Emergentes em crise?

(Fonte da imagem: AFP/BBC Brasil)
Boa tarde pessoal. Pelo jeito vocês perceberam que nos últimos dias me ausentei deste blog (como avisado na página no Facebook no dia 25/08), devido à agenda de compromissos acadêmicos desta semana (ontem apresentei um trabalho em grupo e tenho prova amanhã e quinta). No último post, fiz um comentário sobre uma entrevista da Istoé Dinheiro ao economista-chefe do HSBC, André Loes, que comentou sobre o desempenho abaixo do esperado dos Bric's (Brasil, Rússia, Índia e China). Hoje compartilharei com vocês uma matéria da BBC Brasil falando sobre os rumos econômicos dos países emergentes. Segue abaixo o texto. Volto para comentar.

"Quem observa as movimentações do mercado financeiro nos países emergentes neste mês de agosto pode ficar com a impressão de que o mundo voltou algumas décadas no tempo – para uma época em que Ásia e América Latina eram apenas vistos como lugares de ganhos rápidos e altos riscos.

As regiões que na última década conseguiram registrar crescimento econômico em percentuais acima do mundo desenvolvido sofreram neste mês fortes oscilações nos mercados financeiros.

As moedas da Índia, Indonésia e Tailândia desabaram na comparação com o dólar, atingindo o menor nível desde 2009. Com exceção da China, as bolsas de valores asiáticas perderam em poucas semanas quase todos os ganhos do ano.

No Brasil, as autoridades monetárias anunciaram um plano multibilionário para conter a queda do real diante dólar, que já atingiu o patamar mais baixo dos últimos cinco anos.

O "mês do desgosto" fez com que muitos economistas e publicações especializadas passassem a se debruçar sobre uma questão: o mundo emergente está rumando para uma crise? Ou ainda: com que força essa turbulência financeira vai chegar à economia real?

Descolamento 'às avessas'

Em 2008, muitos economistas debatiam a tese do "descolamento" – a ideia de que o mundo emergente estava imune à grave crise que começava a atingir os países desenvolvidos. Com o tempo, economias como China e Brasil também desaceleraram o seu ritmo, e a tese perdeu força.

No entanto, a ideia voltou à discussão no último mês, mas agora com notícias de recuperação econômica na Europa e nos Estados Unidos, e turbulências nos mercados emergentes. [...]

"Você tem dificuldades de achar alguma economia emergente que está com bom desempenho. Todos esses países estão com desempenho abaixo do potencial. Imagino que isso é uma espécie de 'descolamento às avessas', mas temos que esperar para ver o quão sustentável essas recuperações serão e o que acontecerá nos mercados emergentes. Mas certamente houve um ajuste nas expectativas."

Tsunami recuando

Ironicamente, é justamente a recuperação nos países desenvolvidos que provoca a instabilidade no mundo emergente neste momento.

No ano passado, o Banco Central americano havia anunciado o maior programa de estímulo financeiro da sua história, prometendo mantê-lo até que o índice de desemprego do país caísse. O programa de "afrouxamento quantitativo" (QE3), como é conhecido, inundou o mundo emergente com dólares, provocando uma queda na cotação das moedas nacionais.

Na época, houve protestos entre os emergentes contra os efeitos dessa política, que afetou a moeda, os custos e a balança comercial de vários países. As autoridades brasileiras chegaram a acusar uma "guerra cambial" e um "tsunami financeiro". Apesar dos protestos, muitas economias conseguiram se ajustar e continuar crescendo.

Agora que a economia americana parece estar se recuperando, o programa de estímulo será encerrado. A grande dúvida é sobre quando isso vai acontecer. Especula-se que o QE3 pode terminar em setembro, em dezembro ou talvez só no próximo ano.

O mero anúncio de que haverá uma mudança – sem qualquer alteração ainda na política monetária americana – já provocou toda essa turbulência recente nos países emergentes. [...]

Com a onda do "tsunami financeiro" recuando de volta para os Estados Unidos, o rastro deixado nos países emergentes é de moedas nacionais desvalorizadas, menos investimento externo, menos capital nas bolsas de valores, custos de importação mais altos e possível inflação.

Longo prazo

Mas nem todos veem com pessimismo esse novo momento.

Um editorial do jornal britânico Financial Times afirma que "as transformações econômicas nos países emergentes [nas últimas décadas] são profundas demais para que possam ser desfeitas por uma mera tempestade nos mercados". O jornal destaca que os países aprenderam as lições de crises passadas, como a asiática dos anos 1990, e acumularam reservas para lidar com momentos de grande saída de capitais.

Há quem veja na crise até mesmo uma oportunidade.

Markus Jaeger, do Deutsche Bank, diz que os emergentes podem ter perdas no curto prazo com a atual volatilidade, mas ganhos no longo prazo.

"Existe um perde-e-ganha. Por um lado, as condições financeiras ficarão mais apertadas nos mercados emergentes. Mas por outro lado, isso estará acontecendo em um contexto de crescimento mais vigoroso e mais sustentável nos Estados Unidos", explica Jaeger.

"No curto prazo, provavelmente é negativo, com toda essa insegurança em relação à moeda do Brasil e da Índia, e com todas as potenciais intervenções e um potencial aumento nas taxas de juros. No longo prazo, o crescimento econômico dos Estados Unidos deve dar uma contribuição mais forte e positiva ao crescimento nesses países." [...]

América Latina

Ele acredita que o México é o país que pode mais se beneficiar, no longo prazo, com a recuperação americana, dadas as relações próximas entre as duas economias. Mas o Brasil também pode ter um impulso.

"Muito do que acontece na América Latina depende de México e Brasil, que respondem por 60% da economia da região."

Em tese, a desvalorização do real fortalece os exportadores brasileiros, já beneficiados com a recuperação dos Estados Unidos. Mas há riscos embutidos.

"Uma desvalorização da moeda é bem-vinda até uma certa medida pelos exportadores, mas um aumento muito brusco prejudica a inflação", diz Wood.

"Na visão da EIU, os países emergentes estão passando por um grande teste, mas ainda há muitas oportunidades. As economias da América Latina provavelmente conseguirão superar esses desafios."

O analista do Deutsche Bank ressalta que a instabilidade atual mostrou que o mundo de hoje é muito diferente do de dez anos atrás, e que os emergentes estão mais resistentes aos choques que vêm de fora.

"Olhando para os mercados emergentes hoje, é difícil achar uma economia que esteja vulnerável do ponto de vista sistêmico à saída de capitais. No final dos anos 1990, ou até mesmo em 2002 no Brasil, estes choques geralmente derrubavam as economias, desencadeando crises financeiras e econômicas", diz Jaeger.

"A crise de 2008 mostrou que esses países conseguem resistir até mesmo a choques enormes. Nos últimos cinco anos, isso não mudou. Os países conseguem navegar pelos choques, deixando suas moedas se desvalorizar, e depois disso a vida segue.""

Voltei...

De fato, a matéria da BBC Brasil corrobora com as últimas impressões que se tem com o mercado financeiro (e que é a minha também): a de que o "pêndulo" da economia mundial, antes do lado dos países emergentes, agora começa a mudar de lado, indo no sentido dos países desenvolvidos. Simples assim, óbvio assim. Seria muita ingenuidade pensar que com a crise econômica em 2008 passaríamos a "dar lição" de tudo, inclusive de condução de política econômica, para EUA, zona do euro, Japão e demais países desenvolvidos. Apesar disso, também não acredito que a economia mundial volte a exatamente ao patamar anterior à crise, até porque as economias emergentes, em maior ou menor grau, conseguiram executar transformações permanentes (o editorial do Financial Times citado na matéria da BBC afirma isso).

Sobre esse mesmo editorial, tenho dúvidas sobre o nível de aprendizado que os países emergentes em relação às crises, sobretudo o do Brasil. Vale lembrar que mesmo com grandes reservas (parte delas foram leiloadas) o valor da moeda americana subiu em torno de 20% desde o início do ano. E sem contar que devido aos protestos de junho, algumas tarifas, como pedágios e passagens de ônibus, tiveram seus reajustes revogados ou seus valores estão congelados (alguém se lembra do congelamento de preços no final dos anos 80?). Intenção boa, solução errada, para variar. E lembrando que mesmo assim a inflação ronda perigosamente o teto da meta.

Cotação do dólar entre janeiro e agosto de 2013. (Fonte: UOL Economia)
Sobre os efeitos que uma escalada na cotação do dólar teria no dia-a-dia, principalmente na inflação, não é preciso ter um Nobel de Economia para pensar na dificuldade que Guido Mantega e Alexandre Tombini vão ter para debelar a perda de valor do real diante desta situação. Vale lembrar que em 2011, mesmo com a moeda americana mais barata, a inflação fechou no teto da meta. Em 2012, apesar da moeda ter ficado mais cara em relação ao ano anterior, outros fatores como as desonerações e um arrefecimento da economia (apesar de que nem sempre a relação entre crescimento do PIB e inflação funciona de forma perfeita) ajudaram a inflação a cair, embora continuou acima do centro da meta.

Cotação do dólar entre janeiro de 2011 e agosto de 2013 (Fonte: UOL Economia)
A questão é que com o dólar chegando a valores inéditos em cinco anos e com o fato de diversos insumos utilizados na fabricação de alguns alimentos essenciais (como o pão francês, que utiliza em boa parte trigo argentino) e bens de consumo (principalmente eletroeletrônicos e produtos de informática) serem importados, uma alta nos preços será praticamente inevitável. Difícil imaginar como o câmbio não contagiará a inflação até o final deste ano.

Sobre os dois últimos parágrafos do texto, vale lembrar que a resistência ao choque gerado pela crise se deve ao fato de haver um período de tranquilidade econômica entre 2003 e 2007, o que permitiu uma razoável acumulação de capitais nas economias emergentes ao longo do período. Resta saber se, ao menos por aqui o cobertor de dólares que ainda temos será grosso e comprido o suficiente...

Pelo menos uma coisa eu concordo plenamente com a opinião de Jaeger: uma hora nossa situação econômica vai melhorar. A questão é que antes disso, ela vai piorar. Quanto?

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