O sorteio do cachorro e o funcionário da Casa Branca demitido por porralouquice: a ofensa, a defesa e os valores. Ou a inversão dos últimos

Boa noite pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar duas matérias do jornal Folha de S. Paulo, que chamaram atenção não apenas pelos assuntos, mas também pela repercussão e pelos comentários sobre o assunto. Além disso isso nos permite ter uma noção do senso de valores que muitas pessoas tem. Ou, infelizmente, da falta dele.

(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo/Facebook)
Mal a matéria sobre o funcionário demitido caiu na rede e choveu críticas aos EUA por conta de tal situação, conforme a imagem abaixo:

(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo/Facebook)
Comentários lamentáveis, mas previsíveis se pensarmos que em geral temos um ranço antiamericano bem forte. Por si só já seriam desproporcionais em diversos aspectos. Mas ao darmos uma breve lida na reportagem estes ganham um ar bastante patético. Segue abaixo trechos da reportagem:

"Um alto funcionário da Casa Branca que ajudava nas negociações sobre a questão nuclear iraniana foi demitido após ser desmascarado como o responsável por uma conta no Twitter famosa por insultos a figuras públicas do governo e do Congresso dos Estados Unidos, disse uma fonte do governo na terça-feira.

Jofi Joseph era diretor de não-proliferação nuclear do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, mas há mais de dois anos vinha publicando centenas de tuítes anônimos e ofensivos usando a conta @NatSecWonk. [...]

Este mês, Joseph tuitou que a ex-secretária de Estado Hillary Clinton "teve poucos objetivos políticos e nenhuma vitória" no Oriente Médio. Ele concordou com o deputado republicano Darrell Issa, que implacavelmente perseguia Hillary pelas ações do governo após o ataque do ano passado contra o posto diplomático dos EUA em Benghazi, na Líbia, em que morreram quatro norte-americanos.

"Olha, Issa é um idiota, mas ele está certo em algo aqui com a @HillaryClinton pela prestação de contas por Benghazi", tuitou.

Em outro tuíte, Joseph criticou uma das principais assessoras de Barack Obama: "Sou fã de Obama, mas me preocupa sua contínua dependência e confiança em uma idiota insignificante como Valerie Jarrett".

Joseph também afirmou uma vez que "mais gente deveria questionar por que John Kerry colocou dois de seus antigos ajudantes (no Senado), ambos com ZERO experiência em política externa, em altos cargos do Departamento de Estado".

E, por fim: "#Obama em três palavras: tem funcionários de merda"."

Não sou especialista em recursos humanos ou mesmo ética profissional, mas não é preciso ser um para pensar no quanto deve ser constrangedor (do ponto de vista de um fornecedor, cliente, colega de trabalho ou mesmo patrão) saber que um funcionário da empresa pode estar usando as redes sociais para dar uma de "metralhadora giratória". Também não é preciso um conhecimento profundo nas áreas citadas para dizer que tais "críticas" (citadas na chamada da reportagem da Folha) seriam uma forma bem eufêmica de falar em ofensas pessoais e em alguns casos, gratuitas. Se eu fosse dono de uma empresa e descobrisse que um funcionário resolve dizer no Twitter ou Facebook que tenho "funcionários de merda" ou mesmo dizer que "tenho dependência e confiança em uma pessoa tida por idiota insignificante", a decisão mais óbvia seria demiti-lo. Caso eu fosse o funcionário, provavelmente estaria na rua, talvez por bem menos que isso. Mas enfim, o fato é que a demissão nada tem a ver com censura, cerceamento da liberdade de expressão ou mesmo ditadura. Se trata de uma punição a uma postura que em qualquer organização seria anti-ética e desrespeitosa.

A matéria seguinte, encontrada na seção F5 do mesmo jornal, fala de um sorteio de um cachorro promovido pela agora apresentadora Carla Perez (aquela loira do Tchan que protagonizou alguns momentos epicamente constrangedores na telinha) e que provocou alvoroço por parte dos ativistas defensores dos direitos dos animais. Segue abaixo:

"Após comoção na internet com o caso dos beagles resgatados de um laboratório, os ativistas defensores de animais estão voltando suas atenções a Carla Perez.

A apresentadora está sendo criticada nas redes sociais por sortear um cachorro em seu programa "Clube da Alegria" (TV Aratu, afiliada do SBT da Bahia).

O vídeo com a promoção "Meu Pet" foi publicado no YouTube pelo canal oficial da atração, no dia 4 de outubro. A promoção continua válida até o dia 31 de outubro.

No vídeo, Carla Perez anuncia que para concorrer ao "prêmio", basta a criança mandar um e-mail com um nome criativo que daria para o cãozinho.

Revoltados, internautas pedem que o sorteio seja suspenso.

"Cancelem o sorteio do cachorro! Bicho não é brinquedo. Estou tentado contato com vocês desde ontem sem sucesso. Nós, protetores do Brasil, imploramos que voltem atrás e cancelem!", escreveu a usuária do Youtube Beth Castilho.

"É muito sem noção essa Carla Perez. Ter um animal de estimação é uma responsabilidade que deve ser assumida com base em reflexão e consciência sobre a dedicação necessária, os cuidados e despesas envolvidos e a disponibilidade amor para dar ao animal. Sem noção!", protestou a usuária Pepita.

"Sorteia os filhos dela!", propôs a internauta Liz Freitas.

"Depois reclama se a chamam de burra, mas só dá bola fora", lamentou a internauta Aline Aparecida. [...]"

Como era de se esperar, nas redes sociais não podia faltar uma repercussão sobre o assunto. Vejam:

(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo/Facebook)
Bem, se este cachorro estivesse sendo vendido até acabaria compreendendo a revolta de muitos que acham que "animal de estimação não é mercadoria", apesar de que continuaria achando uma bobagem sem tamanho (calma, depois explico). Mas o fato de o animal estar sendo sorteado (ou seja, a pessoa que for a "felizarda" estará recebendo a fofura praticamente sem custo nenhum) torna o butthurt ainda mais injustificável.

Pensemos bem: espera-se que quem for participar do sorteio esteja realmente interessado em ter e cuidar do cachorro e a pessoa que estiver disposta a levar o animalzinho para casa provavelmente vai se esforçar muito para dar um nome criativo para ele. Ou seja, o vencedor não estará levando o cãozinho "a troco de nada", antes estará "pagando" aos organizadores do sorteio em "criatividade". Enfim, um sistema de incentivos que possivelmente estará recompensando a melhor pessoa a cuidar do bicho.

Mas vamos supor que no lugar do sorteio a apresentadora estivesse vendendo o cãozinho. Leiloando, para ser mais exato. Assim, como a pessoa que resolveu "pagar" aos organizadores na forma de "criatividade" para nomear o bicho, quem estivesse interessado em levar o animal para casa para cuidá-lo devidamente faria o possível para adquiri-lo, procurando dar o lance mais alto para a compra. Práticas semelhantes já ocorrem para aquisição de animais de ponta na pecuária, por exemplo (só que no intuito de ter os melhores bichos para irem à mesa). Por que não aplicar o mesmo raciocínio aos animais de estimação?

Enfim, enquanto nos ofendermos com um sorteio de um cachorro e acharmos que um empregado porra louca tem alguma razão em algo não temos o menor risco de fazer algo positivo para nossa sociedade.

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