Impressões e opiniões sobre "Privatize Já" - Seção I: Introdução e as vantagens da privatização

Foram R$39,90 muito bem gastos. (Fonte da imagem: acervo do editor)
Boa noite pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar sobre o livro que li durante praticamente um mês (admito, desde 2011 quando li A Máquina que Mudou o Mundo, de Daniel T. Jones et al que eu não me dedicava para ler um livro de mais de 300 páginas): Privatize Já, do economista Rodrigo Constantino, formado pela PUC-RJ e MBA de Finanças pelo IBMEC. Ele é autor de vários outros livros e colunista em diversos veículos de comunicação. Apresentações a parte, pretendo resumir um pouco do que li ao longo deste tempo, bem como comentar algumas partes do mesmo.

Nesta primeira parte, apresentarei um resumo da Introdução e dos sete primeiros capítulos do livro, e ao final comentarei sobre alguns aspectos interessantes que encontrei nos mesmos.

Introdução

Privatize Já começa com uma referência histórica ao reinado do czar Pedro I (que reinou no império Russo de 1682 a 1725), que em uma de suas viagens passou pela cidade de Kazan e viu duas fábricas de tecidos, uma estatal e outra, privada. Esta impressionou o monarca pela limpeza e eficiência, enquanto a estatal a chocou com trabalhadores bêbados e equipamentos quebrados. O livro segue a narrativa falando que o imperador simplesmente doou a fábrica estatal ao empresário, mostrando que a questão das privatizações é algo que está longe de ser considerada uma novidade.

A parte introdutória continua ao falar de como a privatização ganhou uma imagem negativa aqui no Brasil, ao ponto da maioria das pessoas condenarem uma hipotética venda do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal ou mesmo da Petrobras. Segundo o autor, tal imagem ruim se deve por dois fatores: a propaganda política que se faz em relação ao assunto e ao modelo (segundo ele, ruim) adotado pelos governos, sobretudo o adotado pelo PSDB nos anos 90. Segundo o economista carioca, os tucanos não estavam plenamente convictos do que faziam e em boa parte pensaram nas privatizações como forma de levantar caixa. Ou seja, privatizaram mal - e pouco. Além disso, foi citado o fato de que nesse meio-tempo a situação econômica internacional se deteriorou rapidamente, com várias crises internacionais que abalaram o crescimento do país. Tal combinação não ajudou em nada a preservar uma boa imagem das privatizações entre os brasileiros.

Em seguida, Constantino diz que o próprio termo "privatização" acabou virando uma espécie de palavrão no Brasil, sendo usado nas eleições presidenciais para mostrar adversários como se fossem inimigos do Brasil (as disputas Lula vs. Alckmin e Dilma vs. Serra são demonstrações claras disso). Mas basta o período eleitoral passar para que os candidatos vencedores, independente de partidos, se esqueçam das controvérsias de campanha e acabem cedendo justamente às privatizações, principalmente na área de infraestrutura visando os grandes eventos que estão por vir.

Por fim, o autor do livro encerra a parte introdutória afirmando que muitos dos argumentos contra a privatização são falaciosos, o que é reforçado ao longo dos 30 capítulos.

Parte 1 - Por que privatizar é melhor?

Capítulo 1 - Cuido do que é meu

No primeiro capítulo, o autor começa a sua defesa das privatizações ao enfatizar a ideia de que as coisas são melhores cuidadas quando existe o "senso de posse", citando diversos pensadores, tanto os opositores como os simpáticos a essa linha de pensamento. Em seguida, ele defende uma segunda ideia, a de que certas demandas coletivas não precisam (e não tem que) necessariamente depender de boa vontade de iniciativas alheias (públicas ou privadas) para serem resolvidas. Para isso, ele parafraseou Adam Smith, ao dizer que um açougueiro se esforça para fornecer carne a seus clientes não pela questão humanitária de alimentar as pessoas, mas sim pelo retorno financeiro que terá ao vender a carne. Enfim, é o foco no interesse pessoal que no final das contas atende aos interesses coletivos. E ele cita diversos casos no mundo dos negócios que corroboram com essa tese.

O capítulo continua confrontando a lógica existente na iniciativa privada de que se seus produtos e serviços são ruins e dispendiosos, eles tendem à extinção, enquanto na iniciativa pública ocorre justamente o contrário: demanda por mais recursos financeiros. Constantino cita como exemplos disso o caso Bernard Madoff, em que a SEC (a Comissão de Valores Mobiliários norte-americana) praticamente ignorou os sinais de que os fundos de investimento administrados pelo financista eram insustentáveis, enquanto a Aksia, uma empresa de auditoria privada e com um pessoal muito menor que a SEC (70 contra 3000), publicou vários relatórios recomendando o afastamento de seus clientes dos investimentos de Madoff. E o que aconteceu com a SEC? Demandou mais verbas, alegando a necessidade de mais pessoal para melhor fiscalização do setor.

O capítulo encerra com o autor desmistificando a ideia comum de que empresários só focam no curto prazo, enquanto os políticos costumam cuidar dos interesses da nação a longo prazo, sendo que a lógica é justamente a oposta, uma vez que os donos de seus negócios costumam em geral ter interesse em preservá-lo lucrativo ao longo do tempo, pois isso aumenta seu fluxo de caixa e o valor presente de seus ativos. Já os políticos que controlam estatais pensam meramente nas próximas eleições. E a distribuição de cargos nas mesmas, bem como a decisão de investimentos em novos projetos, costumeiramente ocorre com base em princípios de "governabilidade" e não de competência. O autor fecha essa parte citando diversos escândalos de corrupção envolvendo empresas estatais nos últimos quinze anos.

Capítulo 2 - Os monopólios naturais

No segundo capítulo, Constantino começa a citar exemplos de privatização que geram alguma polêmica pelo fato de gerar "monopólios naturais", como o caso do transporte ferroviário e alguns serviços de massa, como eletricidade e telefonia. Para começar, ele citou o caso da malha ferroviária norte-americana, apontada como um "monopólio natural" em muitos casos, porém tal versão vem abaixo ao se usar um conceito mais amplo de competição, em que se não há concorrência dentro do setor, haverá concorrência de outros setores que ofereçam um serviço melhor e mais barato. O autor cita Schumpeter, que diz que a possibilidade de ter novos concorrentes faz com que mesmo um monopolista tenha de agir como se estivesse em um mercado competitivo; e Milton Friedman, que dos três tipos de monopólios (privado desregulado, privado regulado e estatal), ele prefere pelo primeiro, por considerar dos males o menor, uma vez que o dinamismo das mudanças de mercado pelo menos oferece a possibilidade de limitar os estragos causados pelo monopólio. Evidências empíricas disso são ilustradas, como a existência de várias empresas disputando o mercado de eletricidade nos EUA (dentro do mesmo estado), cenário que se repetia no setor de telefonia. Tal cenário foi observado no final do século 19 e início do século 20.

Por fim, ele fala dos riscos de quando a empresa dominante do setor intenciona impedir a entrada de novos entrantes, ao fazer lobby para convencer de que o mercado precisa ser regulado e protegido da entrada de novos concorrentes, alegando "concorrência predatória" e "utilidade pública". Sempre que o governo cedeu a tais pressões, houve piora na qualidade dos serviços prestados aos consumidores.

Capítulo 3 - Maggie abre o caminho

No terceiro capítulo, o autor cita o exemplo mais clássico de quem iniciou a onda privatizações que teria sequência no Brasil nos anos 90. Obviamente, ele fala da ex primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, que assumiu o governo quando seu país enfrentava uma situação econômica bastante ruim para a época: altos índices de inflação e desemprego, déficit público descontrolado, greves promovidas por sindicatos que paravam o país e alta interferência estatal na vida das pessoas.

Neste momento é aberto um parêntese para se explicar a situação econômica do pós-guerra: na época, as ideias do economista britânico Keynes estavam em alta, e ganhariam mais influência nos anos seguintes. Basicamente, a indicação keynesiana era para o governo expandir os gastos em momentos de crise econômica e cortá-los na fase de aceleração, para suavizar as tendências da economia. Acontece que muitos governantes adotaram essa receita pela metade, só lembrando da parte da expansão de gastos quando as coisas vão mal. Resultado: perda de controle inflacionário.

Fechado o parêntese, Thatcher chegaria ao poder com um discurso diferente. Mais livre mercado, as empresas incompetentes seriam deixadas a falência, mais liberdade individual e menos intervencionismo do governo. E claro, mais privatização e menos estatais. Para a "Dama de Ferro", a propriedade pública era um eufemismo para justificar o controle de empresas por políticos e funcionários do governo, que dizem defender os interesses nacionais, mas no fundo usavam e abusavam de seus poderes para desviar recursos ou privilegiar aliados próximos. Ainda de acordo com a visão de Maggie, o poder verdadeiro do povo é repassado quando tais estatais são repassadas à iniciativa privada por meio da pulverização de capital, sempre que possível (cada indivíduo seria dono de uma fatia da empresa).

Sabendo disso, a Dama de Ferro, mesmo com toda a oposição que enfrentaria, iniciou um programa inédito (até então) de privatizações no Reino Unido. Quando deixou o poder, Thatcher reduziu em 60% a presença de empresas estatais na indústria britânica. Uma fatia próxima a um quarto da população detinha ações em empresas privadas e quase 600 mil empregos foram transferidos da iniciativa pública para a privada.

No final dos anos 90, o desemprego britânico era o menor do continente e as estatais, antes dreno de recursos públicos, após a privatização viraram grande fonte de receita ao estado por meio de impostos e as greves que antes paravam o país praticamente cessaram. O modelo de privatização thactherista, considerado pelo autor um sucesso, seria replicado em vários países, inclusive na França e no bloco latino-americano.

Capítulo 4 - Décadence avec élégance

O quarto capítulo inicia com o autor falando de um país europeu onde a mentalidade estatista é muito grande: a França. Desde os tempos de Luís XIV, a quem é atribuída a frase "O Estado sou eu", o país possui um histórico de regimes concentradores de poder e recursos na máquina pública.

Um dos momentos marcantes disso foi a chegada dos socialistas no poder com François Mitterrand em 1981. Nos dois primeiros anos de seu governo, houve um grau de interferência estatal quase sem precedentes: houve um aumento do salário mínimo em 10%, aumento de impostos, redução da jornada de trabalho, quinta semana de férias remuneradas, aposentadoria estipulada para os 60 anos, contratação de 100 mil funcionários públicos e várias outras medidas favoráveis aos trabalhadores já empregados. Além disso, ocorreu a nacionalização de empresas, em grande parte financiado pela impressão de dinheiro. Tal combinação levou o país a uma disparada da inflação, do desemprego e do déficit fiscal.

Então em 1983 ocorre uma "grande virada". Os socialistas acabaram abandonando as políticas expansionistas e acabaram adotando um programa de austeridade, com metas fiscais e monetárias rigorosas, cortes de orçamento, demissões, abertura comercial e financeira e fim do controle de preços. Após o estrago das medidas iniciais, tiveram que mudar radicalmente a direção em prol de mais liberdade.

É claro que na França, um país com diversos grupos organizados que não aceitam perder privilégios e com frequentes greves e protestos, fazer reformas liberais sempre é difícil. Isso explica a redução do escopo de suas mudanças e consequentemente de sua eficácia. Mas de certa forma os governos reformistas conseguiram seguir avante, uma vez que ganhavam força os projetos de integração europeia e para fazer parte do seleto grupo era necessário pôr a casa em ordem. Enfim, o que o governo socialista fez a partir de 1983 já foi o suficiente para alterar a situação econômica francesa, que vinha perdendo muito espaço para seus pares, principalmente a Inglaterra e a Alemanha. Apesar das reformas, os franceses não continuariam "pagando para ver" e em 1986 os socialistas foram derrotados pelos mais liberais, representados por Jacques Chirac.

Como dito no parágrafo anterior, reformas liberais na França são muito difíceis e em geral costumam ser tímidas. Mesmo Chirac seguiu essa tônica, com muita interferência governamental, escolha de grupos, limitação de participação de estrangeiros. Dentro do governo Chirac, a privatização era vista como uma necessidade imediata, não uma vantagem permanente.

As privatizações receberam amplo apoio popular na época (com 41% dos franceses favoráveis e 27% contrários em 1987). Ao todo, 65 estatais foram vendidas por meio da Lei de Privatização, aprovada em 1986. O programa inicial de vendas para a iniciativa privada levantou 50 bilhões de francos aos cofres públicos e foi finalizado em apenas seis meses. Por todos os pontos de vista, tal programa foi um sucesso: o número de acionistas passou de 1,5 milhão para 8 milhões, 10% das ações foram separadas por determinação governamental para os empregados, que teriam direitos a grandes descontos. Um "capitalismo do povo" à francesa, bem mais tímido que o inglês.

Os resultados? A França conseguiu reverter parte do atraso anterior, mas não na mesma velocidade que seus pares. E cabe lembrar que o país não escapou completamente do risco de decadência. Nicolas Sarkozy foi eleito com uma plataforma liberalizante, mas não conseguiu entregar o prometido por conta da resistência de grupos organizados. Com a crise europeia, o país ameaça retomar sua política estatizante. E o retorno de François Hollande demonstrou isso, com sua retórica de taxar ainda mais os ricos, dificultar a vida das empresas, dar benesses estatais aos empregados, reduzir a idade da aposentadoria.

Capítulo 5 - Rússia: quando a privatização dá errado

Constantino, em seu quinto capítulo, resolve falar de um caso de privatização que deu errado: o caso russo. Basicamente ele cita e comenta o livro The Oligarchs, de David Hoffman, que conta a história do surgimento de diversos oligarcas nos negócios russos, logo após o vácuo de poder gerado pela queda da União Soviética.

Nas citações feitas pelo economista, Hoffman fala de como Boris Yeltsin delegou a um grupo de reformistas jovens e radicais a tarefa de enterrar de vez o antigo sistema. Tal tarefa foi executada de forma apressada, o que levou a resultados longe, inclusive, do razoável. E tal pressa era justificada pelo risco de retorno dos comunistas ao poder, ainda fortes e bastante organizados. Mas o fato é que na Rússia ocorreu uma privatização feita às pressas e sem um arcabouço institucional adequado, o que levaria a um capitalismo de estado ideal para o surgimento desses oligarcas, a maioria ligados ao antigo regime soviético.

Entre os nomes que participaram desse período de transição estavam: Yegor Gaidar, que foi primeiro-ministro da Rússia em parte do mandato do presidente Yeltsin; e Anatoly Chubais, que foi vice primeiro-ministro e tomaria diversas medidas radicais, como a completa liberação dos preços (até então controlados, quebra dos monopólios estatais). Mas a crítica a ambos se deve ao fato de não ter arquitetado a existência de instituições-chave para o funcionamento adequado do mercado.

Logo após o fim da União Soviética, não havia propriedade privada de forma bem definida e garantida, nem mesmo órgãos reguladores como a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para a proteção dos direitos básicos de acionistas minoritários. Tal ambiente "sem leis", designado por Chubais de "privatização espontânea", precisou de ser estancado por força de lei em 1992, oferecendo aos trabalhadores e gerentes até 40% das ações das empresas. Porém estes queriam uma fatia ainda maior, 51%. O risco de tudo mudar para nada mudar (como dito no clássico O Gattopardo, de Lampedusa) existia.

Emergencialmente, o grupo então resolveu distribuir de vez a propriedade entre os russos, por meio de vouchers. Chubais agora tinha apoio popular para seu programa de privatização, porém, como a Rússia era um país recém-saído do socialismo, a demanda reprimida era gigantesca. Com um "presentão" desses houve casos de troca desses vouchers por qualquer quantia possível, até mesmo por garrafas de vodca. Tal cenário "selvagem" no modelo russo de privatizações, além de conduzir a formação de diversas oligarquias, também levou à ocorrência de diversas fraudes, levando a perdas de investidores minoritários.

Tal capítulo é encerrado pelo autor citando o colapso econômico que a Rússia entrou em 1998, a ascensão de Vladimir Putin, a derrubada de vários oligarcas que representavam ameaça ao seu poder. E fica o alerta de que sem uma base institucional adequada a prtivatização por si só não necessariamente traz bons resultados.

Capítulo 6 - Até os comunistas privatizam

O economista, no sexto capítulo, resolve falar do caso chinês das privatizações, implantado por Deng Xiaoping a partir de 1978 com a operação de seis empresas piloto em Sichuan, que teriam liberdade para escolher marketing, produção e capacidade para reter parcialmente seus lucros. Ao final de junho de 1980, 6600 empresas industriais tiveram permissão para operar dessa forma. E estas já produziam 45% do valor total de todas as indústrias estatais.

Em 1984, reformas ainda mais radicais foram aprovadas. O planejamento central foi severamente reduzido, com parte do poder decisório sendo transferido às empresas. Em 1996, as estatais, mesmo em maior número e empregando muito mais gente, representavam apenas 28% do valor total produzido no país. Enfim, o pouco de liberdade econômica concedida na China foi o suficiente para revolucionar a economia chinesa.

Em seguida o autor resolve falar do fato de que o modelo econômico chinês ainda apresenta inúmeras imperfeições, como a extrema dependência dos interesses estatais pelo setor financeiro e por decisões questionáveis de investimento na construção civil por parte dos governantes, um programa gigantesco de estímulos financeiros após a crise e o risco de formação de uma bolha imobiliária no gigante asiático.

Por fim, no encerramento o autor elogia as vantagens dessa política de maior abertura econômica da China, suficiente para alçar milhões da miséria para uma vida melhor. Enfim, até os comunistas chineses tiveram que reconhecer a superioridade do capitalismo frente à alternativa do estado como empresário.

Capítulo 7 - A ideia atravessa o Oceano Atlântico

No último capítulo da parte que está sendo resumida hoje, Constantino fala do processo de privatização ocorrido na América Latina nos anos 90. Na primeira página deste capítulo o autor fala de um estudo do Ipea que aponta que as estatais entre 1896 e 1991 foram responsáveis por rombos de 1,5% do PIB. Em valores atuais isso seria um dreno de R$ 70 bi por ano. Na Argentina a situação era ainda pior, com 3,3% da soma das riquezas do país sendo perdidas com tais empresas. Incentivados pela experiência inglesa, os governos latino-americanos resolveram também privatizar.

Porém, de acordo com o economista, nem mesmo as lideranças políticas que executaram tais programas eram muito favoráveis ao conceito. Itamar Franco, por exemplo, era abertamente contrário a tal política e fazia reuniões com Leonel Brizola em que ambos condenavam a venda das estatais. Mas independente disso, as privatizações, que começaram com Collor, seguiram adiante com Itamar e posteriormente com FHC, que resolveu vender as "vacas sagradas": Vale do Rio Doce e Telebras.

Mais adiante, o autor do livro cita o livro Privatization in Latin America, organizado pelo também economista Alberto Chong (formado em Cornell e Harvard e ex-ministro peruano das finanças), que compila diversos estudos sobre as privatizações em sete países da região: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru.

Com base nesta compilação de estudos, Constantino ataca algumas coisas tidas por ele por mitos daqueles que condenam as privatizações. Com tal política, os custos por unidade produzida tiveram queda de 16% enquanto as vendas por empregado subiram 65%. E isso se devia principalmente a maior eficiência das empresas, não a abusos de mercado ou exploração de empregados. Ele também rebate (se baseando em tal compilação) o argumento de que tais ganhos vieram da transferência de renda por parte dos consumidores ou dos trabalhadores. Houve aumento nos salários médios, melhoria nos serviços prestados e os preços cobrados não sofreram acréscimos excessivos. E mesmo a redução de pessoal no estágio inicial foi compensado pelo aumento de riqueza gerado posteriormente. E ainda as taxas de desemprego não se elevaram com as privatizações.

Outra crítica, que ele considera mais legítima, é o uso dos recursos das privatizações ou ainda os esquemas de corrupção dos políticos. Mas ele contra-argumenta dizendo que isso não derruba as vantagens da privatização, mas que reforça a necessidade de maior transparência e regras claras e objetivas em tais programas.

Para encerrar, o autor discorre sobre como o estado tinha uma participação muito grande na economia em diversos países latino-americanos. No Chile, o governo era dono de mais de 400 empresas em 1973, que detinham quase 40% do PIB. Na Argentina a situação era semelhante, chegando ao ponto do governo ter um circo. Idem para o México, que chegava a ter uma casa noturna estatal. Todos esses países, em maior ou menor grau passariam por grandes mudanças econômicas nos anos 80 e 90. O principal destaque positivo foi do Chile, que ironicamente iniciaria o processo de privatização durante o seu regime militar. Tal programa foi desenhado por economistas de Chicago, e acabaria colocando o Chile entre os países mais desenvolvidos da vizinhança.

Já o caso brasileiro, que é o foco do autor do livro, representou um dos maiores programas de privatização nos países em desenvolvimento. Entre 1991 e 2001, 119 empresas saíram das mãos estatais, além do fato de que participações minoritárias em várias empresas foram vendidas. Tais vendas levantaram US$ 70 bi, e quase US$ 20 bi de dívidas foram transferidos. Infelizmente, segundo o autor, o cenário macroeconômico da época e o uso inadequado dos recursos oriundos das privatizações acabaram criando uma imagem negativa da mesma. Além disso, os tucanos não aderiram rapidamente à pulverização de capital para popularizar o programa de privatizações tal como fez Thatcher, o que piorou ainda mais.

Comentários

O livro é interessante em diversos aspectos sobre o assunto, uma vez que vai de encontro à ideia corrente no país de que a privatização é meramente prejudicial e que é melhor que o estado se comporte como empresário em diversos setores. Alguns aspectos citados no livro na introdução e nos sete capítulos iniciais merecem ser comentados:

  • De fato, o momento econômico em que ocorreram as privatizações no Brasil - sobretudo as ocorridas no governo FHC - não ajudaram a dar uma boa imagem a tal modelo. Como o autor, concordo que a forma em que elas ocorreram é discutível;
  • O primeiro capítulo reforça uma ideia que ao menos concordo parcialmente: o que é de "todos" acaba sendo de ninguém. Muitas vezes as pessoas se opõem à ideia de que uma estatal seja privatizada ou mesmo uma rodovia federal ou estadual seja concedida à iniciativa privada, porém (levando em conta o último caso) se a rodovia concedida está ruim, temos a quem reclamar (a princípio, a concessionária e em último caso, o estado, por meio de órgãos regulatórios). Mas quando o próprio estado falha, a quem recorrer?
  • A lógica (ou falta dela) da injeção de mais recursos quando um serviço público é ruim reforça uma ideia que publiquei em um post do dia 03/07 neste blog (confira aqui);
  • No segundo capítulo, apesar das ressalvas que eu faria em relação ao risco da existência de monopólios (o que é ruim para o consumidor de determinados serviços, como apontei em um post do dia 21/06 sobre a questão do transporte coletivo), concordo com a ideia de que um monopólio estatal não ajudaria em nada a resolver tal questão (ouviram, defensores da estatização do transporte?). A propósito, alguém vê vantagem nos Correios monopolizarem a entrega de cartas? Seria pior que uma DHL ou uma UPS fizesse tal serviço?
  • O terceiro capítulo, do ponto de vista de resumir a atuação de Margaret Thatcher sobre o assunto, é bastante interessante. Destaque para o modelo de privatização adotado por ela, que incentivava a pulverização do capital das empresas privadas para a população. Vejo que qualquer plano de privatização (até mesmo o de concessões rodoviárias) deve levar em conta este fator de forma a não só dar uma boa imagem a tal política, como também a tornar os processos decisórios nas organizações envolvidas mais democráticos e transparentes. Afinal, você teria participação nisso;
  • O quarto capítulo segue uma lógica semelhante ao do anterior. Apenas aproveito para dizer que os brasileiros em geral, como os franceses, ainda possuem uma mentalidade muito estatista em diversos aspectos. Muitas das causas defendidas nos recentes protestos apenas reforçam isso;
  • O quinto capítulo segue o mesmo raciocínio dos anteriores. Mas cabe lembrar que alguns dos processos de privatização no Brasil não devem em muita coisa aos ocorridos na Rússia pós-soviética;
  • O sexto capítulo é bastante interessante no sentido de como o pouco de livre mercado que a China ofereceu foi suficiente para alavancar a economia do país. Apenas é uma demonstração de que o gigante asiático ainda não chegou ao seu potencial máximo;
  • Por fim, o último capítulo desta seção é interessante no sentido de comentar sobre os casos latino-americanos das privatizações. Se trouxermos para o Brasil os resultados citados pelo autor das privatizações na América Latina, há margem para alguns questionamentos, como a melhoria da qualidade dos serviços (não que isso não tenha ocorrido, apenas não ocorreu na velocidade esperada, a meu ver) e a questão dos preços. Fora isso, concordo com a opinião do Rodrigo Constantino em relação ao assunto, inclusive com as críticas em relação ao método tucano de privatizações.
Na próxima semana: O Minuto Produtivo dará sequência ao resumo de "Privatize Já", desta vez falando da segunda seção do livro, que fala de como as privatizações foram vantajosas para o Brasil. Aguardem.

Comentários

  1. Parabéns, vc é um jovem que lê, argumenta,articula, logo, tem muito conhecimento e muito ainda prá ler. É de jovens assim que o mundo precisa. EScreve muito bem, atualizado em diversos segmentos, por isso, fala bem, dve ter assuntos interessantes em todo tipo de bate papo. Seus amigos o respeitam e sua carreira será brihante, com muito sucesso, tenha certeza disso. Vc se prepara para todas mudanças, transforma seu dia a dia em novidades, fica por dentro... garante e diz a que veio a esse planeta chamado de concorrências, competições... agradeça aos seus pais que lhe deram uma excelente educação, o encaminharam . Vc tem muito a estudar, ler, conhecer e entender que a competência vem aliada a habilidade, objetivos...Parabéns continue em frente com essa determinação,força de vontade, vc vai muito longe em suas conquistas.Está no caminho certo. Vc sabe disso tudo, nem precisava falar... sabe, professor não pode ver um aluno tão esforçado que logo quer meter o bedelho... elogiar.

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