O "home sweet home" puxa a dívida do brasileiro

(Fonte da imagem: Valor Econômico)
Uma transformação importante está em curso no crédito brasileiro. Se os níveis de endividamento das famílias seguem altos e, em parte, travam o avanço do consumo, o perfil dessas dívidas está mudando gradualmente. Nos últimos meses, foi o crédito imobiliário, e não modalidades de empréstimo para o consumo, a principal causa da expansão dos níveis de endividamento das famílias. Se mantida, essa é uma tendência que garante o crescimento do crédito a pessoa física no país com menor pressão no orçamento mensal, característica vista em economias mais maduras.

Em abril, dado mais recente divulgado pelo Banco Central, o endividamento das famílias, medido pela relação entre a dívida total dos domicílios e a renda acumulada em doze meses, chegou a 44,23%, ante 43,97% em março. Um ano antes, esse percentual estava em 42,57%. Excluindo-se o crédito imobiliário, porém, o endividamento das famílias seria de 30,47%, estável ante o mês anterior e em queda ante os 31,29% registrados em abril do ano passado.

De outubro de 2012 até abril deste ano, o endividamento excluindo o crédito imobiliário vem caindo, à exceção do mês de fevereiro. No mesmo período, agora considerando também os empréstimos habitacionais, o endividamento só caiu em dezembro, registrando elevação em todos os outros meses.

O próprio BC, na edição mais recente do Relatório de Inflação, dedicou um box à mudança de perfil do endividamento brasileiro na última década. "No decorrer do período, em linha com a maior solidez do ambiente macroeconômico, ocorreram recuo relevante nas taxas de juros e migração da demanda para modalidades de menor risco e prazos mais dilatados, como crédito consignado [com desconto em folha de pagamento] e financiamento imobiliário", escreveram técnicos da autoridade. [...]

"Foi um processo de troca de dívidas, com menos famílias endividadas em cheque especial e cartão", afirma Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Global Partners. No acumulado do ano até maio, o saldo das modalidades de crédito rotativas (recursos mais caros e de curto-prazo) subia 2%, avanço inferior ao das linhas de empréstimos não-rotativos (excluindo o crédito imobiliário), que cresciam 3,3%. Sozinha, a carteira de crédito habitacional da pessoa física avançou 13,9% na mesma comparação.

Em um período mais recente, do fim de 2008 até abril de 2013, a representatividade do crédito imobiliário no saldo de operações com pessoas físicas subiu de 10,2% para 25% do estoque de dívidas das famílias, segundo o BC. O consignado foi de 15% para 18% (era 6% no fim de 2003). O crédito para compra de veículos perdeu espaço, de 26,8% para 18,3%. O cheque especial caiu de 3% para 1,9% e o rotativo do cartão, de 4,1% para 3,2%.

Embora essa mudança no portfólio de dívidas seja positiva, há ressalvas a serem feitas. "A maior parte das dívidas das famílias continua concentrada em crédito ao consumo, incluindo o crédito de veículos, ainda que os empréstimos imobiliários tenham ganho espaço", afirma Tatiana Pinheiro, economista do Santander.

Para ela, a concentração em modalidades de curto prazo do crédito prejudica a previsibilidade de ciclos de inadimplência. "A concessão de crédito imobiliários é acompanhada de mais informações do tomador", afirma, o que facilitaria projeções das reações dos tomadores a cenários econômicos mais adversos.

O peso mensal das dívidas financeiras continua em níveis historicamente altos. Em abril, as famílias destinaram 21,54% do ganho mensal ao pagamento de compromissos financeiros, ante 21,61% no mês anterior. Um ano antes, o percentual era de 22,77%. É uma redução sim, mas de 2005, quando começa a série, até maio de 2011, o indicador não havia registrado valores acima de 20%.

Nos Estados Unidos, para fins de comparação, uma medida semelhante de comprometimento da renda com hipotecas e crédito de consumo registrou 10,49% no primeiro trimestre de 2013.

A desaceleração no crescimento real da renda das famílias também deve pressionar mais a parcela dos rendimentos dedicada a pagar dívidas, afirma Wermeson França, economista da LCA Consultores. Ele também diz que a mudança da composição do endividamento para modalidades de menor risco reduz a pressão de um ciclo de aperto monetário sobre o crédito. "Modalidades de mais risco refletem com mais força a alta da Selic." [...]

Para Eduardo Velho, a combinação entre inflação pressionando a renda, ganhos salariais menores e perspectiva de uma piora nos dados de emprego trazem um cenário propício não só ao aumento da inadimplência nos bancos como também à maior pressão das dívidas nos orçamentos das famílias. A troca de dívidas das famílias, porém, ajuda a diminuir esse impacto, na medida em que libera espaço no orçamento - que acaba sendo ocupado pela inflação, diz. [...]


NOTA: A notícia é um pequeno alívio e pode até segurar a onda dos mais "catastrofistas" em relação ao assunto, mas o alerta em relação ao percentual da renda comprometida com compromissos continua, conforme o post neste mesmo blog do dia 04/06. Principalmente se pensarmos que como dito pela economista do Santander Tatiana Pinheiro a maior parte das dívidas ainda são para a aquisição de bens de consumo, que costumam exigir juros maiores.

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