Porto de Santos: a evidência do caos logístico que se tornou o Brasil. Ou: o Pimentel tem razão. Do jeito que está não dá para esperar uma inflação menor

(Fonte da imagem: UOL Economia)
Esta semana as pessoas que viram o último Fantástico devem ter se espantado com o descaso do poder público em relação às obras que, se concluídas, poderiam ao menos dissipar o caos que acabou tomando conta de nossa infraestrutura e logística. Enquanto isso, temos que nos contentar em sermos o pior dos BRICS (ou um dos piores nesse quesito). Segue abaixo uma matéria da BBC Brasil sobre o tema:

"[...] O drama dos milhares de caminhoneiros que tentam descarregar suas mercadorias no Porto de Santos voltou a se agravar, com filas de até 12 quilômetros registradas nesta semana. Na manhã desta quarta-feira, segundo a Ecovias, a via Anchieta estava congestionada entre os quilômetros 58 ao 64, por conta das dificuldades dos caminhões em acessar os terminais portuários.

Em março, as filas de caminhões para chegar aos terminais alcançaram 30 quilômetros, enquanto os navios esperavam semanas no mar até chegar sua vez de atracar.

Safra recorde x gargalos estruturais

Com safras recordes de soja e milho previstas para este ano, o Brasil reforça sua vocação para potência agrícola e pode ultrapassar os Estados Unidos pela primeira vez como maior produtor de soja no mundo. Mas os problemas para escoar essa safra expõem os gargalos estruturais do país, que incluem insuficiência de armazéns, problemas nas estradas, falta de alternativas ao transporte rodoviário e, na reta final, travas nos portos.

"A produção (agrícola) está crescendo muito rápido, mas a infraestrutura não reage com a mesma velocidade. É algo preguiçoso", diz Sergio Mendes, diretor da Associação Nacional de Exportadores de Cereais (Anec).

Ele afirma que a produção brasileira de soja quase triplicou de 2000 para cá, devendo chegar a 83 milhões de toneladas neste ano. Metade vai para exportação, e um terço da soja que sai do país passa por Santos.

De acordo com a Companhia Docas do Estado de São Paulo, a Codesp, um quarto da balança comercial do Brasil passa pelo Porto de Santos, o maior do país em termos do valor de mercadorias movimentadas.

O porto triplicou sua capacidade nos últimos vinte anos, e hoje movimenta 105 milhões de toneladas de bens a cada ano – não apenas grãos, mas também açúcar, contêineres, carros, combustível. [...]

Investimentos

Barco diz que a situação atual reflete anos de carência de investimentos em infraestrutura, mas destaca que US$ 3,5 bilhões estão sendo investidos no porto até 2015.

Estradas e viadutos estão sendo construídos para melhorar o acesso ao porto – ao fim da Rua do Adubo, por exemplo, um viaduto a ser entregue nos próximos meses vai evitar que os caminhões precisem interromper o trajeto na linha do trem, passando por cima da ferrovia.

Barco alerta, porém, que embora medidas estejam sendo tomadas para remediar a situação, a melhora não se dará de um dia para o outro – e neste ano a situação ainda pode se agravar com a entrada da safra do açúcar, nos próximos meses.

"É no meio de uma crise que se buscam as grandes soluções. Mas as grandes soluções não vêm no curto prazo", diz Barco.

Em dezembro, a presidente Dilma Rousseff anunciou um pacote que prevê investimentos de R$ 54,2 bilhões até 2017 para modernizar o setor portuário brasileiro. Os investimentos estão vinculados à chamada MP dos Portos, aprovada por uma comissão mista do Congresso nesta quarta-feira e que deve ir a plenário até 16 de maio.

"O governo brasileiro está correndo contra o tempo", diz Barco. "Precisamos investir em estradas e ferrovias."

Para dar vazão à produção agrícola do país, especialistas concordam que é preciso modernizar os sistemas de transporte no país.

Em vez de usar caminhões para fazer a longa viagem do centro-oeste até o Porto de Santos, Sergio Mendes, da Anec, diz que o país deveria investir em hidrovias e escoar seus grãos pelo Norte do país.

Mendes afirma que o Brasil perde em competitividade para os Estados Unidos e Argentina por causa dos altos custos logísticos. "Quando você usa o caminhão, você está gastando cinco vezes mais do que se usasse a navegação fluvial. É muito."

A Anec estima que os produtores brasileiros estejam perdendo US$ 4 bilhões por ano por causa do alto custo para escoar seus grãos.

"O país precisa se modernizar e essa é uma pressão que o produtor tem que exercer sobre o governo, para que ele possa por esse dinheiro no bolso", diz Mendes."

Logo abaixo, segue um momento de sinceridade do Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, em uma entrevista para a Folha de S. Paulo:

"O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, diz que o Brasil tem uma inflação de base renitente entre 5% e 6% --acima do centro da meta do BC, de 4,5%.

Ele não enxerga, porém, nenhum risco de um surto inflacionário no horizonte.

"Pelo que a gente observa, a inflação de base no Brasil está nessa faixa de 5,5%... Entre 5% e 6%. Ela não supera isso, mas também dificilmente fica abaixo disso", declarou Pimentel [...]

A inflação (IPCA) nos últimos 12 meses terminados em março estourou o teto da meta de 6,50% e atingiu 6,59%.

Ele vincula a recuperação da competitividade da economia como um todo para que se possa "ter uma inflação de base mais baixa" no país.

Quando será? "É um processo um pouco mais lento, vai demorar um pouco mais de tempo, mas ela [a inflação] vai cair", disse, acrescentando que isso será possível com as medidas de combate aos gargalos logísticos em curso no governo Dilma.

Enquanto isso, o ministro admite que a economia brasileira tem "um limite para o crescimento" sem que se gere alta de preços.

Ele evita precisar qual seria esse PIB potencial. "Deve estar mesmo nessa faixa de 3% e 4%. Talvez um pouco mais, de 4,5%. A partir daí você começa a ter problemas, porque advém dos gargalos logísticos, de uma pressão excessiva sobre o mercado de mão de obra".

Por isso, reconhece que, até solucionar seus gargalos logísticos, o país vai conviver com "taxas de crescimento que não são exuberantes, mas suficientes para sustentar o pleno emprego e o crescimento da renda". Em seus cálculos, "isso vai levar dois, três anos para resolver". [...]"

De volta...

Lembra da postagem anterior, na qual falei sobre a questão da inflação no Brasil? Pois bem, por sinal o  Pimentel e o Mendes já deu uma das causas de não termos comida mais barata na mesa por exemplo: nossa maravilhosa infraestrutura (para os anos 60, é claro). Além disso, fica cada vez mais evidente que não há o menor sentido usarmos o modal rodoviário como carro-chefe da nossa logística, uma vez que ele possui um custo muito maior em relação ao ferroviário e hidroviário/portuário.

E de fato, o governo federal, ainda que a passos lentos, está tentando virar o jogo nesta situação. A questão é: por que não fizeram isso antes, quando o país ainda se dava ao luxo de crescer entre 5% e 7%? Vale lembrar que o bloco partidário que governa o país hoje está há mais tempo no poder em relação ao anterior, logo não dá para simplesmente culpar a "herança maldita".

Apesar de tudo, parabéns ao Ministro Pimentel pela sinceridade. Já é alguma coisa, não é?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva