Protestos e "protestos"

Isso porque é um protesto pacífico. Se não fosse então...(Fonte da imagem: G1)

ATENÇÃO: Sei muito bem que este post poderá chocar e até mesmo ofender a sensibilidade revolucionária (?) e consciente social (?) de muita gente. Diante disso eu recomendo que se ao longo do texto você se sentir muito puto da vida ofendido, recomendo não ler o post todo. Ou então, confira o último parágrafo que talvez você tenha alguma esperança no que pretendo dizer com isso tudo aqui. Ou não.

Outro aviso que deve ficar bem claro é que conforme sinalizei no final do parágrafo anterior, esta postagem faz parte de uma série de duas. Porém não coloquei isso como "Parte I" até porque vejo isso como desnecessário. Repito: se isso te ofender demais, não o leia na integra. Poupe aborrecimentos para você e assim não precisará descarregar sua raiva na seção de comentários.

Boa tarde pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar sobre um tema que está sendo recorrente nesta semana nos noticiários, sites e redes sociais: os protestos contra o aumento de passagem que ocorrem não só em São Paulo (primeira imagem) como em outras capitais do país, bem como a repercussão disso. Também aproveitarei para falar um pouco sobre os contorcionismos lógicos para a defesa de certos atos de alguns integrantes disso e as comparações no mínimo desproporcionais do que acontece por aqui com o que acontece na Europa ou mesmo nos países do mundo islâmico.

Antes de comentar de fato sobre o assunto, vamos a um breve (e bem porco) resumo do que aconteceu: neste mês, o adiado reajuste das tarifas de ônibus e metrô na maior cidade do país finalmente ocorreu, elevando o valor das tarifas de R$3,00 para R$3,20, após elas terem permanecido congeladas desde 2011 (naquele período a inflação acumulada foi de dois dígitos ao ano e o percentual de aumento da passagem foi de 6,7%). A partir daí foram convocados pelas redes sociais protestos contra esse aumento abusivo por várias vezes foi ocupada a principal avenida da cidade (Paulista) e também foram recorrentes os confrontos com a PM, que resultaram em feridos, presos (se não rolou morte, foi apenas pelo fator trevo de quatro folhas) e muito vandalismo, praticado majoritariamente por grupos existentes dentro do protesto. A partir daí, acontece o que todo mundo espera nesses dias de fácil acesso à desinformação e de redes sociais: muitas pessoas criticando a ação policial e colocando os manifestantes como "vítimas" de um sistema "opressor". Seria realmente isso mesmo?

Incoerências

Bem, algumas coisas que direi aqui nem são tão novidade, até porque já foram ditas em textos anteriores sobre o assunto (confira um, postado no dia 28/04/2012 e outro, postado no dia 06/06/2012). Apenas muda um pouco a forma de dizer isso, mas até certo ponto, minha opinião sobre o assunto é rigorosamente a mesma de um ou dois anos atrás. Não mudo uma vírgula, ponto, acento ou til do que escrevi. E mantendo-se as circunstâncias, ela continuará igual.

Bem, a primeira incoerência que cito em tais protestos é a mais elementar e que qualquer pessoa que tenha o mínimo de noção de lógica concluiria o mesmo. A principal alegação contra o aumento das passagens é que eles "cerceiam o direito de ir e vir da população". Mas ora, fechar a principal via de uma cidade, impedindo a passagem de carros, motos, ônibus(!) e até ambulâncias é o que então? Nada mais nada menos que cercear o direito de ir e vir da população! Mas pode ser que alguém diga "ora, isso não impede seu direito de ir e vir, afinal isso bloqueia a passagem dos veículos e não das pessoas". Aí responderia: da mesma forma que R$0,xx a mais na passagem não impede de você andar e sim de ir de ônibus. Correto?

Segunda incoerência: as pessoas criticam o fato de que existe repressão a um "protesto pacífico". Tá, legal, e o que leva uma pessoa a levar em um protesto, digamos, pacífico, facas e combustível? E o que leva uma pessoa a ir a um protesto "pacífico" e depredar estação de metrô, ônibus, lixeiras? Que pacifismo é esse? Ah, e sobre o fato de ridicularizar a polícia por ter ocorrido prisões de pessoas que portavam vinagre supostamente para neutralizar os efeitos das bombas de gás lacrimogêneo, sugiro que deem uma breve pesquisa no Youtube sobre "bomba de vinagre". Para quem tiver preguiça, mostro apenas um exemplo, logo abaixo:


A terceira incoerência se deve ao comportamento de não poucas pessoas, sejam participantes, sejam simpatizantes dos protestos. Uma foi até escancarada pelo âncora do Bom Dia SP Rodrigo Bocardi, que disse que “Alguns deles não têm R$ 3,20 ou 20 centavos a mais para pagar a passagem de ônibus, mas têm R$ 3 mil para pagar a fiança”. A frase, apesar de polêmica, é bastante direta no sentido de retratar a incoerência demonstrada por certas pessoas que supostamente defendem "boas causas". Não é tão difícil tirar do bolso centavos a mais para se pagar uma passagem (lembrando que aumenta preço de combustíveis, salários e outros insumos relacionados ao transporte público e que como dito antes, por dois anos a tarifa ficou congelada em SP), mas pera lá, como que os caras tiram dinheiro para pagar a fiança depois de descarregar sua sanha revolucionária no patrimônio público ou mesmo no patrimônio alheio? Ou então, como os caras que chamaram o governador de SP Geraldo Alckmin de vândalos lá em Paris conseguiram viajar e acima de tudo se manter por lá? Afinal, custo de vida na Europa apesar da crise não deve ser uma pechincha. Ainda. E digo mais, conheço muita gente que nos protestos que ocorreram aqui onde moro (Região Metropolitana da Grande Vitória) tem esse nível de (falta de) coerência.

Por fim, a quarta incoerência se deve a algo tão elementar quanto à primeira: os caras lutam por uma melhoria em um serviço de caráter público, aí quando entram em confronto com a polícia, um dos primeiros alvos é o patrimônio...Público! Genial. E claro, dane-se a lógica mais uma vez.

Comparações estapafúrdias

Seria compreensível se não fosse um estupro de senso e de lógica.(Fonte da imagem: Divulgação/Facebook)
A imagem acima virou febre nas redes sociais logo depois que aconteceram os primeiros confrontos com a polícia. O intuito dela é criticar a diferença de tratamento que as pessoas e a mídia fazem dos protestos ao redor do mundo em relação ao nosso. Seria ótima no sentido de retratar a realidade. Seria, não fosse o fato de existir uma desproporção muito grande entre o que ocorre "lá fora" com o que ocorre por aqui. Vamos a um breve comparativo:

Egito (vale para a "Primavera Árabe" de forma geral): Protestos contra regimes ditatoriais (autocracias), sendo que algumas dura(ra)m décadas. Lembrando que nos desdobramentos alguns países abandonaram as autocracias e seguiram o caminho dos regimes teocráticos (no caso, estados islâmicos). O mais estranho é que mesmo com esse desenrolar das coisas há quem considere ainda o exemplo dos países árabes um modelo a ser seguido por aqui. Pior ainda que os mesmos que defendem isso criticam a existência de um Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos. Mais uma vez: lógica, pra que ter uma?

Londres (vale para qualquer país europeu, em maior ou menor grau): Protestos contra as medidas tomadas após a pior crise econômica dos últimos 70 anos.

Turquia: Protestos contra o regime semiditatorial de Recep Tayyip Erdogan, uma versão piorada da "ditadura do PRI mexicano" (pesquise no Google que você entenderá essa comparação).

Brasil: Protestos contra o aumento da passagem de ônibus.

Qualquer pessoa que tenha o mínimo de senso e de lógica diria que a situação que o Brasil vivenciou na última semana é COMPLETAMENTE DIFERENTE do que ocorre lá fora. Logo, colocar no mesmo patamar o que ocorre lá com o que ocorre aqui é no mínimo uma comparação muito forçada, para não dizer uma demonstração de má fé ou burrice. Ou de uma combinação duas a duas dessas três coisas. Ou as três coisas mesmo.

"Ah, mas não é só pela passagem, é pela qualidade do transporte público, ele não melhora e os empresários estão lucrando mais...". Bem, vamos pensar no exemplo do "bode na sala": tem uma sala (transporte público) que está um caco como sempre: sofá com o couro rasgado, mesa de centro com vidro trincado, TV que não pega mais nenhum canal, etc.. Então de repente colocam um bode (aumento de tarifa) e então ele começa a dar chifrada no sofá rasgando ainda mais o couro, pisotear em tudo que encontra pela frente e o pior: começa a mijar e a cagar na sala. Então o dono da casa diz "Que sala porca e horrível, não dá para aguentar mais! Tira esse bode daqui!". Então tira-se o bode e o dono da casa passa a dizer: "Agora sim, tá bem melhor!". E a sala (transporte público)? Bem, ela continua com o sofá rasgado, o vidro da mesa de centro trincado e a TV continua sem pegar canal nenhum, mas tudo está uma maravilha, afinal, o bode (aumento de tarifa) foi retirado da sala...Aí fica a pergunta: se a passagem de fato cair (e sim, é possível, apenas muito pouco provável), os protestos pela "melhoria do transporte público" continuariam? Haveria 10 mil pessoas marchando pela Avenida Paulista? Bem, seria capaz de apostar que a resposta para essas duas perguntas seria "não".

E se eu for lembrar do caso daqui da RMGV, eu diria que nem "tiraram o bode" da sala. Ele continua lá, mijando e cagando. E se bobear, possui uma cabra e já conseguiram fazer família, com filhotinhos e tudo. Mas agora tem alguém quem limpe a urina e a bosta. Alguma semelhança com o fato de o benefício do passe livre ter sido estendido aos alunos do ensino superior por aqui e que depois disso mesmo com aumento da passagem até agora não houve protestos (pelo jeito a onda de "consciência social" que de repente tomou conta do país vai animar o pessoal daqui, vamos ver...)? Isso inclusive demonstrou a meu ver que o movimento contra o aumento ao menos onde moro nunca teve caráter popular. Muito menos luta de fato contra o aumento da tarifa, como ficou demonstrado.

Antes que me crucifiquem pelo que estou dizendo, em nenhum momento afirmei que a causa da melhoria do transporte público é irrelevante. Apenas estou dizendo que há uma diferença muito clara (e diria grande até) entre protestar contra uma ditadura ou ainda uma crise financeira de grandes proporções e protestar contra questões relacionadas ao transporte público. E pelo amor de tudo que existe de sagrado neste mundo (a não ser que você não acredite em nenhuma divindade), nem tente comparar com os protestos de maio de 1968, Revolução Russa ou ainda a Queda da Bastilha! Aí já sobraria só as possibilidades da má fé ou da burrice intelectual mesmo.

Atuação da polícia e da mídia

Você realmente acredita que não há intenção nenhuma? Não mesmo? (Fonte da imagem: Direita Política/Facebook)
Bem, antes que alguém venha dizer que defendo incondicionalmente a ação policial contra os manifestantes, já pretendo deixar bem claro que não, não apoio totalmente a repressão aos protestos. No que foi visto na última quinta-feira em São Paulo, é visível e até óbvia (durrr) que as forças de segurança mostraram a mesma quantidade de neurônios dos manifestantes nos dias anteriores. Bancar o modo "metralhadora giratória" do Rambo não resolve em nada a situação e apenas reforça a imagem (mas só a imagem) de que temos apenas "oprimidos" que "acordaram" e passaram a de repente lutar contra um Estado opressor. Mas de qualquer forma não muda o fato de que destruir patrimônio público e tacar coquetéis molotov não fará de você um "consciente social" e sim um vândalo. Para não dizer um terrorista. E como sempre digo: com terroristas não se negocia.

Sobre a cobertura da mídia em relação a isso, e admissível e também óbvio que houve uma intenção de tirar o rabo a culpa dos poderes públicos nesse entrevero. Mas diria, que pressupondo tal intenção, diria que até nisso ela "pegou leve". E explico o porquê. Se eu fosse o editor-chefe de um grande domínio de mídia e tivesse REALMENTE a intenção de desqualificar tais manifestações, teria por exemplo aproveitado a onda do Reinaldo Azevedo e colocado em rede nacional o fato de que uma entidade que é dona do domínio de internet do "Movimento Passe Livre" recebia dinheiro de uma estatal e do Ministério da Cultura (mais tarde, a estatal solicitou à tal entidade que retirasse as logomarcas). Ou ainda o mais óbvio, como mostrado na imagem acima, em que se vê várias bandeiras de partidos políticos e de associações direta ou indiretamente ligadas a eles. Ora, seria isso um movimento realmente neutro e apartidário? Até que ponto e em que nível na organização de tais movimentos tais pessoas ligadas ao PSOL e ao PSTU estariam? Não seria possível enquadrar como propaganda eleitoral antecipada e pior ainda, propaganda que contraria o Código Eleitoral? Da mesma forma em que certas imagens de um policial quebrando o vidro da própria viatura não foram parar na grande mídia, também não houve nenhum interesse da "imprensa burguesa e golpista" em buscar itens que poderiam minimamente gerar muitas dúvidas sobre as intenções de tais protestos.

Mas pretendo também deixar claro que não estou querendo jogar todas as pessoas que protesta(ra)m ou simpatiza(ra)m com tais protestos em um mesmo balaio, seja no sentido de tachá-los como "baderneiros" ou ainda "oportunistas partidários". Sim, existem pessoas com boas intenções que participam de tais protestos e que até o momento não tem culpa de correr o risco de virarem "bois de piranha" achando que estão deixando tal condição. A questão é que em certos momentos é necessário que se "dê nome aos bois" (ou tentar isso). E abandonar certas "visões agridoces" que são muito bonitas, mas de fato são pouco aplicáveis.

Encerrando

Provavelmente você deve estar pensando que sou absolutamente contra os protestos e que o ideal é que todos fiquem com o traseiro gordo sentado na cadeira ou no máximo fazendo sofativismo (apesar de que muitos acabam passando por tal condição) enquanto nossos representantes fazem pouco caso da população, pretendo deixar um posicionamento bem claro: a minha razão para criticar os recentes protestos NÃO é pelo motivo em si, apesar de eu discordar totalmente da solução proposta pelas lideranças de tais movimentos, e sim pelos métodos adotados para lutar por tal causa, bem como pela "defesa" de certos atos feita por alguns simpatizantes. Em síntese: defendo que é necessário que se proteste em prol de algo, desde que de forma sensata e coerente, causando o mínimo de transtorno possível para a população. Para que me entendam melhor, o fechamento de vias deve ser SEMPRE a última hipótese e se possível, DEVE SER EVITADO. E caso realmente não tenha jeito no sentido de atrapalhar a vida de alguém, incomode preferencialmente quem realmente merece e até deve ser incomodado, que são nossos representantes em todas as esferas de poder, seja fazendo muito barulho em frente aos prédios públicos, seja até mesmo dificultando o acesso de vereadores, deputados, prefeito e governador aos seus locais de trabalho. O apoio da população seria maior, e quem sabe, poderá conquistar o meu apoio também. ;)

No próximo post: Apresentarei neste blog uma opinião sobre o que deveria ser feito para melhorar o transporte público em nosso país. E como vocês imaginam, não é nem de longe o que se defende por aí. Até a próxima.

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