Sim à teatralização dos estádios. Afinal o futebol é um enorme teatro!

(Fonte da imagem: BBC Brasil)
Bom dia pessoal. Como anunciado na fanpage do Facebook o Minuto Produtivo ficou sem atualizações regulares durante quase uma semana, visto que meu instrumento de "trabalho" (entenda isso por meu notebook) esteve na manutenção para corrigir problemas de superaquecimento. Ou seja, este post levou quase uma semana para ficar pronto, uma vez que dependi dos computadores do laboratório de informática do IFES e de um notebook de um amigo meu. Problema resolvido, o assunto que irei comentar no post de hoje é sobre o perfil dos novos estádios que estão sendo inaugurados no Brasil, em especial sobre os inaugurados para receber às Copas das Confederações e do Mundo, bem como às críticas em relação aos mesmos.

Desde já, pretendo deixar bem claro por aqui que o fato de eu ressaltar aspectos positivos nos novos estádios (entenda por os da Copa) não significa que defendo os gastos (quando falo disso, falo de gastos com recursos públicos) que foram necessários (ou não tão necessários assim) para a construção ou reforma dos mesmos. Lembrando que inicialmente era anunciado que os estádios seriam construídos com recursos privados. Isso sem contar que alguns destes serão construídos em locais sem grande expressão no futebol, correndo o risco de se tornarem elefantes brancos em breve.

Ok, esclarecimentos dados, vamos ao assunto desta postagem. No dia 02/06, primeiro domingo deste mês, teve um jogo amistoso entre Brasil e Inglaterra, no estádio do Maracanã, totalmente reformado para atender aos padrões da FIFA para a Copa do Mundo. Um jogo no geral morno, com as melhores chances e melhores jogadas concentradas no segundo tempo e que terminou em um empate de 2 a 2. Mas como dito inicialmente, o assunto não é sobre o desempenho da "família Scolari" (apesar de que a meu ver ainda não convence), e sim sobre os estádios, o que inclui o novo "templo" do futebol nacional. 

Pois bem, já que o assunto é falar dos estádios, tomemos como exemplo justamente o novo Maracanã. Se eu tivesse em dizer como ficou em poucas palavras, falaria que do original só restou a fachada. Por dentro não tem nada, absolutamente NADA que faça lembrar do ex-maior estádio do mundo (hoje não fica nem entre os 20 maiores, e sua capacidade é um pouco superior à metade do Rungrado May Day, na Coreia do Norte). Diria ainda que se só fossem exibidas as imagens internas da arena e o Galvão Bueno falasse que o jogo iria ocorrer no estádio de Wembley (em Londres), eu quase que iria acreditar. Enfim, pelo menos em termos estéticos eu diria que o novo Maracanã internamente perdeu totalmente aquela "essência" que o antigo tinha, o que a meu ver é um tanto ruim, uma vez que é possível reformar um estádio, adequando-o às exigências internacionais sem descaracterizá-lo tanto (o Olympiastadion em Berlim é um grande exemplo disso).

De qualquer forma, apesar da descaracterização feita e das vultosas somas de dinheiro (principalmente dinheiro público) gastas para construir e reformar as arenas que irão abrigar os jogos, pelo menos vejo algo de positivo não só no novo Maracanã ou mesmo no novo Mané Garrincha, como nos demais que servirão de sedes da Copa do Mundo: a introdução de um novo conceito não só de estádio como até mesmo de um tipo de futebol, conhecido e chamado às vezes pejorativamente de "futebol moderno". Algumas coisas em comum ligam não só as arenas da Copa do Mundo como também as arenas do Grêmio e a futura do Palmeiras (Allianz Palestra): a primeira é que o público pode ter a sensação de estar mais perto do campo; a segunda é que mesmo se não for possível a primeira situação, de qualquer forma você terá à disposição uma cadeira e que poderá acompanhar os jogos de forma confortável; por fim a última, e esta é especificamente para os estádios da Copa, é que a separação entre arquibancada e campo é mínima. No caso do Maracanã, apenas uma pequena mureta garante isso. Alambrados, fossos? Negativo. Enfim, nunca tivemos uma oportunidade tão grande de aproximar a experiência do torcedor brasileiro a de um torcedor europeu.

Apesar disso, esse novo "modelo de futebol" que se quer implantar no Brasil desperta uma série de críticas. Uma, conforme observada no último link é que estamos longe de ter o nível de civilidade para termos estádios sem fosso e/ou alambrado, como lá na Europa. Tudo bem, nos jogos da Copa das Confederações, nos amistosos da selecinha Seleção, seria feito o máximo de esforço para manter pelo menos as aparências para a gringaiada que chegará em solo tupiniquim. Mas e fora disso, como seria a experiência em tais estádios nos jogos do Brasileirão, por exemplo? Como seria segurar os torcedores, em boa parcela de grupos organizados, em um dia de clássico como Flamengo vs. Vasco ou ainda um Corinthians vs. Palmeiras nos estádios localizados nas sedes do Mundial? Será que os "laranjinhas" dariam conta do recado?

Outra crítica, bastante divulgada nas redes sociais, é o fato de que esse novo conceito transformou os estádios de futebol em verdadeiros "teatros" ou "cinemas" (além da crítica ao fato do futebol ter virado "puro negócio"), em que as pessoas não reagem mais ao que acontece nos jogos pulando feito touro de rodeio, ou soltando sinalizador para todo lado ou melhor ainda, chamando pro UFC provocando a torcida adversária, afinal, é bom ter a mesma emoção e adrenalina de pilotar um carro de F-1 sem capacete e ainda usando bermuda e chinelo num galinheiro numa arquibancada. Inclusive um vídeo ilustrando essa crítica, muito engraçado por sinal (é sério mesmo, eu ri) pode ser visto abaixo. Confira:


"Tá cara, e onde você quer chegar com isso?". Simples, foi bom o futebol ter virado um negócio. "Ahn, o quê?". Sim, foi muito bom que o futebol tenha ganhado aspectos de negócio. Explico isso. Foi graças ao fato dos dirigentes dos clubes terem transformado o futebol em um grande negócio (ainda que de forma bem porca e rudimentar) que conseguimos há pelo menos 50 anos figurar entre os países que possuem um futebol de ponta. E justamente pelo fato de isso ter ocorrido de forma "porca e rudimentar" nosso desempenho teve altos e baixos com diferenças entre tais períodos muito grandes. Não fosse o fato de alguém ter pensado que poderia ter feito do esporte da bola no pé um grande meio de ganhar (muito) dinheiro, provavelmente os estádios de hoje seriam em sua maioria os mesmos de um século atrás, com arquibancadas improvisadas (se tivessem, claro), um quadradinho de 1 x 1 para quem tiver que fazer o número 2. E ai de quem fosse ficar em um lugar sem visibilidade e que não tivesse um radinho de pilha para acompanhar os jogos (se for assim, pra que ir ao estádio?), ou então de quem não levasse comida de casa por exemplo! E os jogadores? Sem o fato do futebol ter virado um negócio provavelmente eles teriam que trabalhar a semana inteira em horário comercial para complementar a provável mixaria que receberiam para bater uma pelada "oficializada" no final de semana. Afinal, com campinhos de pelada e jogadores de fim de semana, não dá para atrair público muito menos conseguir uma cota de transmissão de TV para ter mais receita, né? E sem contar que sem o pensamento de negócio, programas do tipo "sócio torcedor" seriam praticamente impossíveis de se aplicar em larga escala. Na verdade, o que se intitula de "futebol moderno" é apenas o último estágio da profissionalização de tal esporte.

Sobre o fato dos estádios terem se transformado em verdadeiros "teatros", bem...Alguém vê vantagem em correr risco de ser atingido por um sinalizador (tudo bem que este caso aconteceu na Bolívia, mas em vários jogos aqui no Brasil se utilizam estes artefatos corriqueiramente)? Alguém vê vantagem em ficar espremido com uma torcida que pula feito touro de rodeio, com risco de cair e ser pisoteada? Alguém vê vantagem em ir assistir ao jogo do seu time sem ter a certeza de que pode voltar inteira ou ao menos, viva? Sobre o último item, especificamente, vale a pena conferir mais um vídeo:


Pois bem, se sua resposta foi "não" às três perguntas, saiba que a "teatralização" dos estádios justamente procura te prevenir de tudo isso. E ainda te permite assistir aos jogos em uma infraestrutura que deve (ou deveria dever) pouco aos estádios localizados na Europa, com direito a lugar reservado, facilidade de entrada e saída e ainda vários telões localizados ao redor para não precisar mais do radinho de pilha. Vale lembrar ainda, que a má qualidade dos estádios atuais, seguido do formato do calendário, preços dos ingressos e violência são fatores que afastam o público dos jogos de futebol. E como dito no último link, esse novo conceito de estádio está sendo utilizado para justamente reverter isso.

E a propósito (essa é para vocês, nostálgicos e romantistas do conceito mais antigo de futebol), vocês realmente acreditam que jogadores e dirigentes estão realmente se importando com essa demonstração quase animalesca de paixão pelo time? Acreditam realmente nisso? Há muito que o que interessa a eles é apenas a grana que chega ao final de cada mês ou mesmo ao final de cada dia ou jogo. E quanto à violência nos estádios, repudiam algo que alguns torcedores ainda tem coragem de defender. O que eu quero dizer é que salvo raras exceções, eles pouco se importam com você. Na verdade eles se importam o que você pode gerar de dinheiro para o time. Só isso e nada mais. Agora se o saudosismo é mais forte que uma visão fria dos fatos, existem vários times de várzea por aí que você pode torcer e lembrar do "tão bom" futebol antigo. Boa sorte.

A realidade é que o futebol é um grande teatro no qual jogadores, técnicos, dirigentes e arbitragem são meros atores do espetáculo. E graças a isso que os clubes possuem a visibilidade nacional e a imagem que tem hoje, podendo, ainda que de forma rudimentar, proporcionar algo melhor a seus fiéis torcedores. Portanto, a teatralização dos estádios não é uma questão de opção. É questão de sobrevivência.

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