Bancos, sozinho, não "quebram" pessoas. Governos ajudam na bancarrota. E as próprias pessoas também

Imagem inocente e até comovente, mas apenas prova que alguns seres humanos não são capazes de tomar decisões. É isso mesmo, produção? (Fonte da imagem: Divulgação/Facebook)
Boa noite pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar sobre mais uma das tergiversações que se fazem para justificar o injustificável: o fato de que atos de vandalismo (ou vamos chamar as coisas pelo seu devido nome: terrorismo) em bancos é algo aceitável uma vez que os bancos acabam "quebrando" financeiramente várias pessoas. Bem, sobre os atos terroristas em si, eles não são justificáveis, e acredito que o post do dia 16/06 seja mais que suficiente para nortear a minha posição sobre o assunto. Enfim, assim como os atos de truculência policial não são justificáveis (apesar de que em certos casos, como o de saques a lojas e atentados a prédios públicos e privados, vejo que as forças de segurança deveriam ser ainda mais rigorosas em seu agir), atos de quebra-quebra também não são justificáveis. E antes que alguém venha com aquele clichê "não se faz um omelete sem quebrar os ovos", vale lembrar que apenas quebrando ovos você estará fazendo nada mais nada menos além de...Sujeira. Simples e óbvio.

A questão é que a afirmação de que "bancos quebram pessoas" não é verdadeira. Pelo menos não totalmente. E não, não estou delirando ou estou afim de fazer o papel de "advogado do capiroto". Muito menos de tirar a culpa do sistema financeiro em relação a situação dos usuários do mesmo, até por que tal sistema tem sim parcela de culpa. A questão é que não se deve apontar apenas um culpado nesta história toda. Os bancos podem e tem sim responsabilidade em relação à situação financeira da população. Mas os governos, sobretudo o federal, tem também suas "digitais" na "cena do crime". E queiram ou não, muitos usuários do "sistema financeiro vândalo" também tem sua parcela de culpa na dificuldade financeira que estão passando. Enfim, vamos a uma tentativa de identificação das "digitais" de cada um dos "suspeitos".

"Mas os bancos brasileiros são os mais lucrativos, blá, blá, blá...". Ora, você não gostaria de ser o melhor do grupo não?

O principal "argumento" para que as pessoas resolvam crucificar os bancos é que eles "são os mais lucrativos do mundo", e devido a isso eles acabam criando dificuldades financeiras a seus usuários. E tal afirmação, sozinha, simplesmente não faz sentido.

Calma, explico. Em primeiro lugar temos que entender que bancos são empresas e como qualquer empresa, sua meta é o...Lucro (quem já leu o livro A Meta, de Eliyahu M. Goldratt, vai entender o que eu disse). Todas as ações de uma empresa, inclusive as de responsabilidade social e ambiental, giram em torno disso. E por si só não consigo enxergar qualquer objeção aparente. A propósito, se sua empresa fosse a mais lucrativa do ramo de atuação ou do local, você reclamaria? Ou ainda, se você fosse o empregado mais bem remunerado de seu setor, você se sentiria moralmente inferior (talvez pelo fato de que tem pessoas que ganharão menos que você por causa disso)? Não acredito que muitos responderiam positivamente a esta pergunta.

E vale lembrar que a questão do lucro não deve ser pensada apenas pela ótica da "exploração pura e simples do trabalhador" (não entrarei nesse mérito) e da "exploração dos clientes". Se os produtos e serviços oferecidos ao cliente de qualquer empresa são melhores em relação a seus concorrentes e/ou se o usuário vê que pela comodidade ou mesmo pelo retorno futuro prefere um serviço de uma empresa X a uma Y, ainda que pague mais caro, não há nada de errado nisso. Enfim, o que quero dizer é que o preço (e em última instância o lucro) justo é meramente aquilo que o cliente está disposto a pagar. Nada além disso.

Isso significa que os bancos são empresas sérias, justas, honestas e responsáveis a todo o momento e incapazes de prejudicar seus clientes? Longe disso, até porque como qualquer empresa ou organização, bancos são geridos e operacionalizados por seres humanos, falíveis e em alguns momentos de índole ou caráter duvidoso. Mas nada justifica sair por aí falando que "bancos quebram pessoas". E sinceramente? Não precisaria de dar essa volta toda para explicar este tópico. Até porque se pensarmos em um princípio lógico se eu cobro algo a um valor de tal forma que essa pessoa não me pague no futuro, em último caso eu acabaria falindo. Ou seja: bancos NÃO podem quebrar pessoas, até porque se fizer isso eles também quebram! Por falar disso, alguém se lembra da crise de 2008 nos EUA?

O spread bancário...Um dos vilões da história

Como dito no parágrafo anterior, quando se fala em lucro bancário a primeira imagem que vem à cabeça de juros abusivos sendo cobrados de seus clientes, bem como um sem-número de tarifas e cobranças indevidas. Não estou dizendo que não seja isso, até porque como disse no último parágrafo, assim como qualquer empresa um banco é uma organização composta de seres humanos, com todas suas falhas (ocasionais ou crônicas, infelizmente), bem como a questão do preço (e consequentemente do lucro) dos produtos e serviços bancários também se deve à percepção de valor por parte do cliente, como para qualquer produto ou serviço de qualquer outra empresa ou instituição.

Mas tomemos o caso dos juros, que muitas vezes são o principal alvo de críticas dos usuários dos bancos. Como alguns já devem saber, o spread bancário, que é basicamente a diferença entre a taxa de juros de quem capta dinheiro dos bancos e a taxa de quem aplica lá. E como alguns também já sabem, nosso spread é um dos maiores do mundo e que basicamente um terço dele é lucro. Segue abaixo dois gráficos ilustrando a variação de tal item nos últimos anos.

(Fonte: Banco Central do Brasil)

(Fonte: Banco Central do Brasil)

"Ah, tá vendo, os bancos lucram em cima da população, mimimi...". Calma, não é tão simples assim, como afirmei antes. Existem outras componentes que influenciam no spread bancário, como mostra a tabela abaixo. Veja:

(Fonte: Banco Central do Brasil)
Com base nesta tabela, é possível fazer algumas ponderações:
  • Até 2008 (ano de início da grande crise econômica) houve uma tendência de queda da proporção dos custos administrativos, sendo que isso se acentuou entre 2007-08. Depois disso, tais custos subiram em 2009, mas voltaram a cair em 2010;
  • A proporção para as provisões de inadimplência teve oscilação periódica ao longo do período. É possível afirmar com razoável precisão que tal proporção no spread gira em torno de 28%;
  • A parcela correspondente ao depósito compulsório (recolhimento obrigatório sobre os depósitos bancários feitos no Banco Central) foi reduzida nos últimos anos. A necessidade de ampliação do crédito (especialmente para o consumo, como mostrado neste post do dia 04/06) acabou influenciando esse processo;
  • Os impostos diretos passaram por uma tendência de alta em sua participação no período registrado na tabela acima. Em 2009 tal tendência foi freada, mas em 2010 foi retomada;
  • Por fim, a margem líquida bancos (a "famigerada") também passou por oscilações ao longo do período. É possível afirmar de forma razoavelmente precisa que essa margem gira em torno de 31%.
E o que podemos dizer disso? Uma é que a margem de lucro dos bancos praticamente continuou a mesma ao longo do período, próximo a um terço da composição do spread bancário. Portanto não dá para afirmar que os bancos estão lucrando cada vez mais, não em termos relativos e se levarmos em conta apenas isso. Outra coisa que dá para visualizar bem é que a "folga" dada pela redução dos custos administrativos dos bancos foi parcialmente tomada pelo governo (por meio dos impostos maiores). Sim, estava demorando para aparecer as "digitais" do governo nas "cenas do crime"...Isso sem contar que apesar da fatia correspondente ao depósito compulsório ao BC ter reduzido na composição do spread, a parcela que os bancos são obrigados a colocar no "banco dos bancos" ainda é uma das maiores do mundo (e no passado era ainda maior, acreditem).

Enfim, os bancos podem reduzir sua margem de lucro? Podem. Mas isso passa por medidas que visem a entrada de novos players no setor (lembrando que com a recente crise o que ocorreu foi justamente o contrário, fusões que tornaram a rede bancária ainda mais concentrada) e que facilitem os usuários a escolher o banco mais vantajoso (a portabilidade bancária foi uma medida neste caminho). Mas o fato é que o governo também precisa fazer sua parte ao reduzir os impostos relacionados às atividades do setor financeiro. Vejo isso como um melhor caminho para a redução dos "famigerados" juros ao cliente final.

Ei, você! Também é culpado...

Bem, após esses dois tópicos, conseguimos identificar as "marcas" dos bancos e do governo na "cena do crime". Acontece que o banco A não bota uma arma em sua cabeça para você ter uma conta lá em vez de tê-la no banco B. Muito menos usa a mesma estratégia para que você tome um empréstimo, use o limite do cheque especial ou deva até a alma no cartão de crédito. O que eu quero dizer com isso? Sim, se você está quebrado financeiramente, saiba que existe uma responsabilidade sua.

"Ah, mas os juros dos bancos são altos e por isso não consegui pagar...". Acontece que ao assinar o seu contrato de financiamento, do cartão de crédito ou ainda para criar uma conta, querendo ou não, você deu a entender que sabe de todas as taxas, juros e riscos que aquela instituição que você firmou seu compromisso. E que as considera razoáveis para suas condições financeiras. Cabe a você analisar se a obrigação financeira que você está disposto(a) a arcar cabe em seu orçamento. E não, nem cheque especial muito menos cartão de crédito tem a utilidade de servirem de overboosting de renda.

O que eu quero dizer é que muitos problemas financeiros e a questão do endividamento poderiam ser evitados se pura e simplesmente as pessoas vivessem dentro de seus orçamentos, deixando para fazer financiamentos apenas para itens realmente importantes (casa própria e automóvel, por exemplo). Quer trocar um eletrodoméstico, eletroeletrônico ou ainda trocar os móveis? Junte dinheiro para comprar à vista ou se parcelar, faça isso em um período curto. São pequenas lições de educação financeira (sim, isso é muito precário por aqui e os bancos justamente por isso fazem a festa) que podem salvar a sua pele no futuro. Aliás, faria muito mais sentido colocar educação financeira no currículo escolar do que certas disciplinas que beiram um convite à doutrinação (não pretendo entrar no mérito do assunto agora, em outra postagem comento isso).

Encerrando

Bancos que querem de toda forma lucrar, governo que não abre mão de sua "boquinha" (isso sem contar as políticas de crédito que tem objetivos apenas de curto prazo, entenda isso por eleições) e pessoas que não se importam em assumir compromissos que superem sua capacidade de honra são a combinação perfeita para que esses últimos entrem em dificuldade financeira. Não existem mocinhos neste "jogo". Mas o que quero dizer é que o fluxo não ocorre se você, que usa os serviços bancários, não consentir. Sim, diferente da impressão que muitos dão de que as pessoas são incapazes de decidirem, inclusive de usarem mal esse poder de decisão (o que justifica teorias de "socialização da culpa", a meu ver bizarras), existe a responsabilidade individual. Portanto não tente usar os bancos nem mesmo o governo, por piores que sejam, para transferir um erro que de certa forma é seu.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva