Vácuo de liderança

Este é o cara que, em termos de pacificação, conseguiu colocar um Nobel da Paz no bolso. Merece ou não merece ser de novo a "Pessoa do Ano"? (Fonte da imagem: Time)
"Sei que alguns vão discordar, mas acredito que essa é uma semana histórica. É a semana em que os EUA deixam de ser a superpotência do planeta. Ainda temos o poderio militar, mas ninguém no mundo nos leva mais a sério. Acabou." (Glenn Beck)

Bom dia pessoal. Hoje eu poderia utilizar este blog para comentar sobre os doze anos dos ataques terroristas de 11/9 (o maior já ocorrido em solo norte-americano), poderia falar sobre as teorias conspiratórias que cercam os atentados, poderia falar ainda do antiamericanismo que alguns demonstram nessa data, mas será diferente. Falarei sobre a semana (que por coincidência é a semana em que a tragédia nas Torres Gêmeas, Pentágono e Pensilvânia faz aniversário) em que Obama conseguiu fazer com que os EUA deixassem de ser levados a sério em uma decisão internacional importante.

Provavelmente vocês já devem estar imaginando sobre o que eu irei falar. E sim, é exatamente isso que vocês estão pensando: a guerra civil na Síria, em que os EUA, sob o governo de Barack Obama, planejavam intervir militarmente após um ataque químico supostamente deflagrado pelo regime de Bashar Al-Assad. Inicialmente o democrata tentou, sem muito sucesso, reunir aliados para a empreitada. Diante disso, resolveu entregar a decisão nas mãos do Congresso (ainda que Kerry tenha dito que poderia fazer o ataque sem esse aval). Qualquer pessoa que tenha acompanhado o noticiário nos últimos dias sabe que o clima para uma intervenção militar norte-americana na Síria não é nada favorável, dentro e fora dos EUA: desde a opinião pública contrária a tal ação até mesmo as dúvidas colocadas sobre a real autoria dos ataques químicos (até agora, Obama não conseguiu convencer muito menos provar que foi o regime de Assad que ordenou tal ato). Mesmo diante de tal situação, o presidente da nação mais poderosa do planeta insistia na ideia de intervir e ajudar os rebeldes (que em última instância estão ligados a...Pasmem, Al-Qaeda).

Neste momento abro um parêntese: em situações de crise, seja política, econômica ou em outros aspectos, é natural que nós pensemos que as lideranças do mundo ocidental, seja o presidente dos EUA ou os presidentes ou primeiros-ministros dos países europeus, sejam as melhores (ou pelo menos as mais sensatas) para se buscar mediação ou mesmo intervenção. É claro que eles podem errar (e não raras vezes erram), mas pelos atributos que muitos deles tem (ou deveriam ter), como a democracia, o respeito às instituições, o diálogo com todos (incluindo opositores) e a prioridade da via diplomática ao invés da militar, é ainda natural que possamos recorrer a estas pessoas para chegar a um caminho mais próximo da solução para os diversos problemas que o mundo teve, tem e terá.

Parêntese fechado, o caso da crise na Síria dá sinais de que fugiu completamente desse parâmetro. Com os líderes europeus mais preocupados em acertar os ponteiros de suas economias (logo, sem dinheiro nem opinião pública favorável para se dar ao luxo de embarcar numa guerra) e com o Obama que até então queria porque queria intervir na Síria (ainda que por uma ação limitada e sem desembarque de tropas, resta saber porque isso pode dar certo), mesmo não conseguindo convencer a opinião pública muito menos seus tradicionais aliados de que havia alguma justificativa para fazer isso, eis que aparece um novo player no "jogo": Vladimir Putin. Ele não tem o apreço que costumamos ter pela democracia, a relação com seus opositores não costuma ser a mais amistosa e nem sempre resolveu usar a via diplomática para solucionar os conflitos internos em seu país. Mas o ex-agente da KGB e atual presidente de Rússia mostrou até agora que tem sido a figura política internacional mais sensata nessa questão.

E não faltam motivos para se tirar o chapéu para o líder russo. Primeiro porque, como dito anteriormente, não há provas de que realmente tenha sido Assad quem ordenou o uso das armas químicas. Segundo, porque os rebeldes são ligados a extremistas islâmicos (em última instância ligados a Al-Qaeda), e se considerarmos que os chechenos e daguestaneses (em sua maioria muçulmanos) volta e meia querem se separar da Rússia a última coisa que Putin quer é permitir o apoio a um grupo que possa de alguma forma servir de aliado a separatistas em seu país. Terceiro, porque mesmo uma ação limitada na Síria poderia gerar consequências imprevisíveis para a região. E sim, nesse quiproquó todo poderia sobrar para Israel que poderia sofrer represálias por ser tradicional aliado dos EUA (e lembrando que ainda existe a questão mal resolvida das Colinas de Golã). Enfim, nenhum lado tem a ganhar nessa situação. E ao que tudo indica só Putin tem pleno conhecimento disso.

Ontem, véspera do aniversário de 12 anos dos atentados terroristas nos EUA, tivemos uma demonstração mais evidente da sensatez russa diante da apatia europeia e da insensatez promovida por Obama: a Síria aceitou a proposta da Rússia de deixar sob controle internacional as armas químicas que estão sob o regime de Bashar Al-Assad. Tal proposta, segundo o Ministro de Relações Internacionais Sergei Lavrov, retiraria os fundamentos para uma "agressão norte-americana". Isso foi o suficiente para que Obama solicitasse ao Congresso que adiasse a decisão sobre um possível ataque à Síria.

É cedo ainda dizer que a ação russa evitará uma intervenção naquele país, mas creio que isso foi o suficiente para fazer o "xerife do planeta" não ser levado a sério nessa situação. E não concordo plenamente com a frase de Glenn Beck, uma vez que os EUA continuam sendo uma superpotência. Mas a ação diplomática da Rússia sob Putin em concorrência a desesperada tentativa de Obama em transformar a guerra civil na Síria em uma intervenção internacional desnecessária e arriscada mostra quanto o Ocidente conseguiu involuir em termos de liderança. Ao ponto de um ex-agente da KGB e com uma política muitas vezes não aceitável pelos nossos cantos conseguir mostrar maior equilíbrio e sensatez.

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