Especial: "Não Vai Ter Copa" - Por que enxergo isso como uma tremenda babaquice

(Fonte da imagem: Exame)
Boa noite pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para abrir a série especial de dois anos do blog (a se completar no dia 18 de abril) com uma postagem sobre um assunto recorrente e um tanto polêmico: os protestos contra a Copa do Mundo, que são uma nova onda das manifestações que eclodiram no Brasil a partir de junho do ano passado. Cabe lembrar que só nos três primeiros meses dessa modinha desde que surgiram as manifestações comentei sobre o assunto em pelo menos quatro momentos (vocês podem conferir aqui, aqui, aqui e aqui). Também cabe lembrar que o que vou dizer pode decepcionar a alguns leitores mais empolgados com a onda de insatisfação em relação ao governo atual, mas uma visão mais fria e pragmática da situação os levarão a compreender o meu ponto de vista nesta postagem (e nas próximas que eu eventualmente fizer sobre o mesmo tema ou sobre temas correlatos).

Sim, ficar saindo nas ruas para dizer "Não Vai Ter Copa" é babaquice. E explico o(s) porquê(s)

Bem, provavelmente alguns devem ter se assustado com o título desta primeira postagem especial, até porque é raro eu usar chamadas tão agressivas para o que escrevo neste blog. Mas reitero: protestar contra a Copa é, simplesmente, uma babaquice. Não adianta chorar, espernear, ficar de mimimi ou querer me xingar no Twitter , continuo dizendo que protestar contra a Copa é uma tremenda babaquice. Finalizada minha insistente ponderação, explico alguns dos porquês.

Primeiro, o ditado óbvio que resume a situação: não se chora pelo leite já derramado. O rombo dos cofres públicos nas diferentes esferas de governo em relação as obras do evento (sobretudo em relação aos estádios) já foi feito. Diversas obras que serviriam de legado da Copa para a população (aeroportos e mobilidade urbana, por exemplo) foram simplesmente canceladas ou retiradas do escopo de projetos a serem executados, ou seja, só serão concluídas depois do Mundial. "Ah, tudo bem, isso não é novidade", "O que você está falando é óbvio", vão dizer alguns espertos. E concordo, não é novidade muito menos é óbvio. A questão é que os alertas de que isso poderia acontecer não é de agora, nem do ano passado, mas de pelo menos, do período entre o evento realizado na África do Sul e o evento a ser realizado aqui (vocês podem conferir o que eu disse aqui e aqui). Mas claro, mesmo a grande imprensa - tanto dita por muitos como "burguesa" e "golpista" - fazia pouco caso do que seria uma oportunidade ímpar de incompetência e corrupção (afinal, quem disse que isso acontece no Brasil? Imagina...). E boa parte daqueles que hoje estão nas ruas criticar os gastos com o evento também não faziam caso disso. Talvez acreditando que os vícios de um país já acostumado a torrar dinheiro em obras públicas sem muito sentido (isso na hipótese mais otimista) simplesmente desapareceriam e que, finalmente, teríamos de fato a "Copa das Copas".

A propósito, sobre gastos, é outro motivo que me leva a repetir a opinião do título desta postagem. Muitos saíram, saem e sairão às ruas para bradar que o dinheiro que foi gasto na Copa poderia ter sido gasto com educação e saúde (e comentei isso no segundo link das postagens sobre os protestos na introdução desta). Sim, poderia, e de fato a intenção seria bem melhor. Mas como disse nas oportunidades que tive para comentar sobre as ondas de protestos (você pode conferir outra delas aqui), achar que simplesmente encher uma piscina de dinheiro - do meu e do seu dinheiro, diga-se de passagem - e "investir" em saúde e educação não resolve o problema. Fosse o dinheiro o problema, o Brasil já desfrutaria ou começaria a desfrutar de um bom desempenho em educação a nível internacional, só para fins de exemplo. O país já investe na área mais do que a média dos países desenvolvidos (e peço desde já desculpas por ter usado um dado de 2012 sobre o percentual do PIB, o dado de 2013 aponta uma proporção ainda maior), mas perde para países emergentes que investem menos. No caso da saúde, ainda é possível nos darmos ao benefício da dúvida, mas o fato é se alguém pensa que tirar o dinheiro dos estádios para financiar infraestrutura e mão-de-obra ligada à saúde e educação públicas seria a mágica para solucionar os problemas de ambas as áreas, está muito enganado. Mais que pura e simplesmente dinheiro (e muitas vezes isso pode não ser o problema, como é o caso da educação), o problema em ambas as áreas no país é de gestão.

Portanto, não adianta reclamar agora por algo que alguns já previam com pelo menos quatro anos de antecedência (e muitas vezes eram tachados de pessimistas tanto pelo governo, como pela imprensa, como até mesmo por muitos que estão agora nas ruas tentando fazer um desencargo de "consciência" cívica). Sair por aí gritando "Não Vai Ter Copa!" e querer apoiar atos que coloquem em xeque a viabilidade do evento no Brasil será uma babaquice ainda maior (como se o que já rolou desde junho não fosse tão babaca assim). Só reforçaria a imagem de que fomos, somos e (provavelmente) seremos incompetentes para organizar um evento internacional e "vender" a imagem de nosso país ao exterior. E como consequência, tornaríamos um país ainda mais inóspito para aqueles que querem investir, gerar empregos e renda, mesmo se esses forem nacionais. Enfim, o que quero dizer é que estaríamos nos prejudicando com isso.

Então não devemos protestar? Ou mais além, não temos motivos para protestar?

Claro que não, caros leitores. Motivos para protestar em nosso país não faltam e isso expliquei no segundo link no terceiro link do parágrafo de abertura desta postagem: má condução da economia, carga tributária elevada (em relação ao que é oferecido em troca), má qualidade dos serviços públicos, leniência com a corrupção, entre outros. Se fosse pensar por esse sentido, até eu teria motivo para me juntar a aqueles que gritaram "o gigante acordou". Entretanto, como cheguei a explicar em minhas postagens no ano passado sobre o modus operandi dos protestos, é necessário certa lógica e coerência antes de sair às ruas para se manifestar contra "tudo isso que está aí".

Parafraseando James Carville, estrategista de campanha de Bill Clinton: "(não) é (só) a economia, estúpido!" (Fonte da imagem: Examiner)
Primeiro, quero reiterar o que falei em diversas postagens neste blog sobre o assunto: não se protesta contra a ingerência ou incompetência do Estado pedindo mais Estado. Parece uma obviedade para mim e para alguns que compartilham a mesma visão da minha, mas infelizmente, como disse o economista Rodrigo Constantino no Fórum Democracia e Liberdade realizado em outubro do ano passado em Vitória (ES), aqui no Brasil é necessário se explicar coisas óbvias.

Vamos a um exemplo bem simples: pense em um desenhista de projetos de arquitetura ou engenharia que utiliza aquele material-padrão (compasso, esquadros, caneta nanquim, papel vegetal, etc.) para poder fazer seus projetos. Um belo dia, alguém resolve "investir" nesse desenhista comprando um notebook com um software CAD instalado, e de brinde um mouse USB (afinal, usar touchpad para desenhar no computador portátil é uma desgraça, vai por mim). Mas, infelizmente, ele não resolve "gerenciar" (neste caso seria treinar) o cidadão para usar a nova geringonça, afinal, tudo agora está resolvido com ela. O mais provável de acontecer nessa situação é que, após algumas semanas apanhando do "brinquedinho" novo ele voltaria à "tecnologia" antiga e faria seus desenhos numa boa, ainda que levando mais tempo que um desenhista que usa o CAD. Ou caso tentasse ser um autodidata, iria com o tempo aprender a desenhar, mas até lá levaria bem mais tempo que os seus colegas que já usam a ferramenta computadorizada. Em ambas as situações, temos desperdícios de tempo e dinheiro. Esses dois últimos poderiam ser utilizados para se fazer um novo investimento na mesma categoria ou em outras.

Infelizmente, é com essa lógica irracional (ou pior) que o Estado "investe" em uma área. Milhões (às vezes, bilhões) de reais provenientes de nossos impostos são "investidos" em áreas que muitas vezes são de grande interesse para a população, mas isso acaba não se revertendo em benefícios para esta. O caso da educação, citado no tópico anterior desta postagem, é emblemático: investimos a mesma proporção (ou até maior) do PIB em relação a alguns países desenvolvidos, mas perdemos para estes e para alguns emergentes. O problema é realmente dinheiro? É evidente que não. O problema é como esses recursos são distribuídos e, principalmente geridos. Uma alternativa à tentadora (mas evidentemente pouco eficaz) ideia de injetar mais recursos ao ponto de termos 10% da soma de nossas riquezas investidas na área seria difícil de explicar somente nesta postagem, mas em uma parte da resenha que fiz do livro Privatize Já você pode ter uma noção do que defendo.

Porém, é claro que diferente da educação, outras áreas podem receber - e recebem - de fato menos recursos do que deveriam para funcionar com qualidade. Mas isso não muda o fato de que injetar recursos pura e simplesmente na saúde, educação ou em qualquer outra área não será a chave para um país fantástico. Muito menos defender aumento de salários para servidores públicos sem qualquer exigência de contrapartida de desempenho (apesar de que concordo que algumas classes destes recebem pouco pela função que executam). Lembrando que boa parte desse dinheiro a mais que provavelmente você está pedindo vem...Dos impostos que você paga. Entendeu onde quero chegar com todo esse papo?

A propósito, vou mais além: é realmente necessário que o Estado tenha que assumir as funções que ele possui hoje: que além de saúde, educação e segurança pública/justiça, ele assume papel forte em transporte, energia, sistema financeiro, isso sem falar no sem-número de estatais que ele possui? Que vantagem você vê, por exemplo, no petróleo ser "nosso", por meio da Petrobras, estatal que monopolizou o petróleo durante décadas e mesmo hoje possui privilégios na exploração do recurso? Que vantagem você vê, por exemplo, sua carta poder ser entregue somente pelos Correios e não por uma DHL, UPS, FedEx, entre outras? Que vantagem você vê em matricular seu filho em uma escola pública e não, por exemplo, no Estado te fornecendo um voucher em que você poderia matriculá-lo em uma escola particular (detalhe: em alguns casos o custo por aluno na rede pública sai mais caro que em certas escolas da rede privada)? Que vantagem você vê em pagar impostos para bancar nossas estradas, que usando ou não, são notoriamente ruins, e não um pedágio, que é uma cobrança mais justa, uma vez que quem mais utiliza a via pagará mais? Enfim, são várias as perguntas que poderiam levar, no mínimo, a um questionamento sobre a necessidade das esferas de poder público aumentarem sua participação na sociedade, sem uma evidente revisão de conceitos.

O segundo ponto que deveria entrar na lógica dos protestos é: pare com derrotismos políticos. Pode parecer estranho isso que estou dizendo, uma vez que minha visão sobre determinados temas do país seria vista como "pessimista" ou mesmo "derrotista", mas certas ideias sobre política de algumas pessoas, como "não existe esquerda nem direita", "partido político é tudo igual", "melhor votar nulo", entre outras, apenas ajudam a manter o estado agonizante que temos hoje. Eu sei que provavelmente você deve estar decepcionado (como eu estou) em relação aos políticos que mandam e desmandam no Legislativo e Executivo, mas se você apresenta pelo menos um desses argumentos que estão entre aspas, pare com isso hoje mesmo.

Primeiro, existem, sim, visões distintas (às vezes completamente), de se enxergar o Estado, a sociedade e, por consequência, o mundo. E, enquanto não surgir outra divisão melhor, a "dicotomia" direita-esquerda é sim, válida para classificar essas visões distintas. O termo dicotomia foi colocado entre aspas porque nem a direita nem a esquerda são, necessariamente, blocos unidos e coesos por si. Ambos os lados da política possuem variações de visões e meios para se alcançar um objetivo em comum para cada um dos lados. No bloco da esquerda, temos socialistas tradicionais, socialistas democráticos, social-democratas, terceira-via, liberais sociais e anarquistas (ainda assim essa subdivisões seriam bem simplórias). No bloco da direita, temos liberais clássicos (no sentido econômico), liberais conservadores, conservadores e nacionalistas (observação idem). Na esquerda e na direita temos também duas variantes que normalmente tendem ao centro, que são as políticas verdes e a democracia cristã, respectivamente. Se tirarmos o nazifascismo (que possui alguns pontos em comum entre a extrema-esquerda e a extrema-direita) e o libertarianismo (ainda mais difícil de enquadrar no espectro político esquerda-direita), o que sobra disso é o centro.

Como observei no parágrafo anterior, tais subdivisões da esquerda e da direita são, ainda assim, muito simplificadas, e mesmo pessoas que se identificam como de esquerda ou de direita podem, eventualmente, assumir posturas opostas ao seu posicionamento inicial. Enfim, definir-se politicamente, mesmo usando o simples diagrama esquerda-direita, pode se tornar uma tarefa complicada, sobretudo a aqueles que tendem ao centro. Para não delongar muito nesse assunto, sugiro que, em caso de dificuldades maiores, façam teses que permitas uma identificação de seu posicionamento político (duas opções boas: o Political Compass e o Political Test)

Um exemplo: meu resultado no espectro político do Political Compass (Fonte da imagem: acervo pessoal do editor)

Meu resultado no Political Test (Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor)
O segundo ponto que toco na questão do "derrotismo político" pode ser difícil, dado que temos mais de 30 partidos políticos no Brasil, e boa parte deles, por mais que declarem alguma ideologia, são apenas "legendas de aluguel" na prática, e que mesmo os partidos que querem ser de esquerda ou de direita acabam cedendo a esses partidos fisiológicos em nome da "governabilidade", mas mesmo assim partido político NÃO é tudo igual. Mesmo considerando um distanciamento dos partidos políticos no Brasil na prática em relação ao que pregam, existem diferenças claras entre o modo de legislar e de governar de um DEM para um PSDB, de um PSDB para um PT e de um PT para um PSOL (tais diferenças vocês podem conferir nos dois artigos de Arthur Rizzi, participante dos dois últimos podcasts na primeira temporada, em seu blog Tartaruga Democrática, clicando aqui e aqui).

Por fim, o terceiro ponto do "derrotismo político", muitas vezes defendido erroneamente como um protesto contra o segundo ponto: voto nulo não é protesto, é covardia. Não, não há nada de nobre em anular seu voto (em linhas gerais, não estou levando em conta situações extremas, por exemplo). Voto nulo não serve para absolutamente nada além de mostrar, muitas vezes, sua recorrente ignorância em relação aos conceitos políticos (não estou dizendo que todos são assim, pelo amor). E não venha com essa de que se as eleições tiverem muitos votos nulos, o político que for eleito terá menos conforto para legislar ou governar por ter menos representatividade. Não estamos nos EUA ou em países europeus, em que políticos ainda se preocupam com a presença de eleitores votando nas urnas, portanto menos ingenuidade, por favor. Para ser mais sincero, se for para anular ou votar em branco, melhor nem ir votar.

Findo esses três pontos do "derrotismo político", falo de um terceiro ponto de lógica nos protestsos que as pessoas que vão saindo às ruas para gritar contra "tudo isso que esta aí" deveria lembrar: antes de sair por aí colocando os protestos nos mais diferentes países no mesmo saco do nosso, analisem e comparem os contextos (inclusive tratei disso no segundo link do parágrafo de abertura da postagem). Já vi gente tendo a picaretagem (ou parvoíce) de comparar os protestos na Venezuela e na Ucrânia aos ocorridos em nosso país (quem quiser conferir uma explicação básica das diferenças, confira aqui). Ou então de comparar os protestos aqui e os da Europa, Turquia ou no mundo árabe. Circunstâncias diferentes implicam em visões e conclusões diferentes, só para constar.

Para finalizar

Este assunto rende bem mais do que o escrito até agora - e pretendo retomar o assunto em outro momento oportuno - mas pretendo fechar este tópico com o resumo de minha visão sobre a recente onda de protestos:
  • Não adianta protestar contra uma cagada já feita, adianta sim, protestar contra aquilo que ainda vai ou pode acontecer;
  • Não proteste por mais verbas por área X, Y ou Z, antes proteste por menos impostos, burocracia e contra governos que querem engordar e não enxugar a máquina pública. Ah, e deem nome aos bois. Ideias ruins são levadas adiante por pessoas que possuem uma visão de mundo ruim. Enfim, não proteste contra a ineficiência do Estado pedindo mais dele;
  • Se você for votar, analise os candidatos e suas propostas e escolha aquele que você entender. Uma dica pessoal minha: não escolha candidatos que tenham propostas que, em última instância, levem a aumento dos gastos públicos. Caso não queira votar, outra dica pessoal minha: simplesmente justifique a sua ausência ou não vá votar e pague a multa depois. É mais honesto do que bancar o rebelde querendo votar nulo achando que vai adiantar alguma coisa;
  • Os nossos protestos são tão somente...Nossos. Pare de ficar comparando situações sobre as quais não tem a menor noção das semelhanças e diferenças.
Enfim, algum dia mais a frente voltarei a falar sobre isso. Até a próxima.

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