O ajuste na economia brasileira é inevitável. E urgente

A economia brasileira se aproxima de um acerto de contas que, dependendo das decisões do governo, pode ser fatal (Fonte da imagem: O Ermo do Lampião)
Boa tarde pessoal. Na primeira postagem de 2014, Alex Zanetti, novo membro da equipe do blog, comentou sobre a tempestade econômica que se aproxima do Brasil, tanto pelo cenário ainda incerto da economia internacional, quanto pelas decisões pouco ortodoxas que o governo federal tomou nos últimos anos. Hoje, uma matéria da edição brasileira do jornal espanhol El País me chamou atenção pela urgência que a economia brasileira precisa de ajustes (segundo a autora do texto, Carla Jiménez). Segue abaixo, volto mais tarde para comentar.

"O ritmo de “devagar e sempre” da economia brasileira vai se manter neste ano, segundo o relatório do Banco Mundial, que prevê um crescimento “modesto, mas consistente”, de 2,4% do PIB em 2014, e de 2,7% em 2015. Surpreende, entretanto, o otimismo da instituição  com o futuro do país, ao descrever que o Brasil sairá desse resultado neste ano, “acelerando para 3,7% em 2016”. A melhora das exportações, assim como do consumo interno, viriam a colaborar para esse resultado.

A projeção é vista com cautela por economistas, num momento em que o país debate a falta de ajustes na política econômica do Governo Dilma. “Só vejo esse crescimento (de 3,7%) num governo de Eduardo Campos ou de Aécio Neves”, diz Sérgio Vale, economista da MB Associados, em referência aos adversários políticos da presidenta Rousseff na corrida eleitoral deste ano. Campos é o potencial candidato do PSB, e Neves, do PSDB. “Rousseff sinalizou que não há preocupação concreta com a inflação e faltou firmeza nas concessões, criando um processo de desconfiança do investidor”, diz Vale.

Luís Suzigan, economista da LCA, acredita que o Brasil tem sim potencial para crescer entre 3,5% e 4% na segunda metade desta década, mas para alcançar esse resultado é preciso ajustar desequilíbrios decorrentes de mudanças no ambiente global, “mas também associados a algumas barbeiragens no âmbito interno”, que demandam ações do governo para evitar retrocessos. “A situação fiscal é o que mais preocupa. Os ajustes não precisam ser draconianos, como os que foram implementados recentemente na Europa, por exemplo, mas precisam dar maior consistência ao manejo das políticas publicas a longo prazo, revigorando a confiança corporativa”, explica Suzigan. O investimento privado, fundamental para garantir o crescimento, tem se mantido pouco abaixo dos 20% do PIB nos últimos anos, o que faz o país depender de investimentos estrangeiros, e públicos. Ele lembra que os países latinos que centraram esforços em reformas do gênero, como o Peru, o Chile e a Colômbia, vão preservar taxas de crescimento mais vistosas.

Para Suzigan, o ajuste monetário no Brasil – marcado pela alta de juro - com vistas a manter a inflação em xeque, já parece próximo de se completar. Nesta quarta-feira, o Banco Central brasileiro deve aumentar, uma vez mais, a taxa Selic, hoje em 10%, exatamente para domar o dragão inflacionário, e criar um “escudo” para a volatilidade que se instala com o fim dos incentivos monetários nos Estados Unidos. Já o ajuste fiscal, que prevê gastos públicos austeros, deve ser mais cauteloso do que o necessário neste ano, em função do calendário eleitoral. “Este é um elemento de risco para os próximos anos”, observa.

Vale, da MB Associados, lembra que em anos eleitorais como o de 2014 no Brasil, os gastos públicos sobem e pressionam o índice inflacionário, que em 2013 fechou em 5,91%, perto do teto da meta estabelecida pelo BC, de 6,5%. “Para chegar ao centro da meta, de 4,5%, os juros precisariam estar em 14%”, afirma. Uma taxa nesse patamar, em todo caso, viria a arrefecer a inflação, mas também o consumo e o investimento, e retardaria a expansão da economia.

Agricultura

O Banco Mundial prevê, ainda, que países emergentes, como o Brasil, devem sentir o impacto da redução dos preços das commodities, que estiveram em alta até 2011. Para Anderson Galvão, sócio da Célere Consultoria, especializada em commodities, esta é uma realidade que vale para matérias-primas não alimentícias, como algodão, celulose, ou borracha, mas não para as alimentícias, como soja ou trigo, que ainda têm um ciclo de alta favorável no médio prazo. “Ainda há demanda firme em economias emergentes, que estão comendo cada vez melhor, e aumentam, inclusive, o custo de produção, o que aumenta o preço”, diz Galvão.

O crescimento de 3,7%, acredita, é factível porque a melhora do ambiente em economias mais ricas beneficia o Brasil, e ainda há mudanças em curso no país, como as concessões no setor de logística, capazes de sustentar um crescimento da produção. Ele cita, por exemplo, a concessão feita no ano passado de trechos da rodovia BR-163, que corta o cinturão agrícola do sul ao norte do país. “Somente no Pará, o desenvolvimento dessa rodovia é capaz de ampliar em até 700 mil hectares áreas que são subaproveitadas, do ponto de vista agrícola”, explica. “Todas as cidades que vivem de agricultura no Brasil estão fervilhando e sofrendo com problemas como a falta de mão de obra.”

A indústria, porém, que em tese deveria ocupar um lugar mais destacado no PIB, continua patinando. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor industrial cresceu 1,1% em 12 meses, no acumulado até novembro de 2013. Para a economista Lídia Goldenstein, a indústria brasileira perderam espaço em função da recessão no exterior, mas também pela sua própria falta de competitividade. “Não fizemos nossa lição de casa, não investimos em inovação para ganhar um diferencial competitivo. Isso me deixa pessimista, pois mostra mostra que nossa indústria não está pronta para uma eventual retomada da economia global”, afirma. Mesmo a perspectiva de abertura por meio de acordos comerciais, como o que está sendo discutido com a União Europeia, não se sustentam sem investir onde interessa, avalia. “Pode fazer quantos acordos quiser. Se não houver uma indústria moderna, não tenho mercado no mundo atual.”"

Comentários

Conforme deixa bem claro a matéria, a tendência para os próximos anos é que continuemos com o mesmo cenário apresentado nos últimos três anos: economia andando quase "de lado", restando saber qual seria o desempenho econômico dos BRICS e dos colegas latino-americanos para concluir se continuaremos sendo deixados para trás. Também é compreensível o certo grau de cautela em relação a um possível crescimento de 3,7% para 2016. Mas algumas coisas precisam ser pontuadas em relação aos comentários dos especialistas convidados:
  • Particularmente eu não consigo acreditar em um crescimento de 3,7% em 2016, independentemente de quem assuma a presidência a partir do ano que vem. Isso porque os ajustes na política econômica (tanto fiscal como monetária) já deveriam ter sido executados, mas estes só serão pensados após as eleições. Neste meio tempo (nove meses) podemos ter outros "trancos" que podem antecipar esses ajustes (o que poderia alterar o cenário eleitoral) ou torná-los mais agressivos. Neste último caso, com uma instabilidade social latente desde o término dos protestos no ano passado um ajuste agressivo poderia ter efeitos bastante negativos em seu início de implantação. Além disso, é necessário cautela em enxergar uma retomada do consumo interno (um dos fatores apontados para o maior crescimento no ano olímpico), uma vez que ele é fomentado em boa parte por estímulos fiscais e creditícios capitaneados pelo governo federal (até que ponto isso não poderia estar fomentando uma bolha ao ponto de que esta não resolva estourar antes disso?);
  • O comentário de Sérgio Vale em relação às concessões vai ao encontro de meu ponto de vista, apresentado em uma postagem do dia 23/11/2013 sobre a iniciativa de abrir setores de infraestrutura ao setor privado: essas concessões estão sendo sendo executadas mais pelo choque de realidade de que o Estado não é capaz de cuidar de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos a nível federal do que pela convicção de que conceder à iniciativa privada seria uma melhor alternativa. Duas evidências dessa falta de convicção: farto financiamento dos empreendimentos proveniente do BNDES e em alguns casos o governo mantém participação societária nas concessões. Um "dá e toma";
  • O ajuste na política monetária que já está sendo executado por meio da escalada dos juros implantada desde abril é necessário (apesar de que também foi feito com atraso), porém não é suficiente, uma vez que as previsíveis altas de 0,5 p.p. na Selic apenas provocam um aperto suficiente para a inflação não ultrapassar o teto da meta. É necessário imprimir uma alta maior que a esperada pelo mercado. Creio que 1 p.p. seria interessante, seguida de altas de 0,75 p.p, justamente para passar a mensagem de que o governo federal esta de fato preocupado em fazer a inflação convergir para o centro da meta;
  • Apesar disso, como destacado pelo Vale, uma taxa de juros mais elevada poderia domar a inflação, mas poderia frear o consumo e o investimento, o que esfriaria a (já fria) economia. O que reforça a necessidade de um casamento de uma política fiscal que vise a redução de gastos públicos com uma política monetária que vise "enxugar" a quantidade de dinheiro circulante como melhor medida de ajuste;
  • Sobre o segundo tópico da matéria do El País, também seria mais cauteloso em relação aos entrevistados. Primeiro porque mesmo com a recuperação dos EUA já está em curso desde o ano passado e a da zona do euro ainda está engatinhando (no primeiro caso ainda não foi suficiente para reanimar o PIBinho). E lembrando que nos últimos anos boa parte do crescimento brasileiro se deve ao crescimento da economia chinesa, que girava em torno dos 10% a.a., mas agora caminha para um "pouso suave" em torno dos 7,5% a.a.. Sem contar que isso só reforça o fato de que nosso país ainda depende muito de fatores externos para manter a economia aquecida;
  • Sobre o efeito das concessões na economia, é outro ponto em que a cautela deveria prevalecer, uma vez que as obras necessárias para a modernização na infraestrutura levam um tempo relativamente longo para começarem a dar resultados (pelo menos cinco anos).
Enfim, resumindo: apesar de que existem oportunidades para o Brasil se adequar e evitar o pior nos próximos anos, se alguém espera que os ajustes e a maior abertura à iniciativa privada terão efeito rápido, esqueçam. Mas isso não muda o fato de que estas medidas são necessárias. E urgentes.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva