Carro, um item de consumo que não é mais (tão) prioritário

Terceira Ponte, na hora do rush, nas condições normais de temperatura e pressão. (Fonte da imagem: Folha Vitória)
Na semana passada, eu postei no blog uma matéria do Estado de S. Paulo que transcrevia uma reportagem da Associated Press criticando a qualidade e a segurança dos carros brasileiros. Também no mesmo post, falei que aqui no Brasil o carro é muitas vezes tratado como bem de investimento ou de status, enquanto "lá fora" é tratado como um bem de consumo como qualquer outro. Pois bem, hoje a Exame publicou uma matéria falando sobre o fato de que até "lá fora" o automóvel deixou de ser sonho de consumo, que irei transcrevê-la. Volto mais tarde.

"O empresário americano Henry Ford costumava dizer que um mercado nunca fica saturado de bons produtos. Sua máxima valeu para o setor automotivo por mais de 100 anos. Desde o início do século 20, quando Ford criou sua montadora, os carros estão entre os bens de consumo mais desejados do mundo. São sonho de adolescentes, de quem ganha o primeiro salário, de quem se casa. Desde 1960, a frota global de veículos passou de 200 milhões de unidades para mais de 1 bilhão.

Montadoras como General Motors e Toyota estiveram entre as empresas com maior faturamento do planeta durante todo esse tempo. Para chegar lá, bastava seguir o caminho trilhado pelo pioneiro Ford — fabricar produtos mais bonitos, mais confortáveis, mais potentes. Mas a lógica que valeu por tanto tempo está sendo invertida. As montadoras continuam a fabricar carros cada vez melhores. A má notícia para elas é que, para boa parte dos consumidores, isso não importa mais.

Os dados de venda nos países desenvolvidos são emblemáticos. Na Europa, as vendas de carros recuaram 8% em 2012 e chegaram ao pior patamar em 17 anos. No primeiro trimestre de 2013, as vendas caíram outros 10%. Os maus resultados fizeram as maiores montadoras do continente — Opel, Ford, Fiat e Peugeot — acumular 6 bilhões de dólares de prejuízo na região em 2012. Enquanto isso, nos Estados Unidos, a venda de veículos caiu 15% de 2007 a 2012 — de 16,4 milhões de carros para 13,9 milhões. Parte da má fase das montadoras tem a ver com a crise que se arrasta desde 2008.

Segundo a consultoria especializada em consumo Frontier Group, o custo médio de dirigir um carro nos Estados Unidos é 8 700 dólares por ano — um dinheirão em tempos de incerteza. Mas a perda de interesse pelos automóveis é um fenômeno mais social do que econômico. As novas gerações já não estão nem aí para motores, pistões e cilindros. Em 1998, 64% dos americanos de até 19 anos tinham carteira de habilitação.

Em 2008, a fatia caiu para 46%. No ano passado, chegou a 28%. No Brasil, apesar de a venda de carros bater recorde atrás de recorde, os jovens também já não se entusiasmam tanto com o volante. Uma pesquisa da consultoria Box 1824, especializada em comportamento, mostra que comprar um carro é prioridade para só 3% dos jovens de 18 a 24 anos. 

Um conjunto de motivos explica o desinteresse dos jovens. Carros deixaram de ter o apelo que tinham porque poluem, engarrafam as cidades, custam caro — e, para uma boa parcela do público-alvo das montadoras, esses critérios importam cada vez mais. Nos países ricos e em muitas faixas sociais de países emergentes, o carro deixou de ser símbolo de status. Hoje, essa função é desempenhada por smart­phones e outros aparelhos eletrônicos. Para a indústria automotiva, o recado está dado — para vender para um público tão pouco entusiasmado por carros, será preciso mudar.

A dificuldade é resumida por Sven Beiker, diretor do Centro de Pesquisas Automotivas da universidade americana Stanford. Para ele, as montadoras têm duas opções. A primeira é começar a fabricar carros menos poluentes e mais inteligentes, feitos para um público que já não tem mais interesse em dirigir. A segunda é abraçar a morte lenta. “Essa mudança na forma como os carros são vistos transformará o papel do motorista. Ele estará lá apenas para casos de emergência”, diz Beiker.

Muitas das inovações que vão dominar a indústria nas próximas décadas já estão em teste. Os carros ecológicos são os primeiros da fila. Nesse caso, os governos têm dado um empurrão. Diversos países, como o Brasil, estão apertando o cerco contra veículos poluentes e oferecendo incentivos fiscais para montadoras que reduzirem a emissão de carbono. A urgência do novo cenário está forçando as montadoras a unir forças. Toyota e BMW anunciaram em janeiro acordos de coope­ração para criar carros sustentáveis.

Equipes de engenheiros de cada montadora trocam informações sobre carrocerias mais leves e sobre uma nova linha de baterias que, além de lítio, usa oxigênio e permite que os carros tenham autonomia de até 800 quilômetros sem usar gasolina. O plano é, em breve, fabricar um carro em conjunto. Daimler, Ford e Nissan se uniram para aprimorar os veículos elétricos com célula de combustível, movidos pela eletricidade gerada de hidrogênio e oxigênio. A previsão é que a tecnologia permita fabricar carros totalmente elétricos em larga escala a partir de 2017. Os modelos atuais, como o Prius, da Toyota, dependem de combustível para dar a partida. [...]"

Voltei...

Como visto na matéria da Exame, a minha opinião sobre a diferença de visão nossa para a europeia e a norte-americana sobre o carro foi ligeiramente equivocada. Enquanto por aqui ainda existe o pensamento de que carro é sinônimo de status (embora ficou claro que já se inicia um processo de mudança), "lá fora" o carro não só é apenas um mero bem de consumo, como também não é necessariamente um bem de consumo prioritário. Sobre a pesquisa da Box 1824, eu mesmo posso dizer com muita tranquilidade que poderia me enquadrar nos 97% que enxergam o automóvel como algo que pode ser deixado para depois. Provavelmente me formarei como engenheiro de produção e não estarei motorizado, até porque tirar carteira é caro e tenho outras coisas mais importantes para bancar (como alguns cursos e eventos que vejo como importantes para meu curso).

Sobre as ponderações feitas por Sven Beiker, eu diria que uma opção não anula necessariamente a outra, até porque carros mais "ecológicos" e mais inteligentes, quando muito, podem minimizar o fator poluição como item de resistência ao automóvel. A chatice e o stress dos engarrafamentos continuarão os mesmos. Enfim, pode ser que no final das contas as montadoras tenham que realmente "abraçar uma morte lenta" e aceitar o fato de que o carro só será utilizado em situações excepcionais ou ainda só pra aquele passeio de final de semana.

Claro que vai demorar mais um pouco para esse pensamento chegar por aqui, até porque as vendas de carros estão infladas por conta dos incentivos fiscais feitos pelo governo federal. Mas quando esse momento chegar, o nosso mercado automotivo estará preparado para isso?

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