Para David Fleischer, oposição no Brasil é muito fraca

(Fonte: Brasil Econômico)
Bom dia pessoal. Hoje pretendo compartilhar com vocês a entrevista do Brasil Econômico com o cientista político David Fleischer, em que comenta sobre os recentes acontecimentos na política e economia nacional. Para ele, temos uma oposição muito fraca, os protestos que tivemos em junho serão ainda mais intensos no ano que vem e o escândalo do metrô de São Paulo pode ter um peso maior contra os tucanos do que o Mensalão petista. Segue abaixo a entrevista. Volto para comentar.

"Qual sua avaliação de 2013?

A Marina foi um fato muito importante. E acho que ela acabou prejudicada. Foi ventilado na imprensa que cartórios eleitorais recusaram cinco, sete mil assinaturas, sem nenhuma justificativa. O fato é que ela representava uma ameaça. Todo mundo tinha medo dela, é a mulher que obteve 20 milhões de votos em 2010 e provavelmente, se conseguisse ser candidata em 2014, obteria muito mais - talvez 25, 30 milhões de votos. Marina prometia ser um grande fenômeno em 2014. Mas sem o partido, indo para o PSB, a equação muda, porque o PSB já tem um pré-candidato. Teremos que esperar para ver como esse entrosamento vai funcionar, se ela vai ser vice do Eduardo Campos ou não, se vão afinar um pouco mais as propostas e programas. Mas ela é um personagem importante. O agronegócio foi atrás dela, quer conversar com ela. É um setor que representa 25% do PIB, é um setor que não se pode desprezar. Com suas exportações, praticamente sustenta a nossa balança comercial. Outro fato muito importante foram as manifestações, muitas delas violentas, durante a Copa das Confederações, em junho e julho.

Como avalia as manifestações?

O governo e a polícia não estavam preparados para isso. O clamor das ruas dizia: nós não nos sentimos representados. E o Congresso, ou não entendeu, ou não escutou - reforma política, zero. A polícia supostamente agora está se preparando melhor. Então um especialista francês veio fazer palestras no Rio e em São Paulo para tentar passar a experiência francesa para os policiais brasileiros - porque lá as manifestações são frequentes. E finalmente a inteligência policial no Rio - não sei se em São Paulo também - acordou e foi monitorar as redes sociais.

Na sua avaliação, novas ondas de protesto ocorrerão?

Minha previsão é de que, se vocês acharam junho e julho de 2013 ruim, em 2014, na Copa do Mundo, vai ser duas ou três vezes pior. Será um prato cheio para realmente o país arrebentar: teremos 31 países jogando aqui, em 12 cidades diferentes,na véspera de iniciar a campanha eleitoral. Há uma expressão em inglês: The whole world is watching ("O mundo inteiro está olhando"). Metade do mundo estava olhando em 2013; em 2014, o mundo inteiro estará de olho.

Os protestos foram capazes de alterar a agenda do governo?

Sim, por causa da baixa qualidade dos serviços públicos. Não apenas no caso do transporte urbano, mas também dos serviços médicos, de educação, segurança etc. Os protestos mostraram que a insatisfação já estava lá, latente, esperando uma faísca para pegar fogo. O povo está cansado de ser mal atendido em hospitais, pela polícia, na educação, em serviços urbanos. [...]

Essa nova classe média vai votar de forma diferente?

Pode ser que sim. Se ela está um pouco mais exigente, poderá olhar as propostas dos partidos e principalmente dos candidatos e tomar um pouco mais de cuidado. Supostamente a classe média se comporta assim, o pobre e o miserável votam por tutela - embora alguns discordem, dizem que não é tanto assim. Há certos grupos que supostamente votam por tutela. Não quero ofender ninguém, mas, por exemplo, os evangélicos costumam votar pela tutela do pastor e do bispo. Por isso é que há cada vez mais "Felicianos" na Câmara dos Deputados (referindo-se ao deputado e pastor Marco Feliciano, do PSC-SP). Já os padres não conseguem tutelar os fiéis católicos para votar em beltrano contra sicrano. Temos, por exemplo, a PM, que é uma espécie de grande família: sempre há três, cinco ex-oficiais da PM eleitos deputados estaduais em São Paulo. Também em São Paulo, há também muitos descendentes de japoneses, e há sempre quatro ou cinco descendentes de japoneses na Assembleia paulista, porque japonês vota em japonês. Supostamente a classe média tem um pouco mais de critério, principalmente no caso dos candidatos a governador ou senador. Se fosse candidato, eu pregaria fortemente que, se eleito, melhoraria o sistema de transportes, os hospitais. Tentaria jogar minha campanha em cima das aspirações e demandas.

O cenário econômico de crescimento baixo e juros em alta pode impactar o cenário eleitoral?

A economia só impacta o sistema eleitoral quando ele começa a impactar o eleitor individualmente. Enquanto o desemprego não está muito alto, o salário médio não está caindo, ainda há criação líquida de empregos e a inflação não está nos 8% ou 9% ao ano, não impacta diretamente o eleitor. Se essas variáveis começarem a cair, aí, sim, pode afetar. Lula jogou muito com a possibilidade de elevar o consumo e o PIB foi forte em 2010 por causa disso, mas aumentar o consumo tem limite. Dilma enfrentou esse limite em 2012 e agora em 2013. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o PIB do 3º trimestre mostraram isso com clareza: ao examinarmos setor por setor, observamos que a agricultura caiu muito, indústria também e o setor de serviços teve um desempenho mediano. O que mais cresceu foi o consumo do governo, mais que o das famílias. E há a questão fiscal, que é séria.

O desequilíbrio nas contas públicas é um tema só para analistas ou também preocupa o eleitor?

Poucos eleitores entendem a dinâmica e o impacto desse tema. Gostei quando batizaram as manobras do governo para melhorar as contas de "contabilidade criativa". Essa contabilidade não pode se repetir. Só que este ano haverá vários ingressos das licitações, como Galeão, com R$ 19 bilhões, o pré-sal, com R$ 15 bilhões. Muita gente desconfia que essas privatizações foram feitas agora no final do ano para ajudar no resultado das contas públicas. Isso não dá muita credibilidade para a Fazenda, que está abandonando a meta de superávit. O Banco Central continua preocupado, porque um desequilíbrio fiscal afeta fortemente a inflação.

A elevação dos juros tem um impacto menor do que teria a inflação do ponto de vista eleitoral?

O eleitor entende que os juros estão mais caros e as consequências disso, mas não culpa o governo pelas decisões do BC. Também não joga na conta positiva do governo quando o BC reduziu os juros. Mas se a inflação sobe, isto vai para a conta do governo. O BC tem sido muito ágil e hábil. Ele percebe que se o dólar cair abaixo de R$ 2 pode ser ruim, e se chegar a R$ 2,40 pode ser ruim também. Por isso, trabalha para manter o dólar nesse intervalo entre R$ 2,20 e 2,40. [...]

Mas esse será um problema para a Dilma no ano que vem?

Acredito que não chegue a isso. E não afetando o eleitor diretamente, como eu mencionei, a Dilma está mais ou menos confortável. Porque temos uma oposição muito fraca no Brasil. Eduardo Campos (provável candidato do PSB) diz: "Tudo bem, Lula e Dilma fizeram coisas interessantes, mas nós vamos fazer muito melhor", Aécio Neves nem isso consegue falar. E os tucanos estão com o rabo de fora para ser pisado com as denúncias (referindo-se às investigações do caso Alstom-Siemens). O Geraldo Alckmin (governador de São Paulo), com sua cara de pau, disse que iria investigar. Agora, o Ministério Público está dizendo: sua investigação foi muito ruim, você vai ter que investigar melhor.

Esse é um flanco que vai atrapalhar a imagem dos tucanos?

Sim, vai. A Dilma pode questionar isso na campanha. Muitos afirmam que o caso do mensalão pode pesar contra a Dilma. Mas a presidenta já aconselhou os petistas exaltados, os "aloprados", que esse negócio de fazer manifestações em frente à Papuda (prisão em Brasília onde estão os mensaleiros condenados) é contraproducente, que é melhor ficarem quietos porque o que estão fazendo pode atrapalhar. A presidenta não falou isso publicamente, mas supostamente já passou o recado aos "aloprados".

Então, o que pode impactar?

A popularidade de Dilma caiu muito nos protestos de junho e julho. Pode ser que, nos protestos de 2014, que tendem a ser muito, muito piores, ela enfrente uma queda também. [...]

A fama de durona da Dilma ajuda na construção de sua imagem como governante?

Ajuda. Para ser um governante, um político tem que ter pulso para mandar. E em se tratando de mulher, me desculpe, mas tem que mostrar que tem pulso. Tem que bater na mesa e colocar o dedo no nariz das pessoas. A Dilma faz isso. Já a Marta Suplicy, que foi prefeita de São Paulo, não conseguiu mostrar que tem pulso. Ela construiu uma imagem de dondoca e mulher de sociedade. Visitava a favela vestida com luxo e bem maquiada. O político que vai a uma favela veste o jeans e o tênis, jamais usa um terno. [...]"

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A meu ver, a mudança de cenário produzida neste ano (e com reflexos em 2014) mais confundiu que ajudou. A propósito, os principais concorrentes às eleições do próximo ano são todos do mesmo lado do espectro político (adivinhem?), apenas variando suas nuances. Não temos um candidato com um discurso que, de fato, rompa com a lógica de querer resolver ingerências do Estado com mais Estado (em julho havia explicado isso, é só conferir aqui).

Sobre os protestos, não pretendo delongar muito sobre o assunto, até porque neste blog comentei de forma ampla em relação a isso, mas digo apenas que a lógica em torno delas é errônea, pelo mesmo motivo que disse há pouco sobre a solução de problemas que partem do poder público. E sobre as ações policiais para conter os atos terroristas, a medida é válida mas não vejo efetividade se a outra "ponta" (Justiça) não unir forças para um melhor enfrentamento desta situação (inclusive comentei isso na quarta parte do primeiro podcast deste blog, confira aqui). Sei que irei ganhar a ojeriza de defensores mais ferrenhos das liberdades individuais por conta de minha opinião, mas medidas que facilitem a vigilância das autoridades (entenda isso por espionagem) a suspeitos de envolvimento em episódios de violência, e legislação que permita a detenção por tempo indeterminado destes seriam um ótimo caminho para lidar com isso.

Sobre a questão econômica, concordo plenamente com o Fleischer. Infelizmente o povo vai acabar esperando que os recentes problemas ganhem proporções maiores ao ponto de atingir diretamente sua vida e seu bolso (por exemplo, se a inflação ficar consideravelmente acima do teto da meta ou se o desemprego crescer de forma significativa, ou ambos). Acredito que se não houver ajustes nos rumos das políticas fiscal e monetária, teremos um cenário sombrio para nosso país. A questão é saber em quanto tempo isso irá ocorrer, e se isso ocorreria em tempo para afetar o resultado do certame eleitoral de 2014.

Por fim, outro ponto que concordo com o Fleischer é que temos uma oposição muito fraca, que não faz o mínimo para ter uma postura contrastante em relação ao bloco governista. Pior ainda: tenta fazer uma versão genérica do discurso adotado por quem está no poder. Entre o original e o "similar" o "cliente" acabará preferindo o original, não é tucanos?

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