O "rei do camarote": tenho o direito de achá-lo ridículo, mas a vida é dele, o dinheiro é dele e ele faz o que bem entender. O resto é "análise" social de botequim

Tá, muitos acham ridículo gastar R$ 60 mil numa noite de balada, mas e daí? Se ele trabalhou de forma limpa para isso o dinheiro é dele e ele faz o que bem entender. (Fonte da imagem: Veja SP)
Boa tarde pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar sobre um assunto que virou polêmica tanto na mídia como nas redes sociais neste início de semana: o estilo de vida nababesco do empresário Alexander de Almeida, 39 anos, que chega às baladas de São Paulo em uma Ferrari e que gasta de R$ 200 mil a R$ 300 mil em baladas, e ainda dizendo que quem o critica é "invejoso". A partir daí houve muita discussão em diversos meios de comunicação, sobretudo nas redes sociais, lugar onde costuma aparecer algumas "análises" sociais sobre o assunto que, para variar, são sofríveis. Desde as críticas ao capitalismo e à meritocracia (como se outros sistemas tivessem se revelado melhores a longo prazo) até mesmo parvoíces como esta, em que praticamente credita a culpa de toda a miséria de várias pessoas a um estilo de vida como o do empresário paulistano.

Bem, vou começar direto ao ponto: tenho o direito de achar o que ele faz ridículo? Sim. Considerando os conhecimentos de economia que adquiri no meu curso, a questão do custo de oportunidade e o fato de que vejo o dinheiro como um bem muito valioso para ser gasto em coisas que não agregam valor à minha vida (sim, sei muito bem o que é passar por "perrengues" financeiros, não adianta vir aqui me acusar me chamando de "coxinha"), posso muito bem falar que gastar R$ 900 com uma garrafa de champanhe ou mesmo R$ 60 mil por noite não é algo digno de admiração. Com o mesmo dinheiro que ele gasta por mês em baladas eu poderia comprar um terreno nas montanhas, fazer um chalé, ganhar um bocado com aluguel e quando tiver velho, viver meus últimos anos de vida por aqueles cantos (só para exemplificar).

O segundo ponto é: tenho por que de ficar me preocupando ou fazendo butthurt por conta do estilo de vida dele? Não. O dinheiro é dele, a vida é dele, os champanhes é ele quem compra, a Ferrari é dele, os seguranças são dele e quem tá pagando de ridículo (pensando no parágrafo anterior) é, simplesmente...Ele. O "rei do camarote" pode fazer o que bem entender com a "mordomia" que tem. Ele pode gastar R$ 300 mil com noitada? Pode. Ele pode gastar a mesma grana em um apartamento pra alugar durante 30 anos? Pode. Ele pode pegar esse dinheiro e atirá-lo pela janela de um prédio para quem passar na rua poder ter seu dia de Riquinho? Pode. Ele pode inclusive pegar um caminhão de dinheiro, parar a Avenida Paulista e chamar Black Blocs para tacar coquetéis molotov no veículo? Na teoria não, mas se pensarmos na lógica "consicente" de alguns, também pode. O que quero dizer é um princípio bem básico que todos, sempre que possível: cada um que cuide de sua vida e de seus problemas, e que só haja interferência de terceiros se isso for consentido (o famoso "só se meta naquilo que lhe for chamado"). Claro, levando em conta que todos estejam na forma da lei.

Eu poderia encerrar esta postagem agora, mas antes disso pretendo deixar algumas coisas bem claras: uma é que a lógica de "soma zero" que alguns enxergam que para alguém levar a melhor em algo, alguém precisa levar a pior, não é (ao menos não necessariamente) verdadeira (você pode conferir um texto sobre o assunto aqui). Muitas relações existentes num sistema capitalista se assemelham às relações harmônicas que aprendemos na biologia de ensino médio: ou ambos levam vantagem ou, na pior das hipóteses, nenhum dos lados leva a pior. Um exemplo bem simples: o notebook que eu comprei há duas semanas (e que estou usando para elaborar esta postagem) pode ser um exemplo desta relação harmônica que pode sim existir no capitalismo. O fabricante levou a melhor porque terá mais receita (e, provavelmente mais lucro), a loja levou a melhor pelo mesmo motivo e eu também levei a melhor porque apesar de ter gasto um volume de dinheiro considerável para comprá-lo, vejo como mais vantajoso ter um equipamento novinho em folha que atenda melhor ao que pretendo fazer com ele (jogos, trabalhos e pesquisas de faculdade, podcasts deste blog, entre outras cositas). E isso é aplicável em vários casos, até mesmo em um "famigerado" (por alguns motivos justos, outros nem tanto, e falei sobre isso no dia 07/08) banco: você escolhe fazer uma conta em um banco A ou B porque é mais seguro ter seu dinheiro guardado nele do que debaixo de um colchão e a instituição financeira vê isso como uma oportunidade de ganhar mais. É claro que não estou dizendo que o capitalismo seja uma panaceia, uma solução para todos os problemas da humanidade (na verdade, nenhum sistema humano funciona assim na prática), mas a visão de "lei da selva" de alguns aplicada à vida do baladeiro é, no mínimo, exagerada.

O que tem a ver alhos com bugalhos? (Fonte: Centro do Socialismo/Facebook)
Outro ponto que é necessário citar nesta postagem é o uso da vida fútil do empresário paulistano como crítica ao sistema meritocrático, como se este fosse ruim. Nada mais falso. A meritocracia serve justamente para recompensar aqueles que tomam decisões acertadas e punam aqueles que tomam decisões erradas, e não há nada de injusto nisso. Diga-se de passagem, até mesmo as três principais religiões monoteístas possuem um viés meritocrático (sobretudo na questão da salvação). E antes que alguém venha aqui dizendo que eu ache a professora dessa foto uma preguiçosa, é preciso deixar bem claro que é basicamente dela a decisão de escolher um trabalho que lhe permita ganhar mais que a quantia citada em dois anos. Se ela quiser lecionar em uma rede pública que lhe pague mais, ela pode. Se ela quiser lecionar na rede particular para ganhar mais, ela pode. Se ela quiser, inclusive, mudar de profissão para uma outra que remunere melhor, ela pode. A professora dessa foto não é obrigada a trabalhar para ganhar os R$ 50 mil em mais de dois anos. E da mesma forma que o empresário gasta R$ 50 mil em uma noite, se ele não tiver pleno controle de seu orçamento, ele poderá se endividar e na pior das hipóteses, perder tudo o que tem. Enfim, esse é o lado "ruim" da meritocracia.

Também outro ponto, não menos importante que os dois anteriores, é que é espantoso (ou nem tão espantoso assim) e ao mesmo tempo triste que muitos fiquem horrorizados de imediato com os gastos exorbitantes do farrista (que usa o dinheiro dele para pagar suas noitadas) e não se espantem com tanta veemência em relação a gastos excessivos por parte dos governos em diversos aspectos (esses sim, com dinheiro nosso, entenda-se por impostos). Pior: vão para as ruas pedirem um Estado ainda mais paternalista e que forneça cada vez mais "direitos" como se estes fossem uma dádiva divina e não algo que tem um custo que inevitavelmente precisará de dinheiro que vem de todos.

Enfim, o que o "rei do camarote" faz é ridículo? Pode ser, e eu acho que é. Tenho que me preocupar com isso? Não, a vida é dele, o dinheiro é dele e se ele fizer cagada é ele quem vai quebrar a cara. A partir daí querer criar vitimismos ou coisas do tipo para conseguir comoção do público não passa de "análise" social de botequim ou padaria. Se bem que bêbados num botequim ou pessoas que tomam o café da manhã em uma padaria possuem uma consciência social muito melhor que muitos "engajados".

UPDATE: Nos meu feed de notícias de meu perfil do Facebook, eu vi um material que diz que esse empresário esbanjador pode, na verdade, não passar de uma tremenda trollada (uma das maiores da Internet aqui no Brasil). Se for, sinto pena da Veja SP. Mais tarde posso confirmar isso, o que não necessariamente anula esta postagem.

Comentários

  1. Bem, eu já trabalhei na noite e acho que tem coisa bem pior. Tem neguinho que gasta 50 reais e acha que virou o dono de quem serve ele. Trata mal na frente "das gatas", ridiculariza, se considera superior.
    O Alexander Almeida, que distribui gorjeta pra todo mundo e esbanja sempre com vários amigos, sorrindo e sendo simpático, me parece uma pessoa muito melhor do que a grande maioria que eu já atendi.

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