação felizmente ou infelizmente não está lá mais).

Tudo bem, alguns vão achar que a professora que zerou minha redação foi rigorosa demais, uma vez que não (necessariamente) fugi de forma total do tema proposto, uma vez que falei de congestionamentos de uma forma geral bem como da questão da mobilidade urbana (o que em parte tem a ver com trânsito). Mas o fato é que no final acabei não falando do que era para ser falado no texto. E se for seguir a mesma lógica, por que aceitar redação com hino de time de futebol ou mesmo receita de macarrão instantâneo se o tema é imigração ilegal?

Enfim, a medida do Inep pode parecer redentora, mas não passa apenas de uma chuva no molhado.

P.S.: se a banca avaliadora do ENEGEP (Encontro Nacional de Engenharia de Produção) fosse do mesmo naipe da do ENEM, eu poderia escrever o hino do Fluminense em meu futuro artigo científico?

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