Luiza Trajano apenas defendeu seu "peixe". Ou: o copo "meio cheio" que pode estar furado

Você acha que ela irá falar do copo meio vazio um dia? (Fonte da imagem: IG)
Bom dia pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar sobre um tema que deu muito o que falar nesta semana: a entrevista da equipe do Manhattan Connection, da Globo News, à empresária Luiza Trajano, dona do Magazine Luiza. A entrevista chamou a atenção e atiçou a turma governista, que usou esse vídeo como uma espécie de "tapa na cara dos pessimistas". Será mesmo? Veja abaixo. Volto para comentar.


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De fato, tanto o Diogo Mainardi como a equipe do Manhattan Connection não souberam se expressar ou articular bem seus argumentos, o que acabou dando munição para Trajano e para os governistas, que viram isso como um "gol de placa" contra aqueles que falam que a economia brasileira está no rumo errado. Mas as declarações dela devem ser analisadas pensando no contexto que está por trás disso.

Primeiro, ela é empresária do setor de varejo. Setor, que, junto com o automotivo e o imobiliário, viveu um boom nos últimos dez anos. Que por coincidência ou não, teve esse boom por conta dos incentivos fiscais e creditícios, em boa parte liderados pelo governo federal. A propósito, no ano passado foi lançado o "Minha Casa Melhor", programa do governo federal que disponibiliza até R$ 5.000 de crédito aos participantes do "Minha Casa Minha Vida" para a aquisição de móveis e eletrodomésticos. Alguém espera que ela se volte contra ou ao menos faça alguma crítica ao modelo de desenvolvimento com prioridade ao consumo, sabendo que é isto que fez tanto sua loja como seu setor expandir? Creio que não.

Segundo, mesmo com os indicadores de inadimplência tão baixos, é necessário um pouco de cautela antes de qualquer comemoração. Em seu blog na Veja, Rodrigo Constantino apontou o baixo índice de desemprego como uma das causas desse fenômeno. Já na matéria da Folha de S. Paulo (que fez parte de uma compilação feita pelo Implicante sobre a repercussão do vídeo), é possível verificar com mais clareza os motivos desse número "tão bom":

"Consumidores mais preocupados em pagar dívidas do que fazer novas compras e bancos mais rígidos na concessão de crédito ajudaram a reduzir o nível de inadimplência em 2013 após a piora dos últimos anos.

O indicador de dívidas em atraso calculado pela Serasa Experian, empresa de informações financeiras, terminou o ano em queda de 2% -a primeira retração anual desde que a medição começou, em 2000.

Um ciclo de crédito farto e medidas de incentivo ao consumo após a crise de 2008 tinham contribuído para um avanço da inadimplência. Em 2012, por exemplo, houve aumento de 15% do indicador.

Para reduzir perdas com devedores, os bancos mudaram. "Ficou mais difícil obter crédito porque as garantias exigidas aumentaram", diz o economista Manuel Enriquez Garcia, presidente da Ordem dos Economistas do Brasil."

Bem, três constatações sobre a redução da inadimplência podem ser retiradas deste trecho:

  1. É a primeira queda ocorrida desde o início das medições (desde então estava cada vez maior);
  2. A inadimplência caiu por uma maior preocupação dos consumidores em pagar o que deve e no aumento do rigor para a concessão de crédito. Não se fala, por exemplo, em melhoria da renda como fator que induza a situação inédita;
  3. Os incentivos fiscais e creditícios são apontados como as causas do avanço da inadimplência, e reiterando o item 2, os bancos ficaram mais exigentes para conceder crédito para evitar perdas com devedores.
Ou seja, a inadimplência caiu não por conta de uma melhoria no padrão de vida do brasileiro, e sim por conta de uma reação dos consumidores e dos bancos diante das recentes instabilidades na economia (que nos últimos anos vem tendo baixo crescimento e alta inflação), que ficaram mais cautelosos em comprar e em conceder financiamentos, respectivamente. Quais os motivos de comemoração nisso?

A matéria da Folha ainda traz mais informações:

"Para economistas ouvidos pela Folha, a tendência é que o crédito fique cada vez mais caro, pois o ciclo de aumento de juros do Banco Central ainda não acabou.


"Não há muitas evidencias de que a inflação possa cair abaixo de 6% de maneira significativa. Com isso, o BC vai continuar elevando os juros para conter o aumento de preços. Até porque a outra opção seria controlar o gasto público, algo que não vem ocorrendo", afirma Garcia.

Assim, a perspectiva é que a inadimplência se mantenha estável em 2014, diz.

Myrian Lund, planejadora financeira e professora da FGV, também acredita que os calotes continuem sob controle, mas não descarta aumento dos indicadores de inadimplência ao longo do ano.

"Com os juros altos, as pessoas podem ter mais dificuldade para pagar os empréstimos", afirma."

Resumindo: é necessário manter os pés no chão. Mesmo que os indicadores de inadimplência se demonstrem otimistas, as causas disso não são nada otimistas. Inflação alta e crédito caro também acabam reduzindo o apetite dos consumidores.

Por fim, terceiro, como muito bem compilado por Rodrigo Constantino em seu blog e no Implicante (os links são os mesmos), o relacionamento de Trajano com o governo federal é, até certo ponto, amigável. Há praticamente três anos, ela foi convidada pela presidente Dilma a assumir a Secretaria de Micro e Pequena Empresa, chegando a prometer abrir mão do salário caso assumisse a futura pasta. No entanto, outros interesses políticos prevaleceram e o 39° ministério foi entregue para o PSD, que passou a integrar a base aliada. Além disso o setor de varejo, do qual o Magazine Luiza pertence, teve uma explosão na concessão de financiamentos pelo BNDES, sendo que a loja dela, em 2008, obteve mais de R$ 80 milhões. E aí voltamos ao primeiro ponto: com expansão do consumo baseada em expansão do crédito puxada pelo governo federal e ampla concessão de financiamentos ao seu setor, como não considerar seu otimismo pelo "copo meio cheio" sem considerar o capitalismo de laços?

Voltando a falar do Diogo Mainardi, vamos lembrar uma entrevista dele com Eike Batista em julho de 2012. Na época, o megaempresário brasileiro era visto como um grande empreendedor, e poucos acreditavam na fala do jornalista, que dizia que o dono do grupo EBX estava ganhando dinheiro em cima de nada. Confira abaixo:


Também vale a pena conferir as previsões de Peter Schiff, economista que previu com razoável precisão a crise econômica de 2008. Ele era igualmente desacreditado. Segue abaixo:


O restante da história nós sabemos: Eike Batista hoje está praticamente falido e a crise de 2008 prevista por Schiff no meio da euforia de outros especialistas aconteceu de fato. Enfim, Trajano pode ter seus motivos para comemorar (e estes foram expostos aqui como nos links), mas vejo um copo pela metade. Só que furado.

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