Marcelo Yuka e a tese do papagaio de pirata. Ou: um exemplo de assimetria lógica

(Fonte da imagem: Estadão)
Boa noite pessoal. Hoje utilizarei o Minuto Produtivo para comentar sobre a entrevista de Marcelo Yuka, músico e ex-baterista da banda O Rappa, à jornalista Sônia Racy, do Estado de S. Paulo. Nela, ele fala um pouco sobre sua vida, sobre os tiros que acabaram o colocando em uma cadeira de rodas, bem como de temas recorrentes como violência, desarmamento, protestos e "rolezinhos". Alguns trechos da entrevista irei transcrever (em azul), e farei intervenções ao longo do mesmo. Segue abaixo:

"Como alguém que estuda violência, qual sua opinião sobre os “justiceiros do Rio”, que amarraram um garoto no Flamengo?

Cara, não vivi o período de ditadura militar, mas acho que existem fatos sociais que “startam” uma mudança ou uma possibilidade de sair do armário. Quando o José Padilha exibiu o primeiro Tropa de Elite, um pensamento saiu do armário – tenho certeza de que ele não queria isso. Mas toda vez em que o Capitão Nascimento torturava e matava um bandido no filme, a plateia comemorava como se fosse um gol.

Qual é esse pensamento? 

Há, hoje em dia, um discurso de que existe um inimigo público número um – que é o narcotráfico. E esse inimigo, diz o poder, cria “pessoas matáveis”. O narcotraficante virou uma pessoa matável. Se repararmos, quando tem invasão no morro, fala-se em morte de traficantes e não de pessoas. E a sociedade olha assim: “Não foi uma atitude violenta, só morreu traficante”. Opa, espera aí! Olha o pensamento reaça, uma cadeia de pensamento que vem crescendo e que hoje é exposta de peito aberto. O que significa que, o que está vencendo, é a truculência, o fascismo, a burrice. Vejo tudo interligado."

Em primeiro lugar, vou deixar bem claro: não concordo com a ação dos justiceiros no Rio. Tendo isso como ponto de partida, irei ao segundo ponto: na ausência de autoridade do Estado para lidar com a questão da violência, a população irá agir ou delegará a outros para isso. Esses são os dois pontos que resumem o meu pensamento sobre o ocorrido por lá. Com base nesses dois pontos é possível chegar a uma proposta, que seria: se você é contra a ação dos justiceiros, reclame do vácuo de autoridade deixado pelo Estado. Reclame por punições mais duras e por menos brechas que deixem criminosos nas ruas. Quanto ao Tropa de Elite, vou ser honesto aos leitores: eu não assisti a nenhum dos dois filmes, mas pela repercussão que ambos os filmes tiveram em relação às pessoas que conheço que assistiram eu também chego à mesma inferência, a de que a intenção de Padilha era justamente oposta a da repercussão por parte do público. Mas sinceramente? Acho isso muito bom, ao menos em parte. Mostra que a população está cansada da narrativa mainstream de que "a violência é causada pela pobreza", "a violência é causada pela desigualdade social", "o criminoso é vítima da sociedade" e outros "chavões" repetidos por certos filósofos, sociólogos e até mesmo jornalistas da grande imprensa, que não percebem que estão ofendendo a inteligência ou mesmo a vontade de lutar pela vida por parte de população que, apesar das dificuldades, prefere levar a vida honestamente.


Sobre a mentalidade "reaça" de que "narcotraficante virou uma pessoa matável", vale lembrar que em uma situação de confronto (boa parte das mortes de traficantes foram em confrontos com a polícia) o que se espera de reação quando alguém atira em um policial com o intuito de matá-lo? Confetes? Serpentina? Flauta mágica? Ou uma reação em uma proporção tal que neutralize a ação do agressor? Enfim, nem um policial nem um traficante são "matáveis", mas se o traficante faz do policial uma pessoal "matável", é lógico que ele assume o risco de se tornar imediatamente uma pessoa "matável". É assim que funciona o uso legítimo da força, ou será que o Yuka desconhece isso?

"No documentário, você fala da vontade que tem de conversar com o dono da Taurus. Você também fez parte do Estatuto do Desarmamento…

Parece que toda a luta que eu tinha se resumiu a depois da cadeira. Mas a verdade é que há muitos anos eu já estava envolvido com a questão do desarmamento. O que me chamou a atenção foi que precisei fazer uma ressonância magnética – e tinha de saber qual o material da munição. Na época do exame, escrevi um documento com meu advogado, perguntando isso aos fabricantes de armamentos e de munição. E todos eles mandaram como resposta um documento judicial que lhes assegurava o direito de não responder. Se sou vítima daquele artefato, por que eles se respaldam na lei pelo direito de não me informar? Além do quê, essa coisa de arma de fogo é medieval.  Assegurar o direito à arma é a maior prova do uso do medo como ação política. Cada vez que a gente dá um passo para a frente, continua ainda muito conservador e retrógrado.

Quando se deve usar a arma?

O cerne do meu ponto de vista é que a arma de fogo é o fim da tolerância. A guerra se dá quando a tolerância termina. E não há regras numa guerra. Isso só acontece a partir do momento em que o Estado assume que terminou o diálogo. E terminar o diálogo é uma posição política absoluta, ditatorial. O Estado não foi feito para se curvar à falta de diálogo, mas, sim, para promover sua importância. Não enxergo as manifestações como causa, mas como consequência. Sou, talvez ingenuamente, um dos últimos que se assume como pacifista."

Citemos alguns países que asseguram o direito "medieval" a se ter uma arma de fogo: EUA, Finlândia, Suiça, França, Canadá, Suécia, Áustria, Alemanha, Nova Zelândia, países que possuem de 3 a 10 vezes mais armas de fogo por 100 habitantes em relação ao Brasil. E olha o resultado dessa "intolerância": são países que matam (a cada 100 mil habitantes) de um sexto a apenas 3% do que se mata no Brasil no período de um ano. Que horror, né Yuka? Claro, não estou aqui defendendo exatamente o porte de armas irrestrito, como alguns armamentistas mais exaltados pregam. Mas defendo uma legislação mais liberal e menos burocrática no sentido de que o cidadão que não tenha antecedentes criminais nem problemas psicológicos possa ter e portar uma arma de fogo para usá-la em situações extremas de legítima defesa.

E quanto ao fim da tolerância, minha tese sobre isso é bem simples: não é possível ter tolerância plena quando quem está do outro lado é intolerante e, se possível, não quer que você exista. Uma outra tese, diria que consequência da primeira, é que não se tem diálogo quando uma das partes não o quer. Não estou defendendo que o Estado tenha que resolver tudo na base do "tiro, porrada e bomba", mas quando todas as outras possibilidades falharem, o uso destes últimos não é uma questão de capricho, e sim de necessidade.

"Acha que isso está presente nas manifestações?

As manifestações vêm mostrando que não existem armas não letais. Estive nos protestos e quase morri duas vezes. Por motivos óbvios, não pude correr. Fiquei gritando “sou aleijado, sou aleijado”. Quando cheguei ao protesto, as pessoas me olharam na cadeira de rodas e te confesso que meu ego inflou quando me perguntaram: “E aí, Yuka, o que a gente faz?”. Me senti um coronel no front e disse: “A rua é pública, temos de ganhar posição”. (risos) Esse negócio de “efeito moral” não é só moral, não. Se aquela porra bater em você, você tá fodido.

Nesse contexto, falou-se em lei antiterrorista.

Está vendo como há uma mentalidade reaça no ar? O que não entendo é como pessoas que militaram e viveram o período da ditadura não estão se posicionando. Tem muito mais gente com poder de pressão social. Até porque se mata mais hoje do que se matou naquele período."

Bem, honestamente, se eu fosse cadeirante o último lugar que gostaria de estar seria em uma aglomeração com centenas de pessoas e onde sei que correria o risco de ficar em um fogo cruzado entre polícia e baderneiros. Mas enfim, o gosto é dele e acho que ele sabe dos riscos (ou deveria saber). Sobre a lei antiterrorista, o meu posicionamento é o mesmo adotado quando eu comentei o texto de Pedro Abromovay no Brasil Post (vocês podem conferi-lo aqui): a lei que se discute apenas nos alinharia aos países europeus sobre o tema. Os EUA possuem uma legislação muito mais severa, inclusive prevendo detenção indefinida de suspeitos sem a necessidade de mandado judicial ou acusação formal. Alguém vê alguma ameaça totalitária lá por causa disso (apesar do Obama, claro)? E outra: não é possível enxergar destruição de patrimônio público e privado e arremesso de foguetes contra policiais como um direito. Não mesmo.

"O que acha dos rolezinhos?

Não existe nada mais nazista no Brasil dos últimos 20 anos do que a proibição dos rolezinhos. Foi pior até que a proibição do funk aqui no Rio de Janeiro. Já estamos acostumados a ver a agressividade do Estado que mata muito, mas institucionalizar esse tipo de preconceito é outra história. Estamos perto da barbárie mesmo."

Primeiro, eu gostaria de saber a associação de proibição de rolezinhos ao nazismo. Vou mais além: seria interessante ele explicar o seu conceito de nazismo. Até porque a impressão que tenho é que cada vez mais, nazismo (e suas variantes), fascismo, reacionário (no caso, "reaça"), entre outros termos, são usados pejorativamente apenas para rotular qualquer opinião que discorde de opiniões iguais ou análogas a de Yuka. Mas vamos apelar à lógica (afinal, até onde sei, esta não é nazista): se as pessoas organizam eventos privados em locais privados (ok, de uso público, mas não deixam de ser privados, portanto sujeitos às regras impessoais e objetivas estabelecidas pelo dono do estabelecimento) e estes trazem problemas nos quais os organizadores são incapazes de lidar, nada mais justo que se proíba tais eventos. Ou seja, a questão por trás dos rolezinhos não tem nada a ver com preconceito de raça ou de classe. É uma questão tão somente comportamental. A não ser que o Yuka considere civilizado centenas de pessoas entrarem em um shopping causando tumulto.

Assim como o papagaio, Yuka sabe o que significa isso aí? (Fonte da imagem: Acervo pessoal do editor)
Enfim, Yuka poderia ter aprendido boas lições através de sua experiência que o deixou paraplégico. Mas por sinal, não só não aprendeu como ainda resolve papagaiar aquilo que a sociedade parece não estar disposta a ouvir. Diria que felizmente até.

Comentários

  1. PERFEITO seu texto! resumiu perfeitamente meu ponto de vista..

    ResponderExcluir
  2. "Não existe nada mais nazista no Brasil dos últimos 20 anos do que a proibição dos rolezinhos." Isso pareceu tão Emir Sader...
    Esse cara sabe o que foi o Nazismo? Alguém tem que falar ao entrevistado que o uso de frases prontas e chavões não o faz parecer inteligente.

    Muito bom o post, que venha mais como este. Vlw!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Não, Juan Arias. Dilma não se transformou

Dando-se tempo ao tempo: cadê as vantagens do porto de Mariel?

ENEM 2015 e o orgasmo da esquerda festiva