Queremos continuar em uma "escravidão feliz"?

(Fonte da imagem: Ciber K)
"Um bando de estrangeiros que havia no meio deles encheu-se de gula, e até os próprios israelitas tornaram a queixar-se, e diziam: 'Ah, se tivéssemos carne para comer! Nós nos lembramos dos peixes que comíamos de graça no Egito, e também dos pepinos, das melancias, dos alhos porós, das cebolas e dos alhos. Mas agora perdemos o apetite; nunca vemos nada, a não ser este maná!'" (Números 11: 4-6)

Boa noite leitores. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar uma coluna de Juan Arias, publicada na edição brasileira do jornal espanhol El País na noite de ontem. Intitulada "Somos escravos felizes?", o jornalista e escritor comenta sobre um tipo de "escravidão" que vigora em nosso país nos dias atuais. Segue abaixo o texto. Volto para comentar.

"Como naquela época, também hoje o sucesso dos que nos governam é uma razão direta do grau de satisfação que demonstramos com a nossa própria escravidão. E seu fracasso será também proporcional à nossa capacidade de nos sentirmos infelizes com as correntes que eles nos impõem e que aceitamos.

Quando, em junho passado, o Brasil se lançou às ruas para reivindicar seus direitos, foi como se de repente as pessoas tivessem se dado conta de que, sem perceberem, estavam amarradas a uma sutil escravidão. E os políticos e governantes se assustaram pelo fato de os cidadãos terem deixado de serem felizes com suas correntes. E tentaram tranquilizá-los prometendo-lhes que os libertariam.

Os brasileiros perceberam, de repente, de que eram de alguma forma escravos quando precisavam usar meios de transporte público que poderiam servir também para o gado; ou os hospitais, ou as escolas. Perceberam que se é escravo politicamente, inclusive na democracia, quando é permitido apenas exercer o direito de voto a cada quatro anos, sem poder participar da gestão da vida pública e sem poder contestar os privilégios escandalosos com que se presenteiam os que decidem sobre nossas vidas. Os políticos decidem livremente, por exemplo, seus fabulosos salários. Por que os professores, por exemplo, não poderiam então fazer a mesma coisa?

Perceberam que se é escravo quando você não pode sair com tranquilidade à rua sem saber se será assaltado, violentado ou sequestrado. E, se você for pobre e negro ou de cor, se poderá acabar barbaramente torturado e morto por policiais corruptos, como um Amarildo qualquer. Ou, se você estiver na prisão, se acabará decapitado. Há muitas formas de ser escravo. [...]

Hoje, no Brasil, há aqueles que ainda são forçados a viver em condições de trabalho escravo, e quando são descobertos recuperam sua liberdade.

Mas há também os escravos voluntários. Os que não precisam de um feitor que lhes coloque as correntes nos pés; eles mesmos as colocam. [...]

E, como na síndrome de Estocolmo, chegamos a nos apaixonar pelos que nos escravizam, como, por exemplo, nossos políticos corruptos. Assim se explica que os políticos com menos escrúpulos, os mais desavergonhados, os que mais nos escandalizam, os que roubam com mais descaro, e os que são muitas vezes os mais medíocres culturalmente, acabem sendo os mais votados por nós em nossas urnas.

Sentimos mais fascinação pelo político que soube se impor e brilhar graças às suas formas corruptas de atuar e abusar de seu poder do que pelos que se esforçam em impor a ética na política.

É como as crianças que acabam admirando mais o colega violento, arruaceiro e malandro do que o gentil e generoso, mais o que bate do que o que apanha injustamente, mais o que nos subjuga do que o que nos acolhe.

Qualquer tipo de escravidão, livremente buscada ou imposta pelo poder, é uma arma nas mãos dos que nos governam, sobretudo se somos nós mesmos os que aceitamos livremente essas correntes e até nos sentimos confortáveis com elas. A liberdade às vezes nos dá mais medo do que a própria escravidão.

O Brasil vive um momento especial neste 2014, que se resume em três palavras: Copa do Mundo; possíveis novas manifestações de protesto e a ida às urnas. [...]

Com a Copa do Mundo, será possível analisar a capacidade governamental de realizar, perante os olhos do mundo, um acontecimento dessa envergadura com resultados positivos que nos obriguem a nos orgulhar ou, pelo contrário, que demonstrem que não estávamos preparados nem para fazer gastos públicos milionários que não deixam uma marca positiva duradoura nem para suportar a presença de milhões de estrangeiros com nossas infraestruturas precárias (leia-se, por exemplo, aeroportos, estradas, hotéis, etc.) que desafinam diante dos modernismos e dos estádios às vezes inúteis, catedrais efêmeras da vaidade.

As possíveis novas manifestações de protesto, que desta vez poderiam se realizar sem a presença de grupos violentos, já que as forças da ordem agora estarão preparadas para neutralizá-las, serão um teste que revelará se era verdadeiro aquele despertar de junho passado, em que centenas de milhares de cidadãos revelaram que não queriam continuar sendo escravos da má gestão da vida pública e desejavam poder gozar dos benefícios da modernidade.

Ou se preferem continuar vivendo com as mesmas correntes de sempre – já que as promessas dos políticos, então assustados, ficaram quase todas na gaveta –, sem vontade para continuar reivindicando novos espaços de bem estar para todos, de liberdade cidadã e de uma maior participação na vida pública.

E as urnas de outubro serão o terceiro teste que revelará o grau de escravidão que se deseja perpetuar ou a vontade e capacidade de querer se libertar de certas incongruências políticas, como são nossos protestos contra políticos corruptos para depois continuar votando neles porque, no fundo, nos fascinam mais as sombras do que a luz, e esperamos mais dos violentos e prevaricadores, que tudo prometem embora depois nada ofereçam, do que dos honestos que oferecem menos, mas dos quais caberia esperar uma maior esperança de ressurreição e de liberdade.

Somos assim às vezes: escravos felizes."

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De fato, o texto de Arias é bem interessante no sentido de nos levar a refletir sobre até que ponto estaríamos dispostos a continuarmos submissos ao "as is" da política brasileira. Mas se eu arriscasse alguma resposta ao questionamento do jornalista, ela não seria muito animadora.

Não concordo com a tese de Arias de que os brasileiros queriam necessariamente se libertar de suas correntes. Como comentado em um post do ano passado, do dia 03/07, muitas das palavras de ordem convergiam para uma lógica um tanto estranha: vamos resolver os problemas provenientes da incompetência do Estado com...Mais Estado. Para colocar a cereja no bolo solado, muitos pediam, ao mesmo tempo, redução de impostos. Qualquer pessoa que tenha o mínimo de raciocínio lógico sabe que a "conta" disso não tem como fechar.

A educação está ruim? Vamos pedir mais dinheiro para a educação, mesmo em um país que se investe uma fatia do PIB superior a dos países desenvolvidos e que mesmo assim apresenta resultados catastróficos no ranking Pisa. A saúde está ruim? Vamos pedir mais dinheiro à área. O transporte coletivo está ruim (e caro?). Tarifa zero, mesmo sabendo que os empresários não perderão um tostão com isso, uma vez que terão seu retorno financeiro garantido, enquanto todos, inclusive quem não utiliza o serviço, pagarão indiretamente. Detalhe: como falei sobre impostos no parágrafo anterior, isso tudo em um país cuja carga tributária é semelhante a de alguns países europeus ocidentais, mesmo com retorno em serviços públicos comparável ao de algumas nações africanas e/ou do sudeste asiático. A propósito, vamos a uma pergunta quase que retórica: em quem você confiaria seu dinheiro? Em você ou em Guido Mantega, só por exemplo? Muitos responderiam "nossa, que pergunta idiota, é óbvio que em mim, por que que confiaria o dinheiro em um cartomante nele?". Mas na prática o que se vê é muitos apostando na segunda alternativa.

Enfim, o que está por vir neste ano, sobretudo com a Copa do Mundo, as possíveis manifestações e as eleições deste ano vão nos dar um tira-teima do que aconteceu no ano passado. Mas concordo com o lado "pé no chão" de Arias ao dizer que às vezes somos "escravos felizes". E pior, muitos querem apenas os quitutes oferecidos por nossos "Faraós". Pior ainda: não temos sequer um "Moisés", como teve o povo hebreu.

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