Seria essa a "alternativa"?

(Fonte da imagem: VEJA)
Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar uma matéria publicada na Veja sobre o programa partidário do PSB (Partido Socialista Brasileiro), que tornou-se mais um player na corrida presidencial deste ano como uma "alternativa" a mais quatro anos de Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. Diga-se de passagem, o discurso de "mudança" proposto pelo pernambucano vem atraindo o interesse inclusive de setores mais conservadores, além de parte do empresariado. Segue abaixo a matéria. Volto depois.

"A construção de uma candidatura presidencial envolve esforços múltiplos, como a formação de alianças, a arrecadação de fundos, a montagem de palanques regionais robustos e a definição de um programa consistente de governo. Eduardo Campos (PSB) vai bem em alguns deles, mas enfrentará dificuldades em outros. O governador de Pernambuco não poderá recorrer à base ideológica do PSB se quiser apresentar um discurso modernizador. Além disso, o relacionamento com os aliados da Rede Sustentabilidade, o quase partido idealizado pela ex-senadora Marina Silva, pode causar problemas ao projeto do presidenciável, especialmente nas coligações estaduais.

Adequar o discurso à prática será uma das missões de Campos nos próximos meses. Os fundamentos teóricos do estatuto do Partido Socialista Brasileiro ainda ecoam o discurso da Guerra Fria. As ideias expostas pelo PSB em seu programa começam pela "abolição do antagonismo de classes". No Brasil dos sonhos do PSB, o Estado não apenas interviria na economia: ele assumiria as rédeas de toda a produção industrial, das exportações e da divisão das riquezas. Instituições privadas de ensino com fins lucrativos estariam com os dias contados.

O programa partidário tem entre seus pontos centrais a estatização dos "meios de produção", o que inclui indústrias e propriedades rurais. Prega a cartilha: "A socialização realizar-se-á gradativamente, até a transferência, ao domínio social, de todos os bens passíveis de criar riquezas". No campo, os donos de grandes propriedades teriam de ceder espaço a cooperativas controladas pelo Estado. O texto cita ainda outras medidas impensáveis, como a "nacionalização do crédito e das operações de seguro" e a "exclusividade da navegação de cabotagem, inclusive fluvial, para os navios brasileiros".

Campos não pode nem afirmar que discorda das ideias do PSB: ele é o próprio presidente da legenda, que teve em seu avô, Miguel Arraes (1916-2005), um de seus principais nomes. O pré-candidato à Presidência – que fez parcerias com a iniciativa privada em sua gestão à frente do Estado – nunca se preocupou em patrocinar uma mudança programática.

Como se vê, o ideário do partido de Eduardo Campos não deve ajudar muito a divulgação do candidato que se apresenta como um bom gestor público e um político livre das amarras ideologizantes. Mas os integrantes do PSB minimizam o problema.

O deputado Júlio Delgado (PSB-MG) diz que, mais do que no programa, o partido vai se basear no exemplo demonstrado por seus governadores, como o próprio Eduardo Campos e o governador Renato Casagrande, do Espírito Santo. "Eu acho que o programa do PSB já é praticado nas nossas gestões, e são programas que mostram que nós praticamos um socialismo moderno", afirma. Delgado admite, no entanto, que alguns pontos mais radicais podem atrapalhar: "Nós temos um congresso previsto para fevereiro. Talvez nós precisemos atualizar essas linhas que não são mais imagináveis numa sociedade competitiva como a de hoje".

O incômodo é ainda maior para Paulo Bornhausen, secretário de Desenvolvimento Sustentável de Santa Catarina e herdeiro de uma política que nunca esteve no campo político da esquerda. Ele admite que seu ingresso no PSB – acompanhado do pai, o ex-governador Jorge Bornhausen, que foi presidente do extinto PFL (hoje Democratas) – não ocorreu por causa da solidez programática dos socialistas: "O que me encantou foi essa possibilidade de estar ao lado do Eduardo Campos, que é um reformador, um político moderno, um homem atualizado, e uma pessoa que tem a capacidade de fazer as modificações de que o Brasil precisa", diz Paulo Bornhausen.

A dissonância entre as propostas do candidato e as ideias do partido são apenas mais um exemplo do caos em que se transformou a organização partidária no Brasil. O Partido Socialista Brasileiro teve entre seus filiados, até o ano passado, o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Paulo Skaf – potencialmente, o primeiro alvo dos socialistas caso eles chegassem ao poder central. Hoje, Skaf migrou para o PMDB para disputar o governo de São Paulo. Vanderlan Cardoso, pré-candidato do PSB ao governo de Goiás, é outro milionário que resolveu aderir à legenda. "A estrutura política do Brasil é esquizofrênica", reconhece Paulo Bornhausen.[...]"

Comentários

Em um país em que um partido com ideias social-democratas ao molde europeu é visto como "direita" (sim, você que é tucano por achar PSDB de direita pode se desiludir neste momento), não vejo com bons olhos a tendência de que a "alternativa" a um programa que flerta com o bolivarianismo na Venezuela e o kirchnerismo na Argentina seja um programa que flerta com o socialismo clássico, ainda que na prática acabe adotando linhas "modernas". A praticamente ausência de candidatos que defendam ideais liberais ou mesmo conservadores é uma constatação ruim para nosso sistema democrático.

Outro fato que pode ser observado (para variar) é a discrepância entre o programado e o praticado pelos partidos políticos no Brasil, desta vez no caso do PSB. Não, não estou defendendo que os socialistas voltem a seguir a cartilha de seu partido, pelo contrário, seria interessante e até mesmo necessário que reduzisse drasticamente o nível de estatismo presente em seu programa. A propósito, muitos partidos de esquerda (mesmo partidos ditos "socialistas") na Europa hoje possuem um discurso mais próximo a de uma social-democracia ou mesmo terceira-via. Mas definitivamente não é compreensível que grupos que seriam até certo ponto malvistos de acordo com o programa do partido se juntem a eles.

E por falar de exemplos, não posso falar muito do Eduardo Campos, mas do Renato Casagrande (já falei um pouco sobre a sucessão ao governo do ES aqui) eu diria tranquilamente que se esse é um dos exemplos a serem seguidos pelo candidato socialista à presidência, a Dilma já pode comemorar sua vitória. Não que eu o considere uma catástrofe como muitos colegas capixabas consideram (acreditem, Vitor Buaiz e José Ignácio conseguiram fazer governos muito mais desastrosos), mas vejo seu governo como mediano apenas. Nada que possa ser visto como "exemplo".

Enfim, ao que tudo indica, antes de votar alguém que se identifica com ideais liberais e/ou conservadores terá que tomar doses cavalares de Engov antes de escolher seu presidente.

Confira no blog Tartaruga Democrática, de Arthur Rizzi:

O Espectro político no Brasil (Parte 1)

Espectro Político no Brasil (Parte 2)

Lembra da estratégia leninista das tesouras?

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