Crescimento aquém do esperado frustra expectativa em relação aos BRIC's

Como disse Rodrigo Constantino, se o Brasil fosse o Cristo Redentor decolando (capa da Economist à esquerda), hoje estaria embicando na Baía de Guanabara. (Fonte da imagem: Istoé Dinheiro)
Em 2009, a revista britânica The Economist mostrou um Brasil decolando na forma de Cristo Redentor. Quatro anos depois, destacou o País, juntamente com seus parceiros de Bric´s, afundando na lama. Essa é a síntese da situação vivida pelo grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China que já estiveram no auge e no alvo de investidores, mas agora amargam criticas e questionamentos sobre a sustentabilidade de seus respectivos crescimentos. 

Olhando superficialmente com base apenas no crescimento econômico, a situação do Brasil é preocupante. Dentre os quatro países membros do Bric's, o PIB brasileiro foi o menor em 2012 chegando a 0,9%. Na liderança esteve a China com 7,8%, seguida pela Índia com 5% e Rússia com 3,4%. O Brasil também perdeu para o vizinho México que cresceu 3,9%. 

André Loes, economista-chefe do HSBC para a América Latina, afirma à DINHEIRO que a expectativa foi alta em relação ao crescimento dos países do grupo, mas nem por isso o Brasil carrega algum tipo de ônus por pertencer ao Bric´s. Pelo contrário, estar nele ajudou o País a aumentar sua captação de investimentos. Loes também fala sobre os pontos em comum e as diferenças entre as quatro economias.

DINHEIRO - A lua de mel com os Bric’s acabou?

André Loes – A sigla expressou a movimentação de nações que representavam opções de investimento. Era uma ideia de alguns países que cresceriam melhor ou pior em um período de trinta anos. Isso acabou chamando a atenção para o potencial de desenvolvimento dessas nações que melhoraram do ponto de vista institucional e econômico.

O desapontamento atual com os Bric´s está no fato de eles não crescerem da forma esperada? 

O equívoco foi imaginar que eles eram iguais. Esses países possuem posicionamentos muito diferentes. Nunca foram parecidos. As quatro economias até apresentaram crescimento forte depois do superendividamento. Isso chamou muita atenção. Naturalmente, depois de um tempo, o que está acontecendo é o esgotamento de algumas formas de crescimento. É natural que agora esses países tenham um desempenho mais baixo.

O Brasil sofreu algum ônus por fazer parte do grupo?

Não há ônus nenhum. Dentro do grupo, a Rússia também teve crescimento ruim. O fato de compor os Bric´s só ajuda o Brasil. O País não cresceu tanto quanto os outros, mas estar entre eles chama a atenção e aumenta as chances de atrair investimentos. 

Com qual integrante do grupo o Brasil mais se igualaria?

Acho que um tema comum entre Brasil e Índia é o problema de oferta e demanda. Temos gargalo tanto no Brasil quanto na Índia. Claramente, ambas precisam de uma produção mais eficiente e mais competitiva. No caso do Brasil, isso é particularmente importante. O País ainda sofre com o sistema tributário e a legislação trabalhista. Sem muito custo político, o que poderia ser feito era uma livre negociação entre patrões e empregados. A burocracia trabalhista no Brasil ainda gera custos enormes. 

O que ainda atrapalha o Brasil do ponto de vista internacional?

Precisamos desenvolver relações comerciais com o mundo inteiro. Temos acordo com o Mercosul. Com isso, o Brasil perdeu o bonde de se inserir nas chamadas cadeias de especialização mundial. Os governos têm suas agendas e formas diferentes de ver as coisas. O Brasil tem que perseguir isso fortemente [abrir o mercado]. É uma das razões pelas quais não somos tão competitivos. Muitos setores precisam se reinventar para ser competitivo no atual cenário mundial. 

Qual seria a solução?

Poderia fazer um programa de treinamento de mão de obra. Poderia reconverter vários empregos que estão sendo perdidos com um pouco de criatividade. Vários países do mundo estão fazendo isso. O governo pode contar com a ajuda de escolas técnicas e atenuar esses efeitos iniciais.

Muito tem se falado da disputa entre o Brasil e o México. Eles são mesmo concorrentes?

A economia mexicana é muito aberta e o país importa muitos produtos. Os dois países são muito diferentes e não são concorrentes em vários aspectos. O Brasil tem uma vantagem comparativa em commodities. E a grande plataforma manufatureira da região é o México, que é um grande competidor no recebimento de capitais de investimento direto.


NOTA: Algumas ponderações a respeito da matéria (bem como a entrevista da Istoé Dinheiro com o André Loes):
  1. De fato, o crescimento abaixo dos Bric's , sobretudo o do Brasil, se deve a um modelo de crescimento esgotado, com ampla participação do estado na economia (coincidência ou não, todos os países tem a segunda pior categoria no índice de liberdade econômica, medido pela The Heritage Foundation - clique aqui). A questão é que o desempenho do Brasil, mesmo comparado aos demais países da panelinha do bloco, é incrivelmente ruim (a Rússia, que não teve um desempenho espetacular, conseguiu ter uma taxa de crescimento superior a brasileira mais de quatro vezes). E os motivos foram explicados a exaustão neste blog (como mostrado aqui), caindo como uma luva na explicação de Loes;
  2. Não entendi a explicação de Loes quanto à vantagem do Brasil de estar nos Bric's, mesmo com o cenário não tão promissor para os quatro países. Vale lembrar que o pior crescimento da economia brasileira coincidiu com um crescimento mais fraco da economia chinesa, que faz parte deste grupo e ainda é nossa maior parceira comercial (ou seja, é razoável dizer que uma parcela significativa do crescimento de nosso PIB se deve ao bom desempenho do homólogo chinês);
  3. A ideia de Loes só reforça minha tese de que o Mercosul demonstra ser um bloco inútil (e isso faz tempo), servindo apenas para "panelinhas" ideológicas (como mostrado em um post neste blog, do dia 30/06/2012). Inclusive o Brasil chegou a sinalizar um acordo individual com os países da União Europeia justamente porque o acordo entre o bloco sul-americano e o europeu estava muito atrasado.
  4. Apesar de eu não concordar em alguns pontos com a fala de Loes (vide item 2), o texto reforça uma ideia bem clara: perdemos o "bonde" e mesmo se tomarmos as decisões corretas a partir de agora, iremos amargar alguns anos de "PIBinho", uma vez que as medidas tomadas tem efeitos somente a médio e longo prazo.

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