"Trilogia" Eliane Brum: o poste, o menino e o contorcionismo verbal

(Fonte da imagem: El País)
"Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade." (Joseph Goebbels, ministro de propaganda de Hitler)

Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar mais um capítulo da "trilogia" de nossa grande jornalista Eliane Brum (você pode conferir os capítulos anteriores aqui e aqui), que em sua coluna na edição brasileira do jornal espanhol El País, resolveu destilar suas bobagens comentar sobre o caso do garoto preso a um poste no dia 31/01. O texto dela segue abaixo em azul, e ao longo do mesmo farei comentários.

"Precisei escutar o discurso do bem. O que dizem aqueles que acorrentaram um menino negro a um poste com uma trava de bicicleta no Flamengo, no Rio, em 31 de janeiro. Aqueles que cortaram sua orelha, aqueles que arrancaram suas roupas. O que dizem aqueles que defendem os jovens brancos que torturaram o jovem negro. Eu sei que os homens e as mulheres que evocam o direito de acorrentar adolescentes negros em postes, cortar a sua orelha e arrancar suas roupas porque se anunciam como homens e mulheres de bem – e homens e mulheres de bem podem fazer tudo isso – estão ao meu redor. Eu os encontro na padaria, os cumprimento no elevador, agradeço a eles quando me permitem atravessar na faixa de segurança. Eles estão lá ao ligar a TV. Mas o que eles dizem que é preciso escutar?"

Para começo de conversa, ele foi amarrado ao poste por ser negro ou porque ele era suspeito de praticar furtos na região? Não, não estou dizendo que o tratamento a ser dado nessa situação deve ser este, até porque sou radicalmente contra a justiça com as próprias mãos (como explicarei no próximo comentário). Mas fica evidente que o cerne da questão não tem nada a ver com o que o garoto é ou deixa de ser e sim o que ele faz ou deixa de fazer, da mesma forma que tratei a questão dos "rolezinhos" e a visão distorcida da jornalista (para variar).

"O discurso do bem cabe em poucas frases. O Estado é omisso. A polícia é desmoralizada. A Justiça é falha. Diante desses fatos, e todos os fatos são sempre inquestionáveis no discurso do bem, acorrentar jovens negros em postes com trava de bicicleta, cortar a sua orelha e arrancar suas roupas é um direito de legítima defesa dos cidadãos de bem. Se quiserem torturar o menino negro, como fizeram, eles podem, assegura o bem. Se quiserem matá-lo, eles podem, também. E alguns o fazem. Meninos negros não são meninos. Não é preciso investigação, não é preciso julgamento, não é preciso lei. Os cidadãos de bem sabem, porque são a lei. Também são a justiça. O menino é um marginalzinho, é também um vagabundo, diz o bem. E bandido bom é bandido morto, garante o bem. Se você não pensa assim, o bem tem um pedido a lhe fazer: faça um favor ao Brasil, adote um bandido. Simples, direto, objetivo. O discurso do bem orgulha-se de ser simples, orgulha-se de só ter certezas. A dúvida atrapalha o bem. E o bem não deve ser perturbado. E como duvidar que acorrentar um menino negro a um poste pelo pescoço, cortar a sua orelha e arrancar suas roupas é o bem?"

Mais uma vez, a insistência brumiana de inferir que o garoto teve esse tratamento por ser negro. O que dizer desses casos semelhantes ocorridos em Santa Catarina e Mato Grosso do Sul (só para citar alguns)? Houve alguma comoção por parte da turma coitadista de plantão, incluindo a colunista? Nenhuma, afinal, como dito pelo Rodrigo Constantino em seu blog na Veja, ambos não fazem o "tipo perfeito" para que sejam dignos de pena dessa mesma galera. Mas enfim, apenas reforça a tese de que a questão é comportamental.

Sobre a questão da justiça com as próprias mãos, meu ponto de vista é simples: ela não é justificável nem defensável, mas ocorre em um contexto de um sistema em que a segurança pública e a justiça estão em situação de falência ou próxima a isso, que se enquadra muito bem na situação brasileira. E também não defendo a visão de que "bandido bom é bandido morto". Mas prefiro vê-lo morto a vê-lo violentando ou matando um cidadão de bem. É apenas uma questão de senso de prioridade. Em vez de pura e simplesmente atacar os "justiceiros", o pessoal que gosta de invocar seletivamente os direitos humanos em favor de bandidos faria um enorme favor ao país se invocasse ao Estado políticas públicas de prevenção à violência (até que fazem isso, admito) concomitantemente com uma legislação mais rigorosa no sentido de assegurar a punição para aqueles que cometem crimes. Tão simples, mas tão difícil...

"A maioria (79%), pelo menos no Rio de Janeiro, segundo pesquisa do Datafolha, é contra acorrentar jovens negros a postes. (O maior índice de aprovação aos justiceiros é encontrado entre os brancos, os mais ricos e os mais escolarizados, e este é um dado importante.) Mas o poste/tronco é apenas a imagem extrema, hiper-real, do que a maioria convive, dia após dia, sem perceber que deveria ser impossível conviver com o fato de que uma parte da população brasileira tem menos tudo, inclusive vida. A abolição incompleta da escravatura está em todas as horas do Brasil. Se não fosse mais conveniente ser cego, enxergaríamos jovens negros presos a postes pelo pescoço o tempo todo. O que a quadrilha de jovens brancos, de classe média, fez ao acorrentar o jovem negro a um poste foi uma interpretação literal da realidade cotidiana. Porque seu pensamento é simplista, direto, objetivo, escancararam o que se expressa no dia a dia de formas menos explícitas. O que os brutos realizaram, porque esse também é o papel dos brutos, é a materialização de uma realidade simbólica com a qual convivemos sem pruridos. Ao fazê-lo, os justiceiros nos dão, de novo, a chance de exaurirmos nossa omissão em ruidosa revolta, e voltar esgotados de imagem para o sono dos justos."

Para ser honesto, o resultado não surpreende tanto, mas vejo isso como um voto de confiança para as autoridades, justamente para se evitar a barbárie que se poderia ter com cada um exercendo o papel de polícia, juiz e executor das punições (volto a repetir, sou contra a justiça com as próprias mãos, mas a enxergo como resultado de uma ingerência do Estado). E acredito que até mesmo em todo o país, as pessoas ainda prefiram ver o poder público fazendo o seu papel nesse sentido. Porém mais uma vez, quase que como papagaio (eu pulei vários parágrafos do texto até porque ela falou da mesma coisa), a colunista de El País insiste no mantra insinuante de que isso ocorreu pelo fato do garoto ser um jovem negro. E insisto na pergunta: qual seria a explicação para os outros dois casos? Pelo critério racial, provavelmente não seria nenhuma. Até porque não dá para criar nenhum estereótipo que chame a atenção de Brum e seus colegas "conscientes".

Mais do que simplesmente mostrar o quanto a tese brumiana é um tanto ilógica, fica evidente a sua insistência em reiterá-la, quantas vezes necessário, para torná-la razoável a seus leitores. Parece que sem querer (ou não) ela lembrou da frase que abre esta postagem. Mas diferente de Rachel Sheherazade, ela será vista como consciente e defensora dos "oprimidos".

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