Associated Press falando o que muitos de nós já sabemos faz tempo: andamos em cadeiras elétricas ambulantes. Ou: Collor continuaria falando que nossos carros são carroças!

(Fonte da imagem: Estadão)
Bom dia pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar uma reportagem da Associated Press na qual existem duras mas previsíveis críticas aos carros que são produzidos no Brasil, que como nós sabemos são caros e em geral de qualidade inferior. Também aproveito o momento para pedir desculpas pelo fato da postagem especial sobre o turismo no Espírito Santo não ter saído neste final de semana. As comemorações do Dia das Mães e o fato de tal postagem ser desenvolvida em equipe (o que exige um nível de discussão maior) acabaram atrasando a continuidade da série. Desde já peço a compreensão de todos. Mas voltando ao assunto da postagem atual, segue abaixo uma matéria do Estado de S. Paulo que cita essa reportagem da agência americana. Volto mais tarde.

"O jornal americano The New York Times publicou em seu site ampla reportagem da agência Associated Press intitulada "Carros feitos no Brasil são mortais".

A reportagem afirma que os veículos produzidos no País são feitos com soldas mais fracas, poucos itens de segurança e materiais de qualidade bem inferior aos dos fabricados nos Estados Unidos e na Europa.

"O que acontece quando esses veículos vão para as ruas está se transformando numa tragédia nacional", afirma a reportagem. A Associated Press é uma das agências de notícias mais antigas do mundo, fundada em 1846. Ela fornece noticiário para mais de 1,7 mil jornais e cinco mil emissoras de rádio e TV.

A alta taxa de mortalidade no trânsito no Brasil seria quatro vezes superior à americana, resultado da fragilidade dos modelos brasileiros. O artigo aponta que de cada cinco carros analisados no País, quatro não passariam em testes de colisão feitos por empresas independentes.

Em resposta ao polêmico artigo, as montadoras declararam que os automóveis brasileiros respeitam normas de segurança vigentes no Brasil. O número de mortes de motoristas e passageiros é atribuído por elas à má conservação de ruas e estradas.

Enquanto nos Estados Unidos a margem de lucro para as montadoras automotivas é de meros 3%, no Brasil seria de 10%, segundo o artigo. A diferença viria da economia com a qualidade dos produtos.

Outro número levantado chama à atenção: da última década para esta, subiu em 72% o volume de mortes no trânsito do Brasil. O artigo relaciona esse dado ao boom da classe média brasileira.

Em dez anos, 40 milhões de pessoas ascenderam das classes D e E à classe C. Nessas condições, a quantidade de gente comprando o primeiro automóvel aumentou. Assim, com mais motoristas de carros inseguros nas ruas, as mortes tendem a ser cada vez mais frequentes.

A reportagem da Associated Press ouviu Alexandre Cordeiro, representante do governo brasileiro, que admitiu a falta de equipamento de testes de impacto (crash-test) no governo federal e a necessidade de aperfeiçoamento da legislação relativa à segurança veicular."


Voltei...

Como disse no início desta postagem, a matéria da Associated Press fala sobre algo que nós já conhecemos faz um certo tempo: pagamos caro para termos veículos que em geral são inferiores aos modelos europeus e norte-americanos. E antes que alguém diga que isso é "complexo de vira-lata", vale lembrar que mesmo os carros fabricados no Brasil apresentam diferenças entre os modelos comercializados aqui e os exportados para o Velho Continente, por exemplo. O vídeo abaixo é uma pequena demonstração disso:

Test-drive do VW Fox Geração 1. O modelo comercializado no Brasil é o de cor preta e o europeu é o de cor vermelha.


Outros fatos que corroboram com o dito pela Associated Press são que até hoje o Mille Fire (com aquele mesmo formato de caixote dos anos 80, ainda com algumas outras) e a Kombi (que salvo alterações, ainda que poucas, possui a mesma estrutura dos anos 60) não saíram de linha. E voltando a falar do Fox (o primeira geração, especificamente), o recall que tal modelo da Volkswagen passou faz cinco anos foi justamente causado por diferenças de projeto (poderia ser incluído como a tal economia com a qualidade dos produtos) do banco traseiro do modelo brasileiro em relação ao europeu, o que levou inclusive à perda de dedo de alguns proprietários. Ah, e poderia de falar de outros casos que continuam corroborando com a conclusão lamentável mas previsível da AP, como o FIAT Stilo que solta rodas e os re-re-re-re-recalls da Família VW Gol...

Sobre a resposta das montadoras e do Sr. Cordeiro, representante do governo federal, é possível formular algumas hipóteses sobre o tema, a saber:

1) As exigências de qualidade e de segurança para os veículos brasileiros devem ser muito frouxas em relação aos norte-americanos e europeus;

2) Mesmo com exigências mais frouxas, as montadoras ainda conseguem pisar na bola, prova disso são os casos citados no parágrafo após o vídeo do crash-test do Fox. Resta saber se essas fazem isso por incompetência, ou má fé, ou ainda ambos (só falta determinar as proporções de cada um);

3) Sabendo disso, considerando o fato de que as montadoras vendem menos por mais, pensando que estas ultimamente receberam incentivos fiscais do governo federal, as duas hipóteses anteriores e mesmo assim batemos recordes após recordes de vendas de carros ano após ano, existe uma grande possibilidade de que alguém está sendo feito de otário nessa história. Pior: mesmo a pessoa SABENDO que está sendo feita de otário, existe uma possibilidade tão grande quanto ou ainda maior de que esta queira continuar sendo feita de otário.

E quem é esse alguém que está sendo feito de otário? Adivinhem, é quem compra o carro, mesmo sabendo desta zorra toda! E disse que muitas pessoas acabam sendo "otárias opcionais" pela mentalidade (péssima, por sinal) que ainda vigora por aqui de que carro é um "bem de investimento"(e não um bem de consumo como é uma geladeira, um computador, um smartphone) e que qualquer pacote de opcionais ou mesmo de alguns itens de série transformam o que seria um popular pé-de-boi lá fora em um sinônimo de luxo, status e sofisticação por aqui (e só por aqui mesmo). Pior é pensar que muito carro importado mais equipado, porém com alguns anos a mais que as carroças os "carrões" nacionais equipados, sai mais em conta para comprar.

Pior é que achamos que temos moral de criticar a "falta de segurança" dos carros chineses, mas ora, sendo que a indústria automobilística aqui no Brasil tem mais tradição e porque não dizer know-how, não seria mais vergonhoso que com tudo isso tenhamos que nos comparar aos "intrusos" no nosso mercado?

(Fonte da imagem: Melhor Blog Automotivo)
Talvez a última saída seja fazer isso que está sendo proposto na imagem acima, no sentido de termos carros de verdade e não cadeiras elétricas ambulantes como ainda se vê por aqui. Ah, esta imagem é de 2009.

Uma das frases atribuídas ao ex-presidente Fernando Collor era que os carros nacionais eram carroças. Mais de vinte anos depois tal citação continuaria atual.

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