Presidente do Chipre tentará plano B para tirar o país da crise

(Fonte da imagem: G1)
Quando se pensa que a Europa estava chegando ao fim de sua "crise da dívida" (o que seria um favor à economia mundial neste momento), vem mais um motivo de preocupação. Como todos sabem, desta vez o problema está no Chipre, uma ilha quase desconhecida no meio do Mar Mediterrâneo e que até pouco tempo (salvo quando um time de futebol importante de lá, o Apoel, conseguiu chegar às quartas de final da UEFA Champions League, sendo eliminado pelo poderoso Real Madrid) era praticamente ignorada pela mídia internacional. Pois bem, para salvar aquela pequena ilha, o FMI ofereceu uma ajuda de R$10 bilhões. Em troca, se criaria uma taxa a ser cobrada de todos os depósitos bancários. Enfim, numa comparação bastante forçada, seria uma versão 2.0 do Plano Collor. Mas felizmente (ou infelizmente), o Parlamento de lá rejeitou a medida. Segue abaixo a notícia do G1 sobre o assunto. Volto mais tarde.

"Depois que o Parlamento do Chipre rejeitou na terça-feira (19) de forma contundente o plano de resgate financeiro para a ilha, que previa taxas sem precedentes sobre os depósitos bancários, o presidente cipriota, Nicos Anastasiadis, convocou uma reunião para esta quarta-feira (20) para examinar "planos alternativos".

O presidente disse que respeitava o resultado da votação, mas destacou que é necessário enfrentar a situação criada após a votação do Parlamento contrária ao plano. [...]

O Parlamento do Chipre rejeitou na terça-feira (19) o plano de resgate europeu para a ilha após o descontentamento provocado pela taxa sem precedentes sobre os depósitos bancários que estava sendo votada, mergulhando o país em uma grande incerteza.

O anúncio da rejeição foi recebido com uma enorme explosão de alegria diante do Parlamento, onde milhares de manifestantes estavam reunidos para dizer "não" ao texto.

"O Chipre pertence ao seu povo", "O povo unido jamais será vencido", gritava a multidão.

O plano de resgate previa, em contrapartida a um empréstimo de 10 bilhões de euros da zona do euro e do FMI para a ilha à beira da falência, uma taxa excepcional de 6,75% sobre todos os depósitos bancários de 20.000 a 100.000 euros e de 9,9% para aqueles acima desse valor limite.

O projeto, concluído em Bruxelas no sábado, incluía originalmente uma taxa de 6,75% sobre os depósitos até 100.000, mas diante da revolta generalizada provocada por essas taxas, o Chipre havia decidido isentar os depósitos de menos de 20.000 euros.

O objetivo das taxas era arrecadar 5,8 bilhões de euros.

Na ilha, os bancos, fechados desde sábado, permanecerão assim até quinta-feira (21), já que as autoridades temem uma corrida dos clientes aos caixas para retirar suas economias. A Bolsa anunciou a suspensão de suas operações na terça e na quarta-feira.

A zona do euro reafirmou a oferta de socorro financeiro ao Chipre totalizando 10 bilhões de euros, assinalou um comunicado do grupo após o Parlamento cipriota rejeitar o polêmico plano. [...]"

Voltei...

Antes de mais nada, deve ficar bem claro que a preocupação da zona do euro não é com o Chipre em si, uma vez que o país é uma das economias mais fracas do bloco, mas sim para o caso de que se tais medidas fossem aprovadas, outros países da periferia do bloco porém com uma economia maior (como Portugal, Grécia, Espanha ou Irlanda) resolvessem fazer o mesmo para lidar com seus incêndios. E de fato, os portugueses ficaram apreensivos com essa possibilidade.

Para quem acha que viu de tudo sobre o drama cipriota: o líder da Igreja Ortodoxa de lá, arcebispo Chrysostomos II, disse que colocará os recursos da Igreja à disposição do país para ajudar o mesmo a sair da crise financeira. Os ativos da organização religiosa seriam hipotecados para a aquisição de títulos do governo. E por lá a Igreja tem uma fortuna considerável, incluindo propriedades e participações em um banco.

Pois bem, eu particularmente sou adepto da teoria de que "não existe almoço grátis". E duvido muito que a Igreja Ortodoxa, ainda mais com participações em um banco (alvo de preocupação dos cipriotas), esteja propondo isso apenas por caridade. Qual seria a contrapartida que Chrysostomos II exigiria? E caso se o governo local aceitasse isso, o que impediria de outros países em crise de fazer o mesmo para se salvarem financeiramente? A questão que quero chegar é bem simples: a liberdade religiosa dos cipriotas, bem como de outros países que resolvessem se submeter à medidas semelhantes, continuaria sendo respeitada?

De qualquer forma, as alternativas com relação à pequena ilha no Mediterrâneo não são digamos, muito convidativas. Deixar o país quebrar é praticamente fora de cogitação, uma vez que o temor de que isso contagie para outros países da zona do euro é muito grande. O confisco, apesar de ser uma medida com efeito imediato, seguiu o mesmo caminho. Aceitar a proposta da Igreja Ortodoxa para poder honrar seus compromissos pode até ser interessante financeiramente, mas qual seria o efeito na relação entre Igreja e Estado e ainda mais sobre a liberdade religiosa? Enfim, cenas dos próximos capítulos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou