A "revolução educacional" digna de primeiro de abril: rendimento dos alunos em matemática piora entre o 5º e o 9º ano. Ou: um sistema "produtivo" projetado para quebrar

Um dia, o nível da maioria dos estudantes no Brasil chegará a esse nível...(Fonte da imagem: Super Cérebro)
Em setembro do ano passado, o MEC lançou um vídeo para comemorar os resultados da educação no Brasil (confira aqui). Mas hoje um resultado de um levantamento feito pela ONG Todos Pela Educação mostrou que essa revolução promovida nos últimos dez anos tem mais cara de uma daquelas piadas de primeiro de abril (não, o levantamento não é piada, é sério). Segue abaixo uma matéria da Folha de S. Paulo sobre o assunto. Volto mais tarde.

"O percentual de estudantes com rendimento adequado em matemática na rede pública do país cai ao longo dos anos do ensino fundamental, mostra estudo que comparou a evolução de alunos entre 2007 e 2011.

A constatação é de levantamento inédito da ONG Todos pela Educação, que detalha a evolução do rendimento dos alunos de escolas públicas do país na Prova Brasil, exame do governo federal.

O percentual de estudantes com rendimento adequado na disciplina de uma turma caiu de 22% no quinto ano, em 2007, para 12%, quando ela chegou ao último, em 2011.

Ou seja, 88% deles não sabiam calcular porcentagens ou a área de uma figura plana ou mesmo ler informações em um gráfico de colunas. E levam essa defasagem para os ensinos médio e superior.

Em língua portuguesa, o recuo entre as séries não foi tão intenso (26% para 23%).

Uma das explicações mais citadas por especialistas é a falta de professores na área. É na etapa final do fundamental que os alunos passam a ter aulas com docentes especialistas nas matérias.

"Um jovem com habilidade em matemática pode ter salários mais altos se for para engenharia, para bancos. Poucos querem lecionar", disse o professor Rogério Osvaldo Chaparin, do Centro de Aperfeiçoamento do Ensino da Matemática, da USP.

No último levantamento federal, matemática apareceu como a área de maior deficit de professores (65 mil).

Igor Willian, 17, ficou quase 2010 inteiro sem docente da disciplina, na zona leste da capital. "Até hoje tenho dificuldade com matemática, física e química, porque fiquei aquele ano no pátio."

Ele recorreu ao Henfil, cursinho popular, para diminuir a defasagem. "Gostaria de fazer engenharia civil, mas tenho medo dos cálculos."

Para a gerente da área técnica do Todos pela Educação, Alejandra Meraz Velasco, há dificuldades adicionais nos anos finais do fundamental.

Uma delas é que os alunos são divididos entre municípios e Estados. "O final do fundamental fica num limbo, quase sem políticas para melhoria. E em matemática o problema fica mais evidente, porque há uma sequência difícil de recuperar depois", diz."

Voltei...

Antes de chegar de fato ao ponto, vamos à seguinte ilustração (puxando a sardinha para o meu lado, pensando em uma linha de montagem): pense em um lote de 1000000 de peças cujo custo de produção(da compra de matéria prima até custos operacionais e logísticos) seja $1 e preço de venda $2. A matéria-prima é trabalhada e modificada de forma a se chegar ao produto final. Por fim, apenas 120000 peças estão de acordo com as especificações do cliente. Por limitações do sistema, as restantes terão de ser descartadas. Supondo que todas as 120000 peças são vendidas, quanto a empresa iria lucrar? Para quem tem tara curiosidade sobre controles de qualidade (quem quiser colar clique aqui), qual seria o nível de "sigma" de tal processo? Pois bem, quem respondeu que a empresa do exemplo teria prejuízo e que o processo não seria sequer um sigma, está certo.

No caso do nível de sigma (no qual está correlacionado o número de defeitos por milhão e o custo da não qualidade), tal situação seria considerada inconcebível em se tratando de sustentabilidade financeira de uma empresa. Mas, infelizmente, fazendo as devidas ressalvas (como o fato de que a pessoa que não aprende o que deve não é simplesmente excluída do sistema e que os níveis de aprendizado de um indivíduo não são resumidos apenas em "tudo ou nada", bem como a dificuldade de se medir o capital intelectual de uma pessoa), essa ilustração um tanto bisonha e que em qualquer sistema produtivo seria considerada a ilustração de algo que está fadado à bancarrota (para se ter uma ideia, a maioria das empresas hoje são quatro sigma, o que representa pouco mais de 6000 defeitos por milhão) pode de certo modo resumir a realidade da educação brasileira no que se refere às disciplinas mais elementares.

A partir daí, o que vimos é basicamente repeteco: as explicações para o mau resultado são as mesmas (insuficiência de professores, baixa remuneração, etc.) e a reação dos governos (em especial o federal) também é igual no sentido de dizer que "não foi bem assim" e que os indicadores que eles tem são melhores. Se bem que em uma nota de 0 a 10, uma nota igual a 3,9 não seria algo para se orgulhar. Pelo menos eu não me gabaria disso...E minha opinião sobre o assunto é também a mesma (qualquer coisa clique na tag "Educação" para conferir). A única coisa que acrescentaria, talvez, é que uma reforma nesta área passaria pela necessidade de se mexer em alguns "vespeiros" (entenda-se por sindicatos, organizações estudantis e por fim os próprios governos).

Ok, mas tirando o exemplo, o que tem a ver esse raio de sigma com a educação?

Antes de mais nada, devemos entender dois conceitos que explicam o fato de ter usado esse exemplo e essa tática para explicar mais um exemplo de ruindade apresentada pela educação brasileira. O primeiro é o do sigma em si (a base do que será explicado você pode acessar aqui). Na Estatística, essa letra do alfabeto grego é usada para designar o desvio-padrão. Quanto maior o valor de sigma, maior é a variação do processo, o que é algo indesejável, uma vez que aponta para uma maior probabilidade de um produto ou serviço ficar fora das especificações do cliente. Outro conceito que foi usado de forma não tão direta neste post é o que originou a expressão "Seis Sigma", uma estratégia de negócios que visa melhorar a qualidade e a produtividade que foi adotada pela Motorola nos anos 80. O número de sigmas é uma medida do desempenho do processo e quanto mais sigmas, menos variável ele é e consequentemente menos produtos ou serviços estarão fora do que o cliente deseja.

Uma figura explicativa para o Seis Sigma (Fonte da imagem: Universidade Municipal de São Caetano do Sul)
Bem, como dito no exemplo ilustrativo e na própria matéria da Folha de S. Paulo, se fosse usar tal ótica para enxergar o fato de que 88% dos estudantes que completam o nono ano do ensino fundamental não tem o rendimento adequado, poderíamos dizer que o processo sequer consegue ser "um sigma". Aliás, para que ao menos chegasse a esse nível, a proporção de estudantes com desempenho adequado deveria mais que dobrar, chegando a 31%. E pela mesma ótica, empresas "um sigma" sequer são levadas em conta no quesito de serem sustentáveis financeiramente. Só por aí já temos uma noção melhor do quanto estamos atrasados...

"Tá, mas onde você quer chegar a isso? Quer um 'Seis Sigma' educacional?". Calma, não estou afirmando isso. Primeiro que se em indústrias, cujos critérios de avaliar a qualidade de seus processos são em geral mais claros e objetivos, isso pode levar de alguns meses a alguns anos, quem dirá para uma área com critérios bem mais subjetivos e com algumas ressalvas feitas no segundo parágrafo, como a educação! E óbvio que a dificuldade de se implantar isso seria muito maior! E arriscaria a dizer que isso sequer seria necessário. Não tenho dados precisos sobre o parâmetro apresentado pela pesquisa da ONG Todos Pela Educação em outros países, mas também arriscaria que se as diretrizes de qualidade na educação fossem entre dois sigma e três sigma, estaríamos não só fazendo uma revolução educacional na América Latina, mas a nível mundial. Paulo Freire acabaria até ficando com um pouquinho de inveja.

Encerrando

É evidente que a educação é algo muito mais complexo que uma fábrica, bem como seus processos. Mas é complicado exigir qualidade nas empresas se a base de formação de seus trabalhadores sequer consegue semear isso.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva