O dia depois do rebaixamento

Era para a equipe econômica estar desse jeito. Tá bom, sonhei demais. (Fonte da imagem: O Globo)
Boa noite pessoal. Não gente, diferente do que mostra a imagem de abertura desta postagem, não irei usar o Minuto Produtivo para comentar sobre futebol muito menos relembrar o rebaixamento do Fluminense, ocorrido no ano passado, que acabou sendo revertido por conta de uma irregularidade na Portuguesa que levou à perda de pontos do time paulista. Irei falar de um rebaixamento que é menos acompanhado pelo público em geral mas é muito mais importante para o nosso país, pelo menos do ponto de vista econômico: o rebaixamento da nota da dívida brasileira, que na escala adotada pela agência de classificação de risco Standard & Poors, caiu de BBB para BBB-, a menor na categoria "grau de investimento". Entre os motivos alegados para a queda, estão o baixo volume de investimentos, a má condução do Orçamento por parte do governo federal e os problemas do setor elétrico. A reação da trupe econômica de Brasília, bem como do PT, foi previsível: sair pela tangente quando se chega no momento de encontrar pelo menos um culpado, isso quando no último caso não acabam culpando a própria agência pela desgraça. Nos próximos tópicos desta postagem, pretendo comentar sobre o que aconteceu antes disso, bem como os possíveis desdobramentos.

Como o Brasil ficou a beira de deixar de ser um "país sério"?

(Fonte da imagem: Folha de S. Paulo)
Bem, não sei se eu considerei, considero ou ainda considerarei algum dia o Brasil como "país sério", mas para efeito desta postagem e levando em conta a classificação de risco da S&P, vamos tomar essa proposição como verdadeira. Pelo menos foi isso que o então presidente Lula disse quando o país recebeu, em 2008, a classificação de "grau de investimento". Na época, houve uma grande euforia em torno desta classificação, inédita para o país até o momento, uma vez que tal nota permitia a atração de investidores institucionais de países desenvolvidos, que só poderiam investir em ativos considerados de "baixo risco". Segue abaixo um comentário na época de Luciano Coutinho, presidente do BNDES (vide link anterior):

"A obtenção do grau de investimento consolida as mudanças estruturais ocorridas na economia brasileira nos últimos anos. A estabilização da inflação em níveis internacionais, a geração de superávits comerciais elevados, o acúmulo de reservas internacionais e, finalmente, a elevação do volume de investimentos públicos e privados resultam em novo padrão de crescimento econômico e de inserção internacional da economia brasileira"

Ao menos em parte, o comentário de Coutinho era verdadeiro. A inflação estava controlada, graças à manutenção de um mínimo de ortodoxia na condução da política econômica (ah, bons tempos em que o Banco Central era conduzido por Henrique Meirelles, que era relativamente "linha-dura" no combate à inflação. E até dois anos antes do "investment grade" quem chefiava a pasta da Fazenda era Palocci, um médico, que pasmem, foi muito melhor que o Guido Mantega, economista. Coisas que só o PT faz por você...), e o "bilhete premiado" dado pelo boom chinês e pela alta das commodities conseguiu garantir os elevados superávits e o acúmulo de reservas internacionais. Quanto à elevação do volume de investimentos públicos e privados, isso também ocorria, apesar de que ainda não a um nível, digamos, "ideal". Tudo indicava para o Brasil passar a fazer voos em velocidade de cruzeiro, e não os comuns "voos de galinha". Indicava...

Mas quase seis meses após a notícia, uma crise econômica mundial, a maior desde o crash de 1929, estourou, e a euforia com a obtenção do "grau de investimento" acabou na mesma velocidade que começou. Em resposta à crise, foram tomadas diversas medidas: redução de impostos para bens de consumo duráveis ("linha branca" e automóveis, principalmente), abrir o caminho para uma expansão mais acelerada do crédito por parte dos bancos (diga-se de passagem, ainda mais acelerada) e outras medidas que em última instância representaram aumento de gastos públicos (como se estes não fossem poucos por aqui). Resumindo: política fiscal e política monetária expansionistas. Vale lembrar que variando uma ou outra ação, muitos países no mundo adotaram essas políticas. Apesar disso, o efeito disso só seria sentido em 2010, quando o Brasil teve seu maior crescimento em mais de 20 anos: 7,5% (contra um recuo de 0,2% em 2009).

É óbvio que tal política não só tem seus limites como também efeitos colaterais. Expansão de gastos públicos com renúncia de impostos requer um meio relativamente fácil para se sustentar: impressão de dinheiro. Só que se isso ocorre sem uma correspondência com a economia real, temos aí o fenômeno da inflação. E se o custo do dinheiro a longo prazo (neste caso me refiro ao crédito) também fica mais barato, também temos uma "inundação" do mesmo, o que alimenta ainda mais a inflação em um horizonte de tempo maior. Alertas quanto a isso já existiam na época, mas foram solenemente ignorados. O mínimo de ortodoxia na política econômica que veio com o Plano Real deu lugar a malabarismos (a contabilidade criativa, que ocorreu em 2010 e novamente em 2012, foi um exemplo grotesco disso).

Mas como traquinagens costumam terminar mal no final de tudo, foi dito e feito. Em 2011, primeiro ano do Governo Dilma, a inflação chegou a ultrapassar 7% no acumulado de 12 meses (sendo que a meta é de 4,5%, com tolerância de 2 p.p. para mais ou menos), e como forma de fazê-la encostar no teto da meta, a equipe econômica recorreu a manobra de sempre: altas sucessivas na taxa de juros (A Selic chegou a 12,5% a.a) até o início do segundo semestre, quando reiniciou-se um forte afrouxamento na política monetária, até que em outubro de 2012 ela caiu para 7,25% a.a.. A alegação é de que a crise nos países europeus pudesse trazer impactos à economia brasileira. Também houve um recrudescimento dos estímulos fiscais e creditícios com o intuito de aquecer a economia, mas o efeito nem de longe foi o esperado. Em 2011 o astrólogo Guido Mantega previa um crescimento do PIB de 5,5% mas no final o que sobrou foi 2,7%. Em 2012 o chute foi ainda mais desastroso: de 4,5% restou apenas 0,9%, um crescimento apenas superior a de países europeus que estavam ainda imersos na crise.

E mais uma vez as medidas erradas cobram o preço em 2013: a inflação. O tomate acabou se transformando em um dos grande símbolos da má condução da política econômica no Governo Dilma, e como se isso fosse bastante, resolveu mais uma vez jogar para a plateia e determinar "na marra" a redução da conta de luz (lembrando que já se falava em risco de racionamento de energia há pouco mais de um ano), bem como usar a estatal Petrobras como instrumento de política econômica (por meio de um "represamento" dos preços dos combustíveis), o que acabou se mostrando prejudicial à petrolífera como não surtiu efeito nenhum na alta generalizada dos preços. Ah sim, a "bondade" dilmista de reduzir a conta de energia também não teve efeito (considerando que o Tesouro teve que bancar essa "redução", é até previsível). Mais uma vez, para evitar que o incêndio inflacionário voltasse a estourar o teto da meta o jeito foi, novamente, retomar o aperto monetário e subir a Selic, que hoje está em 10,75% a.a.. Mas outras más notícias vieram no campo econômico: a Petrobras entrou em queda livre no valor de mercado, o PIB em 2013 cresceu em torno da metade do esperado (2,3% contra uma previsão de 4,5%), a Eletrobras amargou prejuízos, o dólar entrou em escalada e a dívida pública ronda os R$ 2 tri. Como se isso não fosse o bastante, tivemos como consequência (ao menos parcial) dessa zorra toda os protestos que iniciaram em junho, e a promessa de mais bondades que, em última instância, representam mais gastos públicos.

Depois disso tudo que eu falei, agora dá para entender o porquê do Brasil não ser visto com a mesma confiança por parte de investidores, tanto lá como cá. E não, não falo daqueles que estão com o pirex na mão para o governo em troca de um financiamento no BNDES ou fazendo lobby para ter algum incentivo fiscal exclusivo para instalar alguma infraestrutura ou fábrica. A propósito, temos outra prática na política econômica petista que não deu muito certo: a seleção de "campeões nacionais".

E o que isso pode nos afetar?


Então o Lula comemorou em cima de algo que não era confiável? (Fonte da imagem: Implicante)
A curto prazo não acredito que isso possa nos afetar, primeiro porque continuamos com o "investment grade" e segundo porque tal rebaixamento foi consequência de uma série de decisões erradas tomadas no campo econômico nos últimos cinco anos (pelo menos). No entanto, a médio e longo prazo, os efeitos tendem a ser negativos, uma vez que, se a qualidade do país como pagador cai, o custo para o financiamento da dívida tende a ser maior (países da zona Euro que tiveram problemas com sua dívida enfrentaram isso), logo serão necessários alguns ajustes mais severos até que esse desequilíbrio seja sanado. Isso sem falar nos efeitos indiretos dessa perspectiva negativa (lembrando que em caso de um novo rebaixamento voltaríamos a ser grau especulativo, e historicamente sabemos o quanto isso pode ser ruim): uma vez que isso é um reflexo de uma condução falha na política econômica, o país poderia se tornar menos atrativo para investimentos em geral, tanto daqui como "de fora". Ou seja, em última instância, teríamos menos empreendimentos sendo implantados no país, que poderiam gerar emprego e renda, movimentando nossa economia real. Isso sem falar na pior hipótese, a de "seleção adversa": os bons investidores seriam afastados em tal cenário e sobraria os especuladores financeiros, que ganhariam dinheiro por aqui sem agregar qualquer valor à economia real.

Enfim, em vez de querer culpar o termômetro pela febre o governo deveria retomar o mínimo de ortodoxia em suas políticas fiscal e monetária, já que falar em liberalismo no Brasil é quase um palavrão (quem quiser conferir o que penso sobre uma política econômica ideal é só conferir meu post anterior). E diferente do meu Fluminense, o Brasil não pode contar com a "sorte" de uma Portuguesa.

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