Papa Francisco: uma demonstração de que o "respeito e projeção" internacional que o Brasil tem é muito mais imagético que real. Ou: nosso complexo de superpotência é tão ou até mais perigoso que nosso complexo de vira-lata!

(Fonte da imagem: G1)
Boa noite pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar sobre o assunto dominante desde que a fumaça branca saiu da Capela Sistina: o início do pontificado do Papa Francisco (até então, cardeal Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires), primeiro pontífice latino-americano e jesuíta. De certa forma, um momento histórico para a bimilenar Igreja Católica, que há pouco mais de um mês se espantou com a decisão de renúncia de Bento XVI e que esperava um dos mais difíceis conclaves em séculos. Contrariando as expectativas, o "Habemus Papam" saiu logo e o resultado foi bastante surpreendente, se for pensar que haviam dois fortíssimos candidatos ao pontificado: o cardeal Angelo Scola, arcebispo de Milão e o cardeal Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo.

Na verdade, o foco que darei a esse tema não é sobre a eleição do novo Papa em si, e sim sobre um assunto de tempos em tempos acaba vindo à tona: a questão do respeito e projeção internacional que o Brasil ganhou nos últimos dez anos, algo bastante propalado pelos defensores dos governos Lula e Dilma. E pelo título do tópico, já é possível imaginar o que irei dizer: não é bem assim. E sim, o novo Papa é uma evidência disso.

Complexo de vira-lata vs. complexo de superpotência

Antes de entrar no assunto em si, será necessário falar primeiramente do complexo de vira-lata, expressão criada pelo escritor Nelson Rodrigues para designar a posição de inferioridade que muitos brasileiros se colocam em relação ao resto do mundo. Uma das frases dele que definia o assunto dizia o seguinte:

"Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol."

De certo modo, ao menos em parte eu concordo com isso. Muitas vezes nos colocamos inferiores a quem nos rodeia, mesmo em situações em que temos condições de pelo menos competir de igual para igual. E de fato, é um ponto que precisamos mudar se queremos ter um país que por enquanto ainda está no campo dos sonhos.

Nos últimos dez anos, porém, o Brasil ganhou um maior destaque no cenário internacional. Nossa economia cresceu de forma até vigorosa depois de duas décadas praticamente perdidas, conseguimos ter um melhor equilíbrio em nossas relações com as grandes potências mundiais e ganhamos maior visibilidade pelo fato de que sediaremos a Copa do Mundo no ano que vem a as Olimpíadas daqui a três anos. É claro que como disse em posts anteriores neste blog, tal situação de bonança que o Brasil passou se deve mais às circunstâncias políticas e econômicas no mundo do que de fato a algum mérito de nossa classe política. Mas o fato é que isso aconteceu.

Enfim, o complexo de vira-lata que o Nelson Rodrigues descreveu aos poucos vai sendo reduzido. O grande porém dessa questão é que muitos caíram em outro extremo que, como dito no título, é tão ou até mais perigoso que o complexo de vira-lata. Não sei se alguém inventou ou usou esse termo antes, mas o que melhor designa isso seria "complexo de superpotência". Trata-se do pensamento compartilhado por alguns de que evoluímos tanto, mas tanto que viramos os novos "donos do pedaço", e que não temos que aceitar nenhuma ideia ou palpite dos "de fora" (principalmente se for norte-americano ou europeu, afinal, eles não estão "ferrados" mesmo?). E como disse no início, "não é bem assim".

O complexo de superpotência não é justificável. Em hipótese alguma


Um exemplo do que o complexo de superpotência pode fazer com a cabeça das pessoas. Impróprio para pessoas que não suportam emoções fortes. (Fonte da imagem: Fanpage da Carta Capital no Facebook)

A verdade é que com uma breve e simples identificação dos fatos (eu disse identificação. Nem cheguei a falar em análise), o complexo de superpotência que alguns brasileiros criaram (principalmente os defensores dos governos Lula e Dilma) simplesmente não se justifica, da mesma forma que o de vira-lata. Alguns fatos inclusive estão nas mais de 260 postagens deste blog, que completará um ano no mês que vem. Mas para não dizer que não citei nenhum aqui, tem o fato de que somos um dos quinze países que mais investe em educação no mundo e que mesmo assim não conseguimos figurar entre os cinquenta melhores no ranking Pisa (confira aqui), tem o fato de que em 2012 só crescemos melhor que os países europeus que hoje são o centro da crise econômica (confira aqui), tem ainda o fato de que o último biênio foi o de pior crescimento econômico desde o governo Fernando Collor (clique aqui). Enfim, são vários motivos para os mais eufóricos pisarem no freio. A propósito, puxando a sardinha para o lado de quem faz faculdade (que é o meu caso), se nosso país estivesse tão bom assim, inclusive na educação, por que cargas d'água haveria a necessidade de se fazer um programa de intercâmbio como o Ciência Sem Fronteiras? Afinal, nos somos bons em tudo ou quase tudo, não somos? Governo nenhum pensaria em mandar estudantes universitários para fora de seu país apenas por turismo. Se fosse assim é mais inteligente trazer gente "de fora" para gastar dinheiro e trazer mais receita (tá bom, nem parece que ano passado tivemos arrecadação recorde de impostos, para variar). O resto a gente se vira.

"Tá, tudo bem, mas e o nosso potencial? E os nossos recursos naturais? E nossa agricultura, que é forte?". Sim, temos potencial. Sim, temos recursos naturais e humanos. Sim, temos uma agricultura forte, apesar dela ter recuado 2,3% (vide primeiro link do parágrafo anterior). Mas existe uma diferença muito clara entre o que é algo potencial é o que é algo real (tem até uma piada sobre o assunto que explica isso. Clique aqui. Vale a pena conferir). Potencialmente temos condições de disputarmos em pé de igualdade com as grandes nações deste planeta. Mas a realidade é que precisamos (e muito) aprender com os "de fora". O que torna ainda mais injustificável o "complexo de superpotência" de alguns. Ah, não me esquecendo: se tivéssemos com esse moral todo, não estaríamos em um verdadeiro "banho maria" para conseguir a sonhada vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Tá, mas o que tem a ver o Papa Francisco com isso?

Pode ser que alguém pergunte sobre o fato de ter colocado o Papa Francisco nessa história toda, mas enfim, creio que agora chego ao ponto. Vamos lembrar que o até então Jorge Mario Bergoglio desbancou dois candidatos favoritos: Angelo Scola, arcebispo de Milão e o Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo. Vamos, claro, focar no Scherer. Ele comanda a arquidiocese localizada, simplesmente, no maior e mais economicamente pujante metrópole do Brasil, bem como em um estado de mesmas características. E lembrar ainda que o Brasil está entre os países não-europeus de maior população católica em termos absolutos. Considerando isso e levando em conta o fato de que é relativamente jovem, se for levar em conta a idade de início de pontificado de muitos papas, ele era simplesmente "o favorito" dos candidatos de fora do continente europeu.

Mas existe um famoso ditado em Roma que diz que "quem entra Papa, sai cardeal". Não irei delongar muito mais neste assunto, até porque não sou especialista em religião, muito menos quero me arriscar a levar pito de amigos meus que são católicos. Mas tal ditado no meu ponto de vista é uma versão "religiosamente correta" do pensamento "não crie expectativas".

Neste momento então alguém pode dizer "Tá, mas o que tem a ver o Scherer" com a projeção e o respeito internacional que o Brasil (supostamente) tem? Pois é, o fato de comandar uma das maiores arquidioceses do mundo e ser uma figura forte da religião católica fora do continente europeu, localizada em uma das maiores concentrações de fiéis deste grupo do outro lado do Atlântico simplesmente não foi o suficiente para quebrar uma simples "tradição".

"Ah, mas usar isso para criticar o governo não é forçado demais não?". Bem, se for pensar que apesar de sermos um estado laico (não entrarei no mérito do assunto neste momento), a maioria da população se declara católica e que de certo modo é um grupo religioso que influencia fortemente a sociedade (também não entrarei no mérito desse assunto, apesar de que, diferente de alguns, vejo as igrejas como elementos necessários ao se debater qualquer tema), ter um chefe da maior denominação cristã do planeta e um chefe de estado brasileiro nos colocaria em uma posição de destaque internacionalmente, e nada impediria de que nossa classe política fosse "tirar uma casquinha" disso.

Encerrando

Antes que alguém atire pedras, digo que sim, o Brasil ganhou maior destaque no cenário político-econômico mundial. A questão é saber o quanto ganhou. E o quanto ainda precisamos ganhar. E nada de complexos.

Comentários

  1. esse teu pensamento é meio certo e meio errado.
    se você levar só pelo lado de super potência, os AMERICANOS DO NORTE, já faz tempo que teriam emplacado um PAPA.
    e como nós estão na saudade, aplaudindo os ARGENTINOS com pirex na mão.

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