Aborto: uma agulhada incômoda na sociedade

Prazer, sou Vinicius Littig, o novo postador do blog. Em minha primeira postagem, planejava discutir lados políticos e a evolução da liderança, mas é um assunto com tanto pano para manga que, por agora, pretendo abordá-lo apenas mais para frente e em parceria, caso continue por aqui. Para hoje, decidi trazer um tema um tanto quanto incômodo para a sociedade moderna, fundada em uma inexorável base religiosa: o aborto. Já aviso que não será uma postagem pequena, então podem preparar um lanche e acomodar-se enquanto leem.

Quando falamos de aborto, logo vêm imagens desagradáveis ao nosso cérebro, como potes de picles em conserva com líquido amniótico e um feto boiando ali dentro, na estante de um escuro porão iluminado apenas por uma pequena fresta em uma das paredes. (Desculpem pelas descrições exageradas, mas não consigo abandonar meu lado descritivo de escritor.) Essa imagem foi incutida por milhares de filmes hollywoodianos e uma sociedade cujo intuito é amedrontar com esse tema, como se fosse o maior dos pecados capitais. Mas um adulto um pouco mais consciente sabe que essa imagem não retrata a realidade. Aliás, algo que não é retratado nos filmes são as inúmeras causas que envolvem o aborto, focando apenas na falta de responsabilidade de dois adolescentes inconsequentes que não podem assumir um filho. (No final da postagem colocarei um link com indicações de filmes que tratam desse tema de forma mais adulta.) Será que sempre é assim? Isso que pretendo colocar em pauta hoje, em uma postagem com mescla de dados científicos e filosofia.


Como se engravida?

Não somos mais crianças, não é mesmo? Ao menos assumo que os leitores daqui não sejam. Assumo que a maioria que acessa esse portal saiba o suficiente de biologia e da vida para saber como acontece uma gravidez. Sendo assim, não preciso ter medo de falar a palavra sexo nesse meio. Ou relação sexual, para aqueles que gostam do termo completo. Tirando casos à parte, como fertilização in vitro, grande parte das gravidezes chegam pelo ato sexual de forma indesejada. Poucas são as pessoas que conseguem controlar, ao longo de sua vida, quando vão engravidar e de quem vão engravidar (apesar desse bom costume estar aumentando nos últimos anos em países mais desenvolvidos). Assumindo que seja sempre uma surpresa, a mulher pode engravidar desde a primeira ovulação até o período da menopausa, desde que haja uma relação sexual nesse meio e, consequentemente, fertilização.

Quando começamos a ter relações sexuais?

Bem, eu não faço a mínima ideia de quando tenha se iniciado a vida sexual de vocês e nem faço questão de saber, mas suponho que tenha sido na adolescência, entre os 14 e os 18 anos, ou até mesmo antes. Comigo não foi diferente. Se eu acertei, não foi um mero chute. Como pode ser visto aqui, a vida sexual costuma ter início ainda antes dos 18 anos, e essa idade vem sendo reduzida cada vez mais de acordo com fatores sociais como a banalização do sexo, mas isso é um assunto a ser abordado em outra postagem. Logo, cada vez mais temos adolescentes entrando na vida sexual. Só que aqueles que já foram adolescentes, ou ainda são, sabem que adolescentes costumam ser desprovidos de intelecto o suficiente para assimilar as consequências de suas atitudes. Então não é de se estranhar que sejam inconsequentes e tenham uma maior chance de arcar com gravidezes indesejadas, tanto pela falta de responsabilidade quanto pela falta de uma educação sexual que deveria ser iniciada no começo da adolescência (cerca dos 12 anos) pelos pais e entidades públicas educacionais.

Duvida? Então dê uma olhada nesses dados sobre gravidez na adolescência. Um pouco assustador, não? Agora, se adolescentes estão despreparados até para terem atos sexuais com responsabilidade, então o que garante que estejam aptos a ter e cuidar de um filho? Bem, não custa parar para pensar por alguns segundos para saber a que estarão submetidos os pais e mães de primeira viagem nessa situação, não é? A carga de responsabilidades aplicada de uma só vez acaba por destruir a vida desses jovens, que precisam desistir de estudos e carreira para arcar com novas vidas (basta pesquisar por alguns segundos no Google sobre notícias ou até mesmo ir a uma escola da rede pública de ensino para constatar isso). Os impactos são de colocar medo em qualquer jovem nessa idade, e até deveriam ser usados de forma didática. Não é de achar estranho que os adolescentes não queiram arcar com toda essa carga, então pensam em fugir disso. Para os homens a situação é um tanto mais fácil, basta abandonar a mulher e fugir para que escape da  pensão alimentícia (algo que gostaria de abordar em uma postagem sobre o feminismo). Mas e para a mulher, que é aquela que vai carregar no ventre essa criança?

Tão logo, chegamos em uns dos primeiros pontos que serão melhor abordados na conclusão da postagem:

a) Os jovens deveriam possuir vida sexual ativa?
b) Os jovens deveriam ser obrigados a arcar com uma gravidez indesejada cujos resultados irão ecoar para sempre em suas vidas?

As duas primeiras questões já estão adotadas. Agora vamos a mais uma: se não há como planejar direito a gravidez... será que a própria relação sexual não pode ser indesejada?

Estupros

Antes de começar a discutir sobre isso, gostaria que o leitor colocasse a mão na consciência e pensasse sobre sua criação. Algum foi criado apenas pela mãe (apenas pelo pai é um caso muito, muito raro)? Se foi, deve saber como é difícil (para não dizer impossível) ter de arcar com a responsabilidade de um filho, ainda mais quando é apenas uma pessoa cuidando. Com duas já é complicado, não é? Mas isso não quer dizer nada: há casos de pais divorciados onde um paga a pensão alimentícia (normalmente o homem) ou até o caso de abandono por parte do homem, como cheguei a citar no tópico anterior. Há também casos onde um dos dois morreu, mas o estado compensa através de auxílios trabalhistas (caso a parte que morreu estivesse empregada), ou ainda existem seguros pessoais de vida. Mas, em ambos os casos, há como buscar direitos na justiça e tentar, com uma pequena ajuda financeira, criar aquela nova vida. Mas e em um caso onde 100% das gravidezes são indesejadas e nem o pai e nem o estado darão ajuda?

Esse ponto é muito, muito complicado, e não há como bater nessa tecla sem cutucar outras janelas sociais. Se você que está lendo é homem, as chances de ter sido abusado sexualmente durante a infância ou vida adulta são menores do que as de uma mulher. E isso não é achismo meu, são dados estatísticos que podem ser conferidos aqui. Retirando uma citação do texto onde isso fica ainda mais evidente:

Segundo Baptista et al. (2008), há evidências de que, quanto maior o número de pessoas no ambiente familiar maior o índice de abusos, e que em  (85%) dos casos as vítimas eram do sexo feminino. Em uma segunda pesquisa Baptista et al. (2008), identificou que  (33,3%) dos casos ocorrem  no ambiente intra - familiar no qual este  se refere ao pai,  e (29,7%) estavam relacionadas  a diferentes  notificações,   quanto  ao ambiente extra – familiar (54,5%) o agressor  era o namorado.

Fora a sensação de desconforto com o abuso sexual, seja ele de conhecidos ou de terceiros, imagine o desconforto que deve ser carregar um filho do agressor. O próprio ato já vai marcar o psicológico da mãe para sempre, o filho vai acabar por destruir sua psique. Tanto que boa parte das mulheres abusadas jamais denunciam o estuprador, algo que contribui para a impunidade nesses casos, algo que já foi citado em uma dúzia de novelas, filmes... Agora pare para pensar como seria a vida de uma mãe que é obrigada a ter um filho que vai cuidar sozinha por conta de um ato sexual indesejado.

Isso levanta mais duas questões:

c) Uma mulher engravidada através de um estupro deve arcar com a responsabilidade de uma gravidez?
d) A criação de um filho nessas condições seria a ideal?

Bem, já falamos sobre gravidez indesejada e ato sexual indesejado. Nesses dois pontos há escolhas pessoais e formas de evitar a fertilização. Agora vamos abordar a fertilização já em andamento: que riscos podem existir?

Má-formação do Feto

Mais um ponto delicado sobre a gravidez é esse: "Ok, já foi fertilizado, não há nada mais o que de ruim pode acontecer. Certo?" ERRADO. A bilogia explica uma diversa de deformidades genéticas que um feto pode vir a ter. Responda com sinceridade: gostaria de ter um filho sabendo que o mesmo será deformado? Acho que ninguém responderia que sim. Agora imagine um caso onde, além de o seu hipotético filho ter alguma deformação não-detectada durante a gravidez, tal deformação nunca possibilitará a ele ter uma vida plena no seio da sociedade e, ainda pior, você não poderá arcar com as despesas que ele vai gerar. Aposto que ninguém gostaria de passar por algo semelhante. E seria ainda pior saber que, durante a gravidez, até mesmo o estresse da mulher poderia acarretar em problemas para o feto. Complicado? Aqui há uma "pequena" lista de problemas que uma criança pode ter.

Isso levanta mais duas questões:

e) Uma criança completamente ou parcialmente deformada pode conviver normalmente em uma sociedade, mesmo que adaptada?
f) Se alguma(s) dessas doenças for(em) hereditária(s), os progenitores devem propagar esse gene deficiente adiante?

Conclusão da Análise

Chegou a hora de analisar as questões levantadas anteriormente e, junto com elas, possíveis soluções para tais casos.

a) Os jovens deveriam possuir vida sexual ativa?
R: Em minha singela opinião, NÃO. Eles não estão preparados para arcarem com os frutos dos atos sexuais, como gravidezes indesejadas e DSTs. Mas, ao mesmo tempo, não há como impedir. Mesmo que sejam criadas diversas leis, não é plausível a existência de uma "patrulha sexual". O que se faz necessário, hoje, é uma maior educação sexual com ênfase em jovens e adolescentes, preferivelmente com dados traumáticos que os mesmos nunca esqueçam.
b) Os jovens deveriam ser obrigados a arcar com uma gravidez indesejada cujos resultados irão ecoar para sempre em suas vidas?
R:
Pessoalmente, acho que SIM. Se estão preparados para o sexo consensual e para a vida adulta, a responsabilidade de arcar com o filho deve ser lógica. O aborto não é a melhor solução para esse caso, já que pode ser considerado uma "saída fácil". Mas apenas se a educação sexual for suficiente. Não dá para pegar caso por caso e retratar como se todos os adolescentes tivessem conhecimento suficiente de seus atos. Caso a gravidez seja a primeira vez de ambos, completamente indesejada e eles não tiveram educação sexual suficiente, não vejo um motivo para não liberar o aborto nesse caso. Além do aborto, deve vir, do estado, a educação necessária para que o caso não se repita e, caso venha a repetir-se, o aborto não será mais uma opção, uma rota de fuga.
c) Uma mulher engravidada através de um estupro deve arcar com a responsabilidade de uma gravidez?
R:
Obviamente que NÃO. Alguém gostaria de assumir uma responsabilidade desse tamanho que não mereceu e que não pediu por? Eu entendo que a vida já faz isso por si só, delegando a nós responsabilidades. Mas essas responsabilidades são para o nosso bem pessoal e nosso convívio social, nada mais. Carregar um bebê indesejado, fruto de um abuso, não dará NADA de bom a umas mulher. Ela está sendo obrigada a arcar com uma vida que nem deveria existir! Então sim, o aborto deve ser mais do que liberado nesse caso.
d) A criação de um filho nessas situações seria a ideal?
R: Nem preciso responder que NÃO, com toda certeza não seria. Sem o auxílio do pai ou até mesmo do estado, essa criança será concebida em um ambiente familiar conturbado e sem a ajuda do pai para seu desenvolvimento. Uma criança nascida nessas situações muito provavelmente será empurrada para um orfanato. E isso implica em outros problemas sociais que prefiro nem mencionar por agora ou posso ser tachado de racista, preconceituoso e afins.
e) Uma criança completamente ou parcialmente deformada pode conviver normalmente em uma sociedade, mesmo que adaptada?
R:
Se fosse uma sociedade ideal e completamente adaptada para toda e qualquer deformação, SIM. Mas como esse não é o caso da atualidade, melhor não. Nossa sociedade mal consegue lidar com a síndrome de down, quem dirá então lidar com problemas genéticos mais graves. Falando seriamente, mal temos rampas nas calçadas para deficientes físicos, mesmo que esses problemas não sejam 100% genéticos. Em questão de acessibilidade, nossa sociedade é pouco avançada. Fora que há problemas genéticos que mesmo a mais avançada sociedade não saberia lidar hoje, como é o caso da anencefalia, que deu um belo pano para manga recentemente.
f) Se alguma(s) dessas doenças for(em) hereditária(s), os progenitores devem propagar esse gene deficiente adiante?
R: Não seria o ideal
. Ou alguém acha que transmitir genes defeituosos adiante é algo bom? Nem os mais fanáticos pregadores da diversidade social iriam concordar com isso. Em Esparta eles tinham um método desumano para tirar a vida de crianças defeituosas, mas eficiente. Logo, tendo a concordar que, sendo um problema genético grave e hereditário, o aborto deve ser mais do que liberado.

A Atual Legislação Brasileira

Hoje, no Brasil, o aborto é um crime, salvo exceções:
- Quando a gravidez implica em risco à vida da mulher; (Lembra-se de filmes que perguntam ao homem se deve priorizar a vida do bebê ou da mãe? E então, qual é o menos descartável para você?)
- Quando é oriundo de um estupro (já discutimos esse ponto);
- E quando o bebê nasce sem cérebro (já falamos sobre problemas genéticos).

As grandes questões hoje que permeiam esse meio são: "O que é vida? Quando começa a vida? Isso é ser ético?" Todos esses questionamentos são levantados, não apenas pelos conservadores religiosos. Agora gostaria de separar dois conceitos diferentes: o ato de abortar e a legalização do aborto. Sou contra o ato na maioria dos casos, mas o que está em pauta é a legalização. Sendo um crime, mesmo com as exceções, é impossível uma mulher conseguir um aborto em clínicas especializadas. Agora pense: se naqueles casos não é crime, por que não há assistência médica eficiente para mulheres nessas situações no país? Logo, uma mulher que se enquadra nessas regras (ou mesmo em outras diversas) e busca um aborto, só consegue por três métodos:

1) Caso seja rica, vai para fora do país e aborta em uma clínica estrangeira especializada.
2) Caso seja de uma classe média ou inferior, pode buscar clínicas clandestinas.
3) Caso seja bem pobre, só com "remédios caseiros".

Posso afirmar que, das três, duas são extremamente perigosas e levam risco à vida da mulher. Logo, SIM, o aborto deve ser legalizado no país e, inclusive, deve ser feita uma vasta revisão na legislação sobre esse tema tão importante para a sociedade moderna.

Banalização do Aborto e Argumentos Pró-Vida

Como tudo que passa a ser legalizado, é necessária também uma intensa fiscalização e regulamentação para que o aborto não seja algo banalizado. Não dá para adotar o aborto como uma fuga de responsabilidade, pura e simplesmente, como já havia citado. Apesar da gravidez ser no corpo da mulher, o corpo ali dentro não é dela: é uma vida completamente diferente.

O maior argumento dos pró-vida é considerar o feto como uma vida à partir do momento da concepção, algo já adotado, inclusive, pela nossa legislação, que é oriunda da década de 40 - traduzindo, completamente defasada. Esse é o primeiro ponto que a revisão deveria começar: a partir de que ponto é uma vida humana completa? Será a partir da fecundação? Vamos ouvir, então, cientistas e tirar as conclusões necessárias. Apesar disso, creio que seja, apenas, na formação do sistema nervoso - algo que já é defendido amplamente pela comunidade científica. Outro ponto é: até onde essa vida é "sagrada" e não pode, de forma alguma, ser retirada? E por que essa ética estende-se apenas aos seres humanos, e não aos animais e plantas em geral? Até que ponto essa ética oriunda de uma religião milenar é necessária para nossa atual civilização, e em que riscos ela implica?

Finalizando, não estou aqui para falar disso. Já é um ponto que vale uma reflexão pessoal e, de preferência, imparcial. No mais, indico filmes mais adultos que podem trazer uma boa reflexão sobre o tema, aqui (com ênfase para os filmes 1, 2, 4 e 10), e uma leitura complementar muito boa, clicando aqui. No mais, espero discussões saudáveis, grandes reflexões pessoais, imparciais e, claro, produtivas o suficiente para dar a você uma nova visão sobre o tema. Para aqueles que chegaram até o final, obrigado imensamente por terem acompanhado essa longa postagem. Para descontrair, fiquem com esse vídeo de George Carlin, um comediante norte-americano, genial e com pesadas críticas sociais.

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