A culpa é (só) dos republicanos? Ou: alto lá, Clóvis Rossi!

(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)
Bom dia pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar um pouco sobre a paralisação de setores não essenciais do governo norte-americano, provocada pela não votação do Orçamento para o ano fiscal de 2014 e iniciada hoje por lá. Como todos sabem, tanto esta situação, bem como a votação para a elevação do teto da dívida, que ocorrerá no próximo dia 17. Na verdade irei comentar sobre a forma nada honesta que isso foi divulgado por aqui. Um exemplo disso é a coluna de Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo de hoje, que de cara tratou de demonizar os republicanos, aqueles "radicais" que querem tornar a maior economia do planeta um país ingovernável. Segue abaixo a coluna, logo mais eu volto.

"Dois achados demonstram o grau de insanidade contido na ameaça dos setores radicais do Partido Republicano de provocar a paralisação das atividades não essenciais do governo norte-americano a partir do primeiro minuto de hoje.

(Salvo um acordo de última hora, eventualmente alcançado depois do horário de conclusão desta coluna, a paralisação já é efetiva).

Primeiro achado: a constatação de Edward Luce, no "Financial Times", de que se chegou a um momento "bizarro, em que faz mais sentido para Obama falar com o líder do Irã do que com o Congresso".

"Absurdistan, DC", grita, no segundo achado, artigo de Gordon Adams, professor de relações internacionais na Escola de Serviço Internacional da Universidade Americana, para explicar como "os republicanos estão ameaçando transformar Washington em um Estado falido" (por Washington, leia-se, evidentemente, os Estados Unidos da América, a única superpotência remanescente, mas que vive, certamente, um de seus piores momentos na história).

Seria mais cômodo distribuir culpas entre Obama e os republicanos, como se fosse possível neutralidade. Não é: o que os republicanos querem é matar o chamado "Obamacare", programa de assistência médica que foi um dos poucos grandes logros do presidente até agora.

Ora, o "Obamacare" é mais "Congresscare" do que propriedade do presidente, porque boa parte de seus dispositivos foi estabelecida pelo Congresso, claro que a partir da proposta original da Casa Branca. Trata-se, portanto, de um pacote que, primeiro, foi proposto em campanha por Obama e aceito pelo eleitorado que nele votou majoritariamente (e votou duas vezes).

Segundo, foi aprovado pelo Congresso, quando a maioria ainda era democrata na Câmara dos Representantes, e os lunáticos do "Tea Party" não haviam se tornado tão furiosos.

Derrubar o "Obamacare" como condição para evitar a paralisia do governo é golpe. Simples assim.

Mesmo a proposta que a maioria dos republicanos levantou (adiar a implantação do programa por um ano) já seria danosa: deixaria 11 milhões de pessoas sem cobertura de saúde em 2014 e ainda elevaria o valor a ser pago pelos que comprassem cobertura no mercado privado de seguro-saúde, nas contas de editorial do "New York Times".

Por enquanto, as especulações sobre as consequências para a economia do "shutdown" do governo são catastrofistas demais: o Escritório de Gerenciamento e Orçamento da Casa Branca calculou em US$ 2 bilhões o custo de duas situações semelhantes ocorridas em 1996. Não é a catástrofe.

Mas o dano provocado pela constatação de que Washington se transformou em um "Absurdistão" é tremendo. Pode ficar pior: "Se o 'shutdown' se prolongar por mais que um par de semanas, chegando perto do limite de 17 de outubro para elevar o teto da dívida, poderia ser muito mais danoso, possivelmente levando uma economia que já cresce pouco de volta à recessão", escreve o analista econômico Robert Khan para o Council on Foreign Relations."

De volta...

A coluna de Clóvis Rossi tem uma intenção bem clara: culpar os republicanos e somente eles pela paralisação parcial ocorrida no governo norte-americano (os trechos destacados em negrito mostram bem claro isso). Mas vamos usar um exemplo para entender a situação: pense que por um infortúnio qualquer, um pai de família precisou de recorrer a empréstimos, cartão de crédito e cheque especial para lidar financeiramente com a situação (inclusive usando os limites). Obviamente é necessário pagar isso, e então o pai acorda com os bancos e as financeiras uma forma de quitar os compromissos assumidos. De qualquer forma, o que esse pai recebe banca basicamente os compromissos financeiros normais (água, luz, telefone, alimentação) e os empréstimos, sobrando pouco ou nenhum recurso. Até que de repente, aparece uma proposta de um plano de saúde com cobertura total. Quem não quer ter um melhor acesso a exames e consultas e eventualmente efetuar alguns procedimentos caso fique doente, não é?

O problema é que para ter esse plano de saúde, precisa pagar. E como explicado anteriormente, o pai de família ainda está pagando os empréstimos e o uso dos limites do cartão de crédito e do cheque especial. A mãe e os filhos, cientes da situação, não querem que o pai faça esse plano de saúde, por melhor e mais bem intencionado que esteja. Então o pai, na teimosia, resolve radicalizar: corta o bife do almoço (no lugar coloca um ovo frito), proíbe a mãe e os filhos de tomar banho todo dia (para economizar a água) e desliga a geladeira durante metade do dia (para economizar na energia elétrica). Tudo isso para poder pagar a prestação do plano de saúde. Mas claro, como isso não será o suficiente para bancar o plano, o pai resolve então negociar com os bancos e as financeiras para emprestar mais dinheiro para que ele possa pagar essa "benfeitoria" para sua família. E mais uma vez, a mãe e os filhos são contra isso.

Qualquer pessoa que tenha lido esse pequeno exemplo deve estar falando: "quanta irracionalidade desse pai de família, tá se endividando e tirando de onde não tem para pagar o plano de saúde!". Mas provavelmente não seria Barack Obama e muito menos, por sinal, Clóvis Rossi. Lembrando que os EUA, ano após ano, vem aumentando o limite de seu "cheque especial" (teto da dívida), uma vez que não conseguem se bancar somente com o que ganham. E por mais bem-intencionado que seja o "Obamacare", ele custa dinheiro. E para quem já está terrivelmente endividado, é uma demonstração de bom-senso ver qualquer proposta que implique em mais gastos e em última instância, mais dívidas com olhos não tão bons. Menos, claro, para Barack Obama e para Clovis Rossi.

Para tristeza do jornalista da Folha (e de Obama), nos EUA não existem coisas como base aliada, governabilidade, PMDB (o partido que tendo governo é a favor) ou mesmo rateio de ministérios em troca de apoio ao Executivo. Tem que negociar, e, às vezes, ceder. E se pensar no contexto, o problema não está nos republicanos...

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