Eliane Brum, Kaique e os rolezinhos: do nonsense ao patético

(Fonte da imagem: Geledes)
Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar mais uma coluna de Eliane Brum na edição brasileira do jornal espanhol El País (ela já foi alvo de uma postagem minha no final do ano passado, basta conferir aqui). Desde já peço desculpas aos leitores pelo fato de não cumprir a "promessa" de que não faria mais de uma postagem neste mês por aqui para comentar sobre o assunto (embora havia alertado que eu poderia descumprir essa "promessa"). Pois bem, a nossa querida colunista de El País, não satisfeita com a tese furada de "luta de classes" no final do ano, resolveu abrir 2014 no jornal espanhol com uma comparação grotesca entre o caso do menino Kaique, encontrado morto no dia 11/01 em São Paulo e as medidas tomadas para combater os "rolezinhos" nos shoppings. Segue abaixo o esquema de pingue-pongue.

"A morte do adolescente Kaique Augusto Batista dos Santos e os rolezinhos não coincidem apenas no calendário. Dizem de um lugar: onde é “natural” encontrar um jovem negro e pobre, onde não é “natural” encontrá-lo. A lógica que determina a criminalização prévia dos rolezinhos e a não criminalização prévia da morte de Kaique – acontecimentos que moveram São Paulo e parte do país nos últimos dias – é a mesma. Ela indaga por territórios e revela leis não escritas.

Primeiro, quem é Kaique, já que sobre os rolezinhos estamos bem mais informados. O adolescente foi encontrado morto no sábado (11/1), próximo a um viaduto da Avenida Nove de Julho, na região central de São Paulo. Os dentes e os dedos estavam quebrados, havia um ferimento numa perna. Para a família, uma barra atravessada, que depois teria sido retirada. Para policiais, uma fratura exposta. Tinha 16 anos – e são os jovens os que mais morrem por assassinato no Brasil. Era homossexual – as mortes por homofobia cresceram 11% em 2012, comparado ao ano anterior. Era negro, como mais de 70% das vítimas de homicídio no país. É razoável esperar que suas circunstâncias, assim como as circunstâncias em que seu corpo foi encontrado, motivassem suspeitas de que pudesse ter sido assassinado. Não foi, porém, o que aconteceu. A polícia de São Paulo registrou no boletim de ocorrência: “suicídio”."

Como assim mesma lógica? São dois casos completamente distintos, tanto em situação como em proporção (falarei um pouco do primeiro caso, o segundo comento mais tarde). De fato, mesmo como alguém que tenha noções de investigação "aprendidas" em episódios de CSI a tese de suicídio é um tanto estranha (apesar de que a família já a admite, então fica mais difícil de discutir). Mas mesmo se considerarmos a hipótese de assassinato ainda não seria possível enquadrá-lo como mais um caso de homofobia, como a colunista tenta fazer em seu texto. Haveria, óbvio, necessidade de se investigar o que de fato ocorreu e suas razões. O mais legal é que a própria Brum admite isso na sequência, ainda que em partes. Veja:

"Não há, neste momento, como afirmar se Kaique foi assassinado ou se suicidou. Para afirmar, tanto um homicídio quanto um suicídio, é preciso uma investigação. E séria. Há suicídios que, pelas circunstâncias e pelas evidências, são facilmente comprováveis. Não parece ser o caso de Kaique. A questão que se impõe é: por que foi registrada como suicídio uma morte que até hoje, mais de uma semana depois, não foi esclarecida?"

De fato, é difícil não se estranhar com o registro "prévio" da morte de Kaique como suicídio. O fato, como a própria colunista admite é que há a necessidade de se investigar o caso. Mas se é assim, por que insinuar, ainda que nas entrelinhas, um possível viés racial ou de intolerância à orientação sexual? E pior, tentar encontrar um paralelo com os rolezinhos, que por si só tem características e proporção totalmente distintas do caso Kaique.

"É nesta esquina simbólica, na indagação sobre o território de cada um, que o caso Kaique e os rolezinhos se encontram. Ao se deparar com um jovem negro e homossexual morto, o corpo flagelado, perto de um viaduto, a polícia tem, sem qualquer investigação, a convicção de que não houve um crime. Ao encontrar um grupo de jovens da periferia, a maioria negros, bem vivos dentro de um shopping, a polícia tem a certeza de que, sim, é um crime. Se ainda não cometeram furtos, roubos e arrastões, certamente o farão. Do crime, não são vítimas, mas autores.

No primeiro caso, se Kaique foi de fato assassinado, o crime ficaria impune, não fosse a pressão das redes sociais. No segundo caso, puniu-se um crime que não aconteceu, ao se indiciar jovens que não fizeram nada além de zoar. Discriminou-se centenas de outros, que foram coagidos a se retirar de shoppings por conta de sua cor e de sua aparência, e barrou-se a entrada de outras centenas, também por causa de sua cor e de sua aparência. Sem esquecer daqueles que, como é mostrado em vários vídeos, levaram gravatas, chutes, socos e empurrões da polícia por ousar entrar num shopping."

Por que medidas diferentes? Será porque, óbvio, as situações são diferentes? Como disse em meus "pongues" anteriores, alguns aspectos da investigação em torno de Kaique são estranhos. De qualquer forma, não é possível afirmar se houve suicídio (embora a família já admita essa possibilidade) ou assassinato, tampouco se foi um crime racial ou de homofobia, como muitos da mídia mainstream tentaram empurrar goela abaixo. Nada a ver com os rolezinhos, em que foram constatados tumultos em diversos eventos. Que são perturbações da ordem pública, portanto passíveis de serem combatidos pela polícia, cuja atribuição (prevista na Constituição, inclusive) é, entre outras coisas...Garantir a ordem pública. Tumultos estes que, se não contidos, podem muito bem provocar tragédias, com fatalidades inclusive. A propósito, como assim "crime que não aconteceu"? Em um desses "inocentes" eventos em que jovens não fazem "nada além de zoar" já teve prisões por conta de furto e roubo.

"As respostas são muitas e não tenho a menor chance de esgotá-las aqui. Mas há uma que vale a pena refletir com bastante atenção num momento em que o apartheid do Brasil é escancarado pelo fenômeno dos rolezinhos, independentemente do fato de esta ser ou não a intenção dos meninos que os promovem. O que une o caso Kaique e os rolezinhos é não só, mas principalmente, o lugar. A naturalização do lugar de cada um numa sociedade cindida, como continua a ser a brasileira.

Debaixo de um viaduto, um jovem negro morto não chama a atenção. Se for possível perceber pelas roupas, cabelo e acessórios que é gay, menos ainda. [...] Para tanto, basta tascar no boletim de ocorrência, já que é preciso dizer alguma coisa: “suicídio”. E despachar o corpo para o Instituto Médico Legal como indigente, já que Kaique teria perdido os documentos e o celular. Vale registrar ainda que, devido à “superlotação do IML”, o corpo ficou “fora da geladeira” por dias, alcançando um estado de deformação que tornou impossível para a mãe dar um velório ao filho morto. Kaique, portanto, estava no lugar naturalizado para adolescentes com a aparência de Kaique.

Já dentro de um shopping, um grupo de jovens pobres e, em sua maioria negros, está fora de lugar para essa mesma polícia e a sociedade que a gesta, evoca e respalda. O deslocamento, por si só, passa a ser interpretado como um crime, na medida em que essa mobilidade é criminalizada por leis não escritas, mas profundamente introjetadas. Tão introjetadas que o aparato de segurança pública e o judiciário são acionados para mantê-los do lado “certo” – o lado de fora. Tão introjetadas que o fato de não existir crime tem sido espantosamente insuficiente para impedir a criminalização de um movimento de meninos e meninas que querem se divertir e dar uns beijos, mas que, ainda que estejam usando grifes, jamais são reconhecidos como “iguais”, como tendo a “aparência certa”, o cartão invisível que garante a entrada pela porta da frente."

Mais uma vez fica registrada a tentativa de Brum em forçar semelhanças entre situações completamente diferentes. Pois bem, de fato vivemos em um momento em que a violência se tornou mesmo banal. Praticamente não nos choca ver um corpo morto numa rua, praça, viaduto ou qualquer lugar (a não ser de parentes ou amigos mais próximos), e isso independe de raça, idade ou orientação sexual. Enfim, temos um fenômeno generalizado nesse sentido. Sobre os rolezinhos, fica cada vez evidente que a questão não é de luta racial ou luta de classes, e sim comportamental. Pouco interessa ao shopping se você é negro, branco, índio, pardo, viking, "japa", esquimó, aborígene e tutti quanti, se você não cria problemas para os lojistas, funcionários e demais frequentadores, ninguém irá se preocupar com sua presença por lá. E se você comprar alguma coisa - de casquinhas de sorvete a MacBooks - aí é que eles não vão se preocupar mesmo. Pelo contrário, abrirão um sorriso de uma orelha a outra. O problema é quando as pessoas se reúnem e - querendo ou não - provocam tumulto e por certas vezes, depredação em um local fechado. A propósito, o shopping, diferente de uma praça ou parque, é um estabelecimento privado. O fato de ser aberto ao público não muda isso, o que significa que a administração do mesmo pode sim impor regras impessoais e objetivas para garantir o conforto e segurança dos usuários.

A propósito, para eliminar qualquer possibilidade de alguém insistir na tese esdrúxula de apartheid (Mandela se reviraria no túmulo após isso) e de luta de classes (um trabalhador que compra sua geladeira em 10x no cartão virou elite agora?), algumas constatações:

  • Trecho da matéria da IstoÉ sobre o perfil dos participantes dos rolezinhos: "De acordo com o presidente do instituto, os participantes dos rolezinhos se reúnem nos shoppings que já estão acostumados a frequentar. “Barrar este público é um erro, já que se trata de dizer para uma importante parcela de consumidores que eles não são bem-vindos”, disse Renato Meirelles. Segundo ele, boa parte desses jovens está usando roupas de marca que compraram no próprio shopping. O levantamento do Data Popular apontou que o Brasil tem atualmente 30,7 milhões de jovens com idades entre 16 e 24 anos. Destes, 16,6 milhões foram ao shopping pelo menos uma vez no último mês. A média mensal é de 3,3 vezes. Os jovens da classe C representam cerca de 9 milhões neste número."
  • Vídeo da TV UOL sobre as "rolezeiras": 
  • Matéria do Fantástico sobre os rolezinhos (com vídeo).
Todas as constatações reveladas por essa matéria e pelos vídeos mostram bem claro: diferente do achismo de Eliane Brum, pobres (inclusive negros) já estão nos mesmos lugares em que a classe média (a propósito, que classe média? Aquela em que pessoas com renda per capita em torno de meio salário mínimo já é considerada como tal? Ou aquela em que 80% dos negros já podem ser enquadrados lá?) fazem suas compras. A propósito, existem pobres que trabalham na manutenção do shopping, pobres que trabalham nas lojas do shopping e pobres que vão pra lá para comprar seus eletrodomésticos ou eletroeletrônicos que tanto sonharam (graças, sobretudo, ao crédito farto e barato, tema da próxima postagem). E entre esses pobres, inclusive nos rolezeiros, tem negros, pardos e, pasmem, brancos. Que apartheid fajuto é esse? E que luta fratricida de classes é essa?

Fica evidente que nossa querida colunista, bem como seus "companheiros" Leonardo Sakamoto, Bárbara Gancia, Diego Quinteiro, PC Siqueira e afins erram miseravelmente ao passar um verniz de racismo ou de preconceito de classe, quando a questão é simplesmente o que esses jovens fazem por lá. Mas querer comparar a morte de Kaique aos incidentes ocorridos nos rolezinhos é uma forçada e tanta de barra. Qualquer pessoa com o mínimo de senso e de lógica enxerga diferenças claras, de situação e de proporção dos dois casos. Enfim, Brum perdeu a oportunidade de ficar calada.

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