Precisamos de um projeto político frontal, FHC...É isso que precisamos

(Fonte da imagem: El País)
Boa noite pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar a entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) à edição nacional do jornal espanhol El País, em que ele conversa sobre o atual cenário político-econômico do Brasil. Alguns pontos deste bate-papo são interessantes, seja pelas minhas concordâncias, seja pelas minhas discordâncias em relação ao tucano. Segue alguns trechos da mesma em azul, intercalado com meus comentários.

"Pergunta. Há algum tempo parece que acabou o idílio dos mercados com o Brasil, que a confiança se perdeu. O que está acontecendo?

Resposta. Exageraram sobre os sucessos, como agora estão exagerando com as dificuldades. Nem antes voávamos tão alto, nem agora estamos tão mal. Perdeu-se o ímpeto das condições externas favoráveis e das reformas anteriormente feitas, que na verdade não aprofundamos. Não percebemos que vivíamos uma janela de oportunidade, não um estado permanente. O Governo Lula teve um erro estratégico e outro de gestão. O primeiro foi a crença de que haveria um declínio do Ocidente, o que, salvo o caso da China, é discutível. Acho ótimo que as relações Sul-Sul tenham sido fortalecidas, mas não em detrimento das relações com o mundo ocidental. Além disso, houve também uma espécie de grande ilusão, como se a pedra filosofal tivesse sido descoberta, com o crédito e o consumo como chaves do crescimento. E isso é metade verdade, a outra metade é que falta investimento. Foram paralisadas as reformas e existiu também um temor metafísico das privatizações, o que paralisou o investimento em infraestruturas enquanto havia abundância de capitais."

Discordo do FHC quanto à abertura de sua fala. De fato não voávamos tão alto, visto que em comparação aos demais emergentes ou mesmo na América Latina não tínhamos as maiores taxas de crescimento. Mas na fase de "arrefecimento" também continuamos na mesma situação. Ou seja, não estávamos tão bem e agora estamos mal. Sem contar as "descobertas da pólvora" feitas pelo tucano, de que na economia deveríamos ter ciclos alternados de investimento e consumo para que haja um crescimento sustentado e de que as gestões petistas jogaram fora a oportunidade de criar um ambiente que favorecesse tal crescimento.


"P. Pelo que o senhor diz, parece que o país está sequestrado pelos preconceitos ideológicos do PT.

R. Sim, acredito que haja algo assim. Não tanto no sentido do socialismo, mas no sentido da ingerência estatal. Aqui não há nada de socialismo. O que há é a visão de que a alavanca governamental pode tudo. Criaram realmente um casamento entre as empresas e os bancos públicos. Eu sempre digo que o que importa é que existam regras de mercado, não de negócios. Negócios não são algo que o governo tenha que fazer."

Concordo por um lado e discordo por outro. Concordo no sentido de que o governo de fato usou e abusou do estatismo como meio de desenvolver a economia. E discordo no sentido do tucano não considerar que tal aumento do controle do Estado na economia não possua um viés socialista e que o "casamento" entre empresas e bancos públicos (o BNDES é o melhor exemplo disso) pode ser visto apenas como uma questão de conveniência (maior controle do Estado sobre a economia e menor risco de atritos com as classes empresariais). E lembrando que esse "casamento" acaba ajudando a criar distorções na concorrência e no mecanismo de incentivos, que passa a ser "quem puxa mais saco do governo" e não "quem atrai mais o mercado".

"P. Alguns analistas afirmam que o PT confunde partido e Estado.

R. Pois é. A diferença entre o PSDB e o PT não é a política econômica, é a política. A ideia de se a sociedade civil deve ter um papel maior ou menor. Estamos voltando a uma situação que tem raízes profundas no Brasil e no mundo ibérico. No México, quando o PRI assumiu, tinha uma frase que resumia isso, aquela de que “fora do orçamento não há salvação”. Aqui estamos nos aproximando disso. Todos querem ter um pedaço do orçamento, que não é de esquerda nem de direita. É corporativismo e clientelismo."

Pois é, mais uma vez o recado foi dado para aqueles que ainda enxergam algum traço de "direitismo" nos tucanos: as diferenças entre PT e PSDB são pontuais. Em alguns casos o objetivo final acaba sendo o mesmo, apenas variando os meios para alcançar esse objetivo. Demonstrações disso não faltam: vão desde o Alckmin com uma renca de bonés de estatais para rechaçar qualquer especulação de que haveria novas privatizações caso fosse eleito em 2006 até mesmo o discurso de "reestatização" da Petrobras e de transformação do Bolsa-Família em política de Estado defendido por Aécio Neves (em tempo: não sou a favor do fim do programa social e sim de uma reformulação, de forma a garantir portas de saída a seus beneficiários). Sem contar outra constatação óbvia de FHC: aqui no Brasil o fisiologismo, muitas vezes, prevalece sobre a ideologia.

"P. No entanto, parece haver quem queira outra coisa.

R. Sim, as manifestações populares vão nessa direção. Não têm consciência plena de seus objetivos, mas expressam um mal-estar. Não tenho certeza de que o Governo ganhará as eleições. Tem chances de ganhar, tem poder, tem recursos e tudo isso, mas há um sentimento de mal-estar que não é exatamente um sentimento antigoverno ou anti-PT. É um sentimento mais generalizado. Há tanta propaganda de que o Brasil é uma maravilha, do Brasil oficial…, mas existe o Brasil real, que tem problemas. Não é tão mau como antes, melhorou, mas as pessoas querem mais. Querem uma coisa que antes não queriam com tanta ênfase: qualidade e justiça. Não sou pessimista, mas, como pano de fundo, há uma crise mundial da democracia representativa. É uma situação delicada, que exige uma liderança com mais visão."

Eu gostaria de ter a mesma dúvida que o FHC tem, mas ainda acredito que a Dilma venha a ganhar. E mais, ganhar no primeiro turno, com folga sobre os concorrentes. Tudo pelo motivo que está no título desta postagem: falta um discurso político frontal. Tudo o que temos são discursos políticos tangenciais (o que inclui o dos tucanos), quando não acabam sendo radicalizações do "as is" do discurso de situação. E a pauta dos protestos não ajuda muito (apesar de também não ajudar o governo), uma vez que os reclamos das ruas não estão muito bem definidos. Ao mesmo tempo que se pede redução de impostos, também se pede mais "direitos" por parte do Estado (essa incongruência tratei em uma postagem do dia 03/07). Fora isso, concordo mais uma vez com o tucano.

"P. Também existe a sensação de que falta um projeto nacional.

R. É um pouco isso que ocorre. Falta alguém que formule o projeto, de maneira acessível, para a população. É preciso usar uma linguagem mais verdadeira. Aqui as pessoas estão acostumadas a um discurso que não é sincero. A crise não nos afeta, a culpa é do estrangeiro etc. Não. Temos problemas, podemos vencê-los, mas temos problemas. Tomara que algum candidato, espero que do meu partido, tenha a coragem de dizer as coisas com sensatez, de uma maneira que convença as pessoas de que há um caminho. E não é fácil, porque perdemos um bom momento para continuar ajustando o Brasil."

Outra coisa que concordo com FHC: temos projetos de poder e quando muito, projetos de governo. Mas não (para não dizer NUNCA) tivemos projetos de Estado para o Brasil. Um projeto que, independente de partido ou ideologia, permita aos governantes identificarem e assumirem os erros, corrigi-los e aperfeiçoar o que está bom. Mas não FHC, o Aécio Neves não está tendo nem de longe essa coragem de dizer bem claro que estamos na direção errada. Enfim, falta o discurso frontal.

"P. O senhor acredita que o Brasil entrará em recessão neste ano?

R. O crescimento será pequeno. Acredito que chegará o momento em que, quem quer que seja o ganhador das eleições, deverá ser feito um ajuste. Provavelmente em 2015. E, seja quem for o governante, passará por momentos difíceis, porque o ajuste sempre é duro. Não sou pessimista sobre o Brasil, porque as bases da economia são boas... Mas isso não significa que o Governo não tenha que tomar medidas. Em termos comparativos, o México está melhor agora porque está vinculado aos Estados Unidos, e os mexicanos estão fazendo algumas reformas. Demoraram muito para fazê-las, mas agora estão fazendo. Há energia e espírito para fazê-las. A Colômbia também."

Também não acredito que venhamos a entrar em recessão no próximo ano, porém acredito em um retorno de um crescimento pífio, em relação até mesmo ao padrão observado no governo Dilma. Mas acredito que tão logo o clima eleitoral se dissipe, o ajuste na economia precisará de ser feito, inclusive com a restauração das bases econômicas que sofreram certa erosão nos últimos três anos pelo menos. Este último ponto, portanto é mais uma de minhas discordâncias em relação a FHC.

"P. Inclusive o Peru.

R. Sim, os países do Pacífico. O Brasil perdeu importância na América Latina. O que está acontecendo agora na Venezuela. Qual é a palavra do Governo do Brasil?

P. Houve uma declaração do Mercosul…

R. Foi uma vergonha. O Brasil não tem essa posição, não pode ter essa posição. Perde relevância assim. O Governo, desde a época do Lula, tem sido muito temeroso com o que acontece no arco bolivariano, sem se dar conta de que o outro arco, o do Pacífico, está avançando e nós estamos isolados. Acredito que chegou o momento de mudar quem manda hoje. Não digo que eles não possam voltar, nem acredito que tudo o que foi feito estava errado. Não estava. Mas chegou a hora. Quatro anos de mais do mesmo é perigoso. Ainda que nos próximos quatro anos o Governo entenda que precisa fazer coisas, fará contra o seu sentimento mais profundo, e isso não funciona bem."

De fato, se fosse para fazer uma declaração conjunta com os membros do Mercosul protegendo alguém que ataca indiscriminadamente sua população era melhor ficar calado. E também concordo que mais quatro anos com o mesmo projeto político pode ser negativo para o país, ainda mais com esse clima de desconfiança que ainda predomina nestes últimos meses.

"P. Por que a oposição ainda não consegue se mostrar como algo distinto, como uma verdadeira alternativa?

R. Acho que faltou a convicção de que o que diziam era correto. Houve uma espécie de rebaixamento ideológico. As pessoas acreditaram muito na palavra do PT. É preciso ser mais frontal. Agora há possibilidades porque eles estão agindo mal. Agora há mal-estar, é o momento no qual todos podem escutar outra voz. Tomara que ela exista e que seja ouvida. Hoje, pela primeira vez, vamos para eleições em que setores importantes do Governo passaram para a oposição: Marina Silva e Eduardo Campos. Os dois foram ministros do Lula. Isso significa que provavelmente a diferença de votos tão forte que Dilma obteve no Nordeste e no Norte do país não irá se repetir. Primeiro porque Campos é do Nordeste, de Pernambuco, e tem força ali. Segundo porque a oposição ganhou na Bahia, em Alagoas, em Sergipe, no Piauí, no Pará e no Amazonas. Isso provavelmente diminui a votação de Dilma por lá, e de São Paulo para o Sul nós sempre ganhamos. Aécio Neves tem a vantagem de ter Minas Gerais, que é um Estado forte. A briga estará em São Paulo e, até certo ponto, no Rio de Janeiro. Há melhores oportunidades. Se serão concretizadas ou não depende não só da economia, mas da Copa do Mundo, do sentimento das pessoas, do desempenho dos candidatos. Porque em países como o Brasil, em que os partidos contam pouco, o que conta são as pessoas."

Exatamente o ponto que eu havia falado antes. O grande problema da oposição (e neste caso falo da oposição tucana) foi nos últimos 12 anos tentar fazer um cosplay do discurso petista. A questão é não sendo problema o preço, que produto é preferível: o genérico ou o "de marca"? É claro que é o "de marca". Enfim, falta um discurso que realmente faça oposição ao que temos hoje. E mais uma constatação infeliz, mas verdadeira de FHC: as posições partidárias, no final das contas, são pouco relevantes.

"P. Que reformas são prioritárias?

R. A primeira reforma é a política. É difícil imaginar que seja possível um país funcionar com 30 partidos no Congresso e 39 ministérios, é uma receita para a paralisia do sistema. Esse sistema precisa mudar, mas não há força no interior dos partidos que se mova nessa direção. Quando fizemos a Constituição, nunca imaginamos que existiriam 30 partidos, que não são partidos, mas grupos de interesse que buscam participar do saque ao Estado."

De fato, é necessária uma reforma política em nosso país para evitar a proliferação das "legendas de aluguel", que são os tais grupos de interesse citados pelo ex-presidente. Dois caminhos para isso seriam: o fim do Fundo Partidário e a cláusula de barreira, infelizmente considerada inconstitucional em nosso país (esta não só evitaria as legendas de aluguel, como também evitaria o surgimento de legendas extremistas). Quanto à reforma ministerial, a lógica que defendo nisso é bem simples: se há duas ou mais áreas que se sobrepõem em sua atuação, elas devem se fundir. Um exemplo disso é que não haveria necessidade de existir Ministério dos Transportes, Secretaria dos Portos e Secretaria de Aviação Civil. Apenas o primeiro.

"P. Na relação de Brasil com Cuba, o que pesa mais? A busca de benefícios ou as razões ideológicas?

R. Existem as duas coisas. O que mais me preocupa é por que as coisas não são feitas com mais clareza, por que os acordos são tão secretos. Por si só, que o Brasil esteja se posicionando no Caribe não é ruim. Nunca tive posição anticubana, nunca apoiei o embargo norte-americano. Mas o modo como as coisas são feitas dá a impressão de que há algo mais ideológico do que pragmático."

Faço a mesma pergunta: se é tão vantajoso assim, por que criar tanto segredo em torno disso? E por que pensar em uma parceria "de primeira ordem" com um país que hoje é "traço" no comércio internacional? Por que não reforçar os laços comerciais com os EUA ou mesmo com a China, nosso atual primeiro parceiro?

"P. O que deve mudar no PSDB para que o Brasil se case novamente com o partido?

R. Acreditar que tem algo de melhor qualidade para oferecer ao povo. Os brasileiros querem padrão global, melhor saúde, melhor educação, melhor segurança, melhor transporte… É preciso demonstrar que é melhor modernizar em benefício do povo do que não fazer nada e fazer demagogia. O candidato deve inspirar confiança. O que falta a Dilma é essa confiança de que ela é capaz de levar o país adiante. Agora por parte dos setores altos e médios, amanhã do povo."

E o discurso frontal que o seu partido, FHC, não tem. E ao que tudo indica, nem o Aécio, que dos três me parece o mais "centrista". Se tudo continuar como está teremos outra disputa nivelada por baixo. E pior, não há a garantia nem do "menos ruim" vencer.

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