Rolezinhos e a "geração Muppet Beaker"

Será que o Brasil é o país dos "Beakers"? (Fonte da imagem: Claireamus)
Boa noite pessoal. Há três semanas, em uma de minhas últimas postagens de 2013, eu comentei uma matéria do El País (mais precisamente uma coluna de Eliane Brum), em que critiquei o tom coitadista usado na defesa dos "rolezinhos", prática em que centenas de jovens vindos das periferias se reunem para "se divertir" em grandes shoppings localizados em São Paulo, bem como em grandes cidades paulistas. O assunto ganhou um novo capítulo neste final de semana com uma medida drástica: alguns shoppings conseguiram liminares na Justiça para impedir essa prática. Além disso, em um desses "rolés", houve necessidade da ação policial ser mais enérgica, com direito a bombas de gás e balas de borracha. Outra novidade é que a Folha de S. Paulo, da mídia mainstream, resolveu fazer coro à edição brasileira do jornal espanhol e à Carta Capital, tida por alguns como "mídia alternativa", para fazer uma defesa (seja velada ou mesmo explícita) aos "rolezeiros", bem como críticas às ações policiais feitas para conter os tumultos provenientes desses encontros. Bem, nessa altura do campeonato muitos dos leitores devem estar perguntando: "ora, que cargas d'água tem a ver o (Muppet) Beaker com isso?". Calma, explicarei. Sentem-se, preparem seu lanche e relaxem, enquanto leem os próximos parágrafos.

Brasil: um país de...Beakers?

Para tentar entender um pouco sobre o porquê de existirem pessoas dispostas a participar desses encontros, e (diria até) pior, pessoas que defendem as ações dos "rolezeiros" independente das consequências, vejo como necessário recorrer a um famoso personagem de desenho infantil: Beaker. Um personagem dos Muppets, que ficou mais conhecido por falar ou cantar pronunciando "mimimi".








A questão é que muitos brasileiros, por motivos semelhantes ou diferentes ao "Beaker" original, resolveram seguir o "mimimi way of life" do ruivo magrelo. Com um problema: diferente do nosso azarado e por certas vezes inexperiente muppet, alguns simplesmente não teriam nenhum motivo para seguir esse modo de vida.

Muitos devem estar perguntando agora: "por quê"? Existem vários motivos que podem explicar o surgimento dessa "geração Beaker". No caso das crianças, adolescentes e aqueles que estão na juventude (minha faixa etária), temos o afrouxamento (em alguns casos, por que não falar em "terceirização") da educação dada pelos pais: política do "tudo se resolve na conversa", "castigo traumatiza", "tudo se negocia", "vamos dar tudo que nossos pais não nos deram" e outros blá blá blás da "educação moderna" de crianças (isso quando isso não é encarregado à babá, aos tios, avós, ou simplesmente a "babá" eletrônica chamada televisão, computador ou tablet/smartphone, nesse último caso até esses conceitos vão às picas). Na escola, mesmo quando se comete um erro em uma tarefa ou em caso de indisciplina uma simples chamada dos pais é uma das últimas medidas a serem tomadas, afinal, eles confiaram que as instituições de ensino iriam resolver o problema, tanto que em não raros casos pagam - e caro - por isso. Suspender, expulsar, transferir? Em escolas públicas (salvo os institutos federais, ainda) você jamais ouvirá falar disso. Em escolas particulares, talvez. Mas adianto a vocês que mesmo nas "Mecas" no ensino essas medidas disciplinares são cada vez mais raras.

Quando esses garotos e garotas crescem um pouco, independente da origem, esse modelo liberal (por favor, não confundam com o liberalismo econômico, ok?) segue adiante. Se os filhos cometem erros mais graves, às vezes criando problemas com as autoridades, a culpa não é deles, muito menos dos pais. É de "todo mundo". Que acaba sendo de ninguém. O discurso só muda de acordo com o bolso dos pequenos "meliantes": se são pobres, a culpa é das mazelas sociais (mesmo quando os números dizem que tais indicadores passam por uma melhora e ainda assim a criminalidade não cede). Se são ricos, a culpa é da escola, da empregada, dos tios, dos jogos violentos...Ah, a lista é imensa.

Lembra do "vamos dar tudo que nossos pais não nos deram", que inclusive será um dos pontos-chave de minha espécie de "teoria"? Pois bem, nos últimos anos os pais resolveram dar a seus filhos uma infinidade de coisas, inclusive apetrechos em que eles jamais estão dispostos a mexer (para se ter uma ideia disso, eu que digitava, enviava e respondia os emails de meu finado pai, em quase seis anos que ele pôde ter contato com o computador jamais pensou em, digamos, digitar um "a" no Bloco de Notas). O problema é quando isso é feito sem que se dê o senso de que aquilo teve um preço e que foram necessárias horas de trabalho (às vezes com anos de estudo na retaguarda) para que essa "dádiva" fosse dada aos filhos. O efeito disso é que todas as coisas, inclusive os "direitos" que as pessoas tem, acabam sendo vistos como algo que cai do céu ou se materializa simplesmente, não como algo que possui muito valor e que requer um duro esforço para ser conquistado.


Como se isso não fosse o bastante, muitos "não tão pequenos assim" caíram no conto híbrido de Cinderela com Peter Pan e resolveram não só gastar para seus filhos como também para eles mesmos, como se o amanhã não existisse. Afinal, para que se preocupar em trabalhar, investir para só depois comprar se com crédito farto (e barato) dá para comprar tudo (ou melhor, quase tudo) o que sua imaginação permitir? De fogões e geladeiras, passando por computadores até a realização do sonho do carro 0 km ou ainda da casa própria. Finalmente, estávamos a um passo do "felizes para sempre". Estávamos.

Por consequência dessa tendência infantilizadora até mesmo nossa economia foi afetada. Desde a crise de 2008, vivemos a base de rodadas de estímulos: ora isenções fiscais temporárias, ora pelo aumento das prestações dos financiamentos, ora pela redução "na marra" dos juros. O objetivo? Manter a economia aquecida enquanto a Europa e os EUA tentavam sair do "vórtice polar" deixado pela situação de praticamente bancarrota do sistema financeiro. O problema é que esses estímulos vem dando cada vez menos efeito, além de trazer algumas consequências indesejáveis, tanto para as famílias que caíram no "conto" - agora endividadas, como para a economia do Brasil como um todo.

Os protestos de junho, ainda louvado por muitos, são apenas mais uma evidência de como conseguimos, em pouco tempo, criar uma geração de "Beakers": fomos às ruas pedir "direitos" sem ter a menor noção do que isso custa em nossa vida, sobretudo em nossos bolsos. Muitos defendem tais manifestações pelo fato de elas terem conseguido revogar aos aumentos das passagens em diversas cidades do país e ainda pelo fato da "temida" PEC 37 ter sido revogada, mas poucos sabem que isso representou aumento de gastos públicos (que vem de nossos nada baixos impostos) para sustentar o "represamento" das tarifas, muito menos se o Ministério Público melhorou sua eficiência nas investigações ou se ainda estão se preocupando com assuntos mais importantes e não com um "Deus seja louvado" em notas de real, ou ainda para retirar símbolos cristãos de repartições públicas. Para piorar, como disse na postagem anterior, somos capazes de pedir ao mesmo tempo redução de impostos e um Estado onipresente na saúde e educação (mesmo com um investimento em termos de PIB maior que o de muitos países desenvolvidos e figurando na rabeira dos principais rankings da área). Enfim, reclamamos, protestamos, tumultuamos e até quebramos coisas, sem muitas vezes saber do que, como, quando, quanto custa e por que disso tudo. Resultado: mimimi.

Muitos ainda devem estar se perguntando: "mas o que tem a ver isso tudo com os rolezinhos"? Recorro à penúltima postagem de 2013 citada no início da postagem para iniciar a explicação. Mais precisamente, um trecho da coluna de Eliane Brum:

"Se não há crime, por que a juventude pobre e negra das periferias da Grande São Paulo está sendo criminalizada?


Primeiro, por causa do passo para dentro. Os shoppings foram construídos para mantê-los do lado de fora e, de repente, eles ousaram superar a margem e entrar. E reivindicando algo transgressor para jovens negros e pobres, no imaginário nacional: divertir-se fora dos limites do gueto. E desejar objetos de consumo. Não geladeiras e TVs de tela plana, símbolos da chamada classe C ou “nova classe média”, parcela da população que ascendeu com a ampliação de renda no governo Lula, mas marcas de luxo, as grandes grifes internacionais, aqueles que se pretendem exclusivas para uma elite, em geral branca."

Lembra do que eu disse sobre que as pessoas quebraram o ciclo de investir e produzir para só depois consumir, colocando o último a frente de tudo? Pois bem, desejar comprar coisas caras todo mundo já desejou. Eu mesmo inclusive, tanto que citei naquela postagem. A questão é que há uma substancial diferença entre querer as coisas e poder comprar as coisas. E essa diferença, com ou sem crédito farto e barato (afinal, uma hora você precisa pagar pelo que comprou) se chama, dinheiro, estudo e trabalho (lembram do ciclo?). Sem isso, os desejos continuam como tal, e não há "rolezinho" que mude isso. Pelo menos enquanto a pilhagem não receba vistas grossas das autoridades, como já acontece na Venezuela. E reitero o que disse naquela postagem: o problema não está em desejar bens de luxo entrando em um shopping, e sim em como se faz isso. Ou será que o Brasil virou um gigantesco episódio dos muppets onde vários "Beakers" podem "mimimizar" em um shopping? Pelo menos o mimimi do Beaker é mais agradável, em relação ao "Eita porra, que cheiro de maconha" entoado nos "inocentes" encontros.

E os "Beakers" que os defendem?

Assim como existem "Beakers" que "mimimizam" em shoppings, tirando o sossego não só das elites tão mal faladas tanto nos artigos da dita "mídia alternativa" como na dita "mídia burguesa", mas também de trabalhadores, não raramente pessoas pobres (que foram alçadas à "classe média" que pode ter renda per capita de meio salário mínimo), que vão aos shoppings para ter um pouco de conforto, tranquilidade e segurança que não tem no comércio de rua de seus bairros, existem outros "Beakers" que fazem o papel de defensores dos primeiros "Beakers". Mesmo quando em seu discurso de defesa aos primeiros possui falhas grosseiras. Eu mesmo pude apontar algumas delas no artigo de Eliane Brum (confira o primeiro link da postagem). A boa notícia é que nas demais matérias as falhas são muito semelhantes.

Primeiro, vamos à matéria da Carta Capital (você pode conferi-la aqui). Eis um trecho:

"A concentração iniciou às 14, mas foi por volta das 15h que havia mais jovens no local. As três entradas estavam tomadas por adolescentes. A maioria com o estilo parecido. Meninos com roupas coloridas, bonés, correntes, tênis e relógios enquanto as meninas, aproveitaram o calor e colocaram shorts e blusinhas.

Na parte do estacionamento, alguns meninos começaram a subir na grade para pular para dentro. A gritaria, chamou a atenção dos seguranças que foram em direção ao local. Os adolescente vendo a aproximação, pararam de pular. Alguns conseguiram entrar. No entanto, dois foram pegos. [...]

O próximo Rolezinho já está marcado. Será dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo. Quase 22mil pessoas foram convidadas, no entanto cerca de 600 confirmaram presença.

Entre os comentários de desejo para o próximo um internauta dá o recado: “QUERO , É DIVERSÃO , FOTOS , RISADAS , TUMUTUAR ...NESSE EVENTO , NINGUEM AQUI , QUER ROUBAR NÃO”.  No entanto, por conta do “fracasso deste sábado”, alguns já estão pensando em mudar a estratégia de articulação: “o esquema e excluir esse grupo se n vai dar errado igual o 2° , so agente ficar combinando pelo chat mesmo e um ir espalhando pro outro , pq se n vai cair na boca das policia de novo e vao fechar tudo de novo *-* acho q e a melhor coisa a fazer”"

Bem, fica evidente mais uma vez que o problema não é o que eles são ou deixam de ser, e sim o que eles fazem no local. Como mostrado na matéria da própria Carta Capital, o grupo forçou a entrada no shopping, os seguranças agiram para tentar conter o problema, houve tumulto e por fim a necessidade de se acionar a polícia. Normal. Sobre o comentário em relação ao evento, fica o destaque ao termo "tumultuar" (grafaram errado, mas tudo bem, corrijo). Vamos à definição do termo, pelo dicionário Michaelis:

tu.mul.tu.ar 
(lat tumultuare) vtd 1 Excitar ao tumulto; agitar, amotinar, revoltar, sublevar: Tumultuar os trabalhadores.[...]

tu.mul.to 
sm (lat tumultu) 1 Alvoroto, barulho, desordem, motim. 2 Confusão, agitação. 3 Discórdia. 4 Bulício, grande movimento. 5 Desassossego, embate, inquietação, perturbação."

Hmmm...Excitar ao tumulto, que significa desordem, confusão e perturbação (subentende-se por perturbação da ordem pública). Aí vou à Constituição Federal (que ultimamente as pessoas só optam por recorrer para ver seus direitos e não suas obrigações ou ver os direitos dos outros), mais precisamente ao art. 144 e vejo o seguinte:

"Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:

I - polícia federal;

II - polícia rodoviária federal;

III - polícia ferroviária federal;

IV - polícias civis;

V - polícias militares e corpos de bombeiros militares."

Onde está o absurdo agora? Houve a perturbação da ordem pública e consequentemente ameaça à integridade das pessoas e do patrimônio. Como os seguranças do shopping não conseguiram conter a situação, houve a necessidade de se recorrer a uma força que possui o papel de...Garantir a ordem pública. Não sou eu que digo, nem Eliane Brum do El País, muito menos a Carta Capital, e sim nossa "querida" Carta Magna. A não ser que esta tenha se transformado em defensora das elites, claro.

Depois, vejo outra reportagem da Folha de S. Paulo, com uma chamada bastante sensacionalista:

(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)
É claro que a matéria também falou do tumulto provocado pelos "rolezeiros", mas o foco foi na suposta violência policial. Digo suposta porque vi o vídeo e não vi nada de tão excepcional, pelo menos comparado à repressão(em parte excessiva, em parte necessária) aos protestos de junho. O detalhe é que na própria matéria da Folha há alguns trechos interessantes, que vocês poderão conferir abaixo:

"Uma adolescente de 14 anos disse que foi com três amigas ao shopping para participar do "rolezinho" e disse que elas queriam apenas se divertir. "Tive medo. Já fui em outros rolês, mas desta vez a PM estava batendo até em menina", afirmou. A estudante, porém, afirmou que é a favor da presença policial. "Prefiro que tenha polícia, senão seria incontrolável.""

Ou seja, até mesmo entre as pessoas que participam do "rolezinho" tem gente que defende a presença da PM, para garantir que as coisas corram com o máximo de ordem (ou o mínimo de desordem) possível. Seria ela uma "elitista"? Ou apenas uma pessoa com bom senso e que sabe que tumultos em local fechado podem muito bem terminar em tragédias? Mas a matéria não termina por aí:

"Foram presos dois jovens maiores de idade (um sob suspeita de roubo e o outro por furto) e um adolescente foi apreendido sob suspeita de roubo. A PM informou que eles participaram de depredações a lojas do terminal de ônibus Itaquera.

A Polícia Militar informou que a situação era "crítica na estação Itaquera" e que "todo o policiamento está apoiado" para atender a ocorrência. Assim, só terá mais informações "com um pouco mais de tempo." A polícia disse ainda que, durante o confronto no terminal, "diversas lojas foram danificadas."

Em nota, a corporação informou que "no terminal de ônibus, devido ao tumulto, fez-se necessário o emprego de técnicas de controle de distúrbios com uso de munição elastômera (conhecida vulgarmente como "bala de borracha") e de granadas de efeito moral.""

Ah, estava demorando para começar a falar em crimes durante esses encontros...Não estou dizendo que os "rolezinhos" foram marcados com o intuito de promover arrastão, só para adiantar. Mas quem garante que em situações de grande aglomeração não ia haver "espertinhos" querendo "faturar" em cima dos que estavam fazendo compras, dos lojistas ou mesmo de quem estava "só tumultuando"? Lembrando que mesmo em eventos com forte controle e esquema rígido de segurança (como festas em boates e micaretas) já acontece isso, por que seria diferente em um evento promovido em rede social com pessoas se juntando quase que aleatoriamente? Ah, só para que ninguém reclame: as matérias da Carta Capital e da Folha de S. Paulo ocorreram em shoppings diferentes, o que não muda em nada o intuito de minha postagem. E reforça mais uma vez a tese de que o problema NÃO está no que eles são ou deixam de ser, mas SIM no que eles fazem. Tão simples, tão óbvio. Infelizmente, como disse uma vez o economista Rodrigo Constantino no Fórum Democracia e Liberdade ocorrido em 14/10 em Vitória(ES), no Brasil ainda é necessário que se discuta algumas obviedades. Sobretudo para nossos "Beakers".

Encerrando

Espero que esta seja minha última vez no mês em que eu comente sobre este assunto, até porque ele já foi bem explorado na minha crítica à coluna de Eliane Brum no El País (apesar de que será bem difícil que eu cumpra a promessa, se depender do andar da carruagem). Mas fica evidente que toda essa defesa aos "rolezeiros" é apenas um dos sintomas de uma geração (ou pior: várias gerações) de "Beakers". Reclamamos demais e muitas vezes sem ter a noção de como as coisas funcionam. Queremos o to be sem antes conhecer o as is.

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