Especial: Turismo - Parte I: como fazer com que isso se torne algo grande no Espírito Santo

(Fonte da imagem: Viaje Aqui)
Boa noite pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para dar continuidade na série especial de um ano do blog, e o tema escolhido será sobre a questão do turismo no Espírito Santo, bem como o que poderia e deveria ser feito para seu crescimento no nosso Estado, por sinal uma terra com uma combinação única de belezas e de paisagens.

Dados e fatos

Antes de falar efetivamente sobre o assunto central deste tema, é necessário alguns dados para se ter uma noção do comportamento recente do turismo capixaba. As tabelas abaixo são estimativas feitas pela Secretaria de Turismo do Governo do Espírito Santo, publicadas em março de 2012 (alta temporada [1] e carnaval [2]) e agosto de 2012 (média temporada [3]).

Tabela 1 - Fluxo turístico na alta temporada (pesquisa feita em janeiro de 2012)

(Fonte: Setur)
Tabela 2 - Fluxo turístico no carnaval (pesquisa feita em fevereiro de 2012)

(Fonte: Setur)
Tabela 3 - Fluxo turístico na média temporada (pesquisa feita em julho de 2012)

(Fonte: Setur)
Somente as três tabelas permitem fazer diversas inferências sobre o turismo em nosso estado. Uma delas é que em valores absolutos na alta temporada o litoral sul capixaba (cortado pela Rodovia do Sol) seria o destino mais preferido e em termos relativos (% de turistas) seria o extremo sul de tal região (cortado pela ES 490). Isso se repete no carnaval e na média temporada tal tendência só se repete nos valores absolutos, sendo que em termos relativos, contrariando o senso comum, é o extremo norte do litoral capixaba (identificado pela Rodoviária de Conceição da Barra) que tem a maior proporção de turistas em relação ao fluxo da pessoas, e não a Região Serrana, que fica em segundo.

Os materiais disponibilizados pela Setur (os links ficarão nas referências ao final deste post) possuem diversas tabelas e gráficos sobre o assunto, porém não irei transcrever todos os itens até para não deixar a postagem muito carregada. Mas algumas informações são bastante importantes e cabem citação:

  • A fatia ocupada por estrangeiros no setor turístico em nosso estado é praticamente desprezível (participação entre 1% e 2%);
  • Dos turistas brasileiros que visitam o Espírito Santo, as cinco maiores participações provém da Região Sudeste (o que inclui o próprio Espírito Santo, que oscila da segunda à quarta maior fatia) e da Bahia;
  • Maioria dos turistas são do sexo masculino (o que se acentua no carnaval e na média temporada);
  • A média de idade dos turistas gira em torno dos 40 anos;
  • A proporção de casados é a maior na alta temporada e na média temporada, e no carnaval a proporção de solteiros é ligeiramente maior em relação aos casados;
  • Em todos os períodos pesquisados a maioria dos turistas possuem o Ensino Médio Completo e o Ensino Superior Completo;
  • A renda média dos turistas é maior na média temporada e menor no carnaval, algo que se repete na renda familiar média;
  • Na alta temporada o automóvel e o ônibus são os meios de transporte preferidos pelos turistas. Já no carnaval é o automóvel e o avião, tendência repetida na média temporada, apenas com uma inversão na ordem de preferência;
  • A média de gastos com transporte dos turistas é maior na média temporada. Já na alimentação gasta-se mais na alta temporada, e o mesmo ocorre nas compras e na diversão. Nos deslocamentos internos verifica-se uma proximidade das médias de gastos na alta temporada, no carnaval e na média temporada;
  • As maiores participações de turistas que vieram ao Espírito Santo são de pessoas que estiveram aqui pela primeira vez ou vem uma vez ao ano, em todos os levantamentos feitos;
  • Vitória, Vila Velha, Guarapari e Serra, municípios da RMGV, são os municípios em que os turistas permanecem por mais tempo, independente do período analisado (apenas ocorre uma permutação entre esses municípios na ordem de preferência);
  • A maior parcela de turistas costuma ficar entre três dias e uma semana nos municípios em que permanecem por mais tempo;
  • Nos três períodos pesquisados, o fato de rever amigos e familiares é o maior motivador da escolha do nosso estado como destino, independente do período pesquisado. Destaque para o fato de que na média temporada o fator trabalho é o segundo maior motivador;
  • Na alta temporada e no carnaval, ir à praia e curtir a vida noturna são as atividades preferidas dos turistas. Na média temporada ocorre apenas uma inversão na ordem de preferência;
  • A maior parte dos turistas desconhecem as rotas turísticas existentes no Espírito Santo, independente do período pesquisado;
  • Na alta temporada e no carnaval, a maior fatia dos turistas costuma ir em família. Já na média temporada a preferência é ir sozinho;
  • A maior média de acompanhantes ocorre na alta temporada;
  • A maioria dos turistas não possuem imóveis nas montanhas capixabas, e suas viagens são por conta própria;
  • Dos turistas que participam de pacotes de viagens, na alta temporada e no carnaval o destino escolhido são as praias. Já na média temporada o pacote mais escolhido não consta nas rotas turísticas existentes em nosso estado;
  • Independente da época pesquisada, a maior parte dos turistas fica em casa de parentes ou amigos, e os que ficam em hotéis/pousadas a maioria avalia tanto a infraestrutura como o atendimento ótimo ou bom. Isso se repete em relação aos restaurantes. Quanto às opções de lazer, isso só se repete na média temporada, sendo que na alta temporada e no carnaval a maioria avalia a infraestrutura como boa ou regular;
  • Em relação às expectativas em relação à viagem, os destinos escolhidos superaram as expectativas ou às corresponderam totalmente para a maioria dos turistas.
E o que inferir disso?

As duas informações são bem claras e objetivas: nosso estado possui pouca visibilidade em relação a turistas estrangeiros (tudo bem, até que existem iniciativas no intuito de mudar essa realidade, como o fato de nosso estado ter entrado na rota de cruzeiros) e que não somos o destino preferido pelos turistas...Do Espírito Santo! Ora mineiros, ora cariocas, ora ainda paulistas, dependendo da época do ano, eles possuem uma participação maior no turismo que os próprios capixabas, o que acaba reforçando a ideia de que não conhecemos nosso próprio estado.

Quanto ao nível de escolaridade e aos meios de transporte, podemos inferir duas coisas: uma é que a tendência é que teremos turistas cada vez mais exigentes em relação aos serviços oferecidos a eles em solo capixaba. A outra é que fica cada vez mais evidente a necessidade de investimentos em melhoria de nosso sistema rodoviário, em especial as rodovias federais que cortam o nosso estado, como a BR-101 e a BR-262, bem como a urgência da ampliação do aeroporto de Vitória, que ficará pronta em novembro...De 2015.

Também algo que pode ser dito a partir de uma das informações do tópico anterior é algo que foi dito de forma recorrente tanto nas postagens que falaram sobre a possível necessidade de se construir um aeroporto internacional em Linhares (clique aqui e aqui) e um superporto, também no mesmo município (clique aqui e aqui): existe a necessidade de haver uma descentralização da infraestrutura em relação à Região Metropolitana da Grande Vitória (RMGV). Existem algumas possibilidades de se fazer isso, seja por uma política de incentivos fiscais para a construção/ampliação da infraestrutura turística em cidades localizadas fora da RMGV ou de forma "natural", já que os investimentos em transporte poderia facilitar essa descentralização. Lembrando ainda que uma iniciativa não precisa necessariamente excluir a outra.

Outras situações que não foram explicitadas na pesquisa mas merecem ser comentadas. Enfim...

Alem da necessidade de uma atenção maior à infraestrutura e uma maior divulgação de forma que os capixabas estejam mais dispostos a conhecerem o nosso estado, algumas coisas que não foram declaradas na pesquisa feita pela Setur merecem igual atenção: uma delas é que somos o único estado de federação em que os supermercados ficam fechados aos domingos (e olha que por muito pouco não aconteceu o mesmo com os shoppings para este ano). Especialmente nos municípios litorâneos, tal situação pode se tornar um tanto negativa, uma vez que os turistas, ficam com uma opção a menos em relação aos ambulantes e quiosqueiros, que costumam cobrar um preço bastante salgado para um petisco à beira da praia. Lembrando ainda que a maioria dos turistas que vem ao nosso estado são mineiros, cariocas e paulistas, lugares que tem supermercados abertos todos os dias e em algumas cidades ficam abertos 24 horas. 

Outra situação que mina o potencial do turismo em nosso estado e foi inclusive relatada neste blog é a falta de (ou o mau) planejamento dos governos municipais (confira aqui) em relação aos calendários de eventos e à infraestrutura já existente (algumas cidades litorâneas na alta temporada enfrentam problemas de falta de água, como mostrado aqui). Enfim, como mostrado aqui, o que falta ao nosso estado basicamente é um investimento e um melhor planejamento nos empreendimentos voltados para o setor, bem como uma melhor divulgação das belezas de nosso estado para o público local e políticas voltadas à atração de turistas estrangeiros (nesse caso haveria a necessidade de preparar os profissionais que lidariam diretamente com essas pessoas, como policiais, motoristas de ônibus, taxistas, trabalhadores do setor hoteleiro e de restaurantes, etc.), bem como o fim de certas políticas provincianas comumente adotadas por aqui. Creio que este seja o caminho para tornar o turismo algo grande no Espírito Santo.

No próximo episódio da série especial: O Minuto Produtivo dará continuidade ao tema "Turismo", desta vez enfatizando a necessidade do Espírito Santo estar preparado para brigar para abrigar os grandes eventos. Aguardem!

Referências:

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