Gabriel Tebaldi e o dedo na ferida da educação brasileira

(Fonte da imagem: Tribuna da Conquista)
Boa noite pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar a coluna de Gabriel Tebaldi na edição de hoje do Jornal A Gazeta, em que ele fala sobre a "receita" que levou ao estado atual de fracasso na educação brasileira. Nela, ele resolve meter o dedo na ferida em alguns pontos que são um tanto polêmicos no que se refere ao ensino em nosso país. Assim como fiz em seu texto sobre o incidente no Shopping Vitória, farei um esquema de "ping-pong": em azul, a sua coluna; em preto, o meu comentário. Segue abaixo:

"A melhor forma de dominar um povo é mantendo-o ignorante. Mas a efetiva dominação não se dá no analfabetismo, e sim numa educação corrompida por cartilhas ideológicas. Travestir a mentira como verdade irrefutável: está aí o segredo para um ensino falido e seus cacoetes mentais.

É comum encontrar “especialistas em educação” que nunca conduziram salas de aula e teorizam fórmulas como quem diz “siga esses passos e tudo dará certo”. Não por acaso, o Brasil tem, hoje, os piores desempenhos educacionais do mundo. Em homenagem, a coluna traz um passo a passo para o fracasso. Em outras palavras, um manual de como enganar os alunos.

Comece formando um círculo, afinal, carteiras enfileiradas remetem à disciplina militar opressora. Nem pensar em tablado à frente: o professor deve ficar no mesmo nível, pois todos são iguais e o plano elevado simboliza o autoritarismo.

Aplique o método de Paulo Freire e sua “Pedagogia do Oprimido”. Já que “ninguém educa ninguém”, o professor deve apenas ser o “mediador” que levará ao conhecimento espontâneo. Despreze os clássicos e não exija leitura. Os estudantes devem formar suas próprias opiniões sobre o mundo em que vivem. Quem precisa de filósofos ou teóricos políticos? Um funk resolve o problema e faz de sua autora uma “grande pensadora contemporânea”."

Na verdade, não só na educação, mas em muitas outras áreas do conhecimento no Brasil temos diversos especialistas "torre de marfim": com muitas ideias, mas sem a menor preocupação com seus efeitos práticos (em alguns casos essa falha poderia ser corrigida com uma pesquisa com os diretamente envolvidos). O resultado é que batemos a cabeça em ideias que notoriamente são um fracasso, ou simplesmente desnecessárias para se chegar a um objetivo final.

Outro ponto bem salientado pelo autor, logo nos dois últimos parágrafos de seu texto, é um dos pilares, se é que se pode chamar assim, do modelo educacional em vigor em nosso país: a perda da autoridade do professor na sala de aula. Nos últimos anos o que mais se viu foi a tentativa de transformar, a qualquer custo o docente em um "acessório" (antes fosse um "mediador" como o Tebaldi disse, já seria lucro e tanto). Qualquer exigência de objetivos, metas, desempenho, comprometimento se torna demonstração de chatice ou mesmo autoritarismo. Também é verdade o fato de que a exigência de leitura, mesmo de atualidades (a.k.a.: jornais, revistas e portais de notícias), é mínima. Um exemplo bem banal disso foi quando o gerente de ensino de onde estudo foi à sala de aula onde estudo para dizer que pelo fato do contrato com a empresa que faz a limpeza do campus ter expirado, estava faltando papel higiênico nos banheiros do local. Então comentei dizendo algo no sentido de estávamos na mesma situação do povo venezuelano e, para minha surpresa (ou não) tanto o gerente como meus colegas de sala ficaram "boiando" enquanto disse isso. Resolvi explicar, dizendo que na Venezuela estava faltando o produto e os que estavam "por fora" finalmente entenderam o que eu queria dizer. Ainda dei um "pito", questionando se eles não acompanharam nenhum jornal ou revista. Enfim, fiquei parecendo um ser de outro planeta, mesmo considerando que o que falei poderia ser facilmente verificado em uma pesquisa do Google, pelo menos. Só vale lembrar que no modelo atual, os estudantes devem formar suas próprias opiniões sobre o mundo que vivem, desde que estejam de acordo com o mainstream do sistema educacional. Mais tarde vocês vão entender onde que quero chegar nisso.

"Se, por falta de leitura, alguém disser bobagem, não corrija, afinal, não existe “certo” ou “errado”. Tudo é relativo e você não pode reprimir a livre interpretação. Não cabe ao educador transferir valores, afinal, a moral também é relativa e ninguém pode ser advertido em público. Se um adolescente chegou da Disney e quer defender o comunismo teclando em seu Iphone enquanto bebe uma Coca-Cola, tudo bem. Não há contradição em discursar contra o capitalismo e usufruir de seus produtos.

Para ensinar História, resuma tudo como “luta de classes” para formar “consciência política” (leia-se “consciência marxista”). Ignore o fato de usar teorias do século XIX para compreender o XXI, destaque grupos “dominantes e dominados” e frise a injustiça do capitalismo."

De fato, sem exigência de leitura fica difícil de exigir um padrão mínimo de interpretação de texto (de lógica então nem se fala). E como o professor passa a ser visto apenas como um "acessório" e não mais como um "orientador", qualquer tentativa de afirmar valores também é vista como demonstração de autoritarismo. A propósito, os efeitos dessa "livre interpretação", desprovida de um mínimo de senso e lógica, são perceptíveis, e o maior exemplo disso são os "comentaristas de manchetes" nas páginas dos portais de notícias nas redes sociais, que têm suas opiniões já formadas sem mesmo se darem ao trabalho de clicar no link e lerem a notícia. A propósito, querem um caso de como a galera anda terrivelmente mal de interpretação? É só pensarem no entrevero gerado pela opinião da jornalista Rachel Sheherazade (SBT) sobre o ato dos justiceiros no Rio. Mesmo ela emitindo uma opinião totalmente contextualizada e dizendo que a ação dos que amarraram o bandido no poste era "compreensível", muitos, por parvoíce ou desonestidade intelectual (para não dizer ambas as coisas) insinuaram que ela estava incitando os linchamentos. O detalhe é que bastava um dicionário de língua portuguesa para eliminar toda e qualquer choradeira em torno disso. Ah sim, não poderia deixar de fazer uma menção nada honrosa ao quiproquó gerado pela pesquisa do IPEA sobre violência contra a mulher.


Sobre o enviesamento ideológico na educação citado por Tebaldi, isso acaba se tornando um agravante em um sistema de ensino que já não preza pela leitura e interpretação. Junte isso ao fato de que o professor tem pouca ou nenhuma autoridade em relação ao que e a quem está ensinando e pronto, temos bons papagaios capazes de resumir que tudo que acontece a nossa volta é perfeitamente resumível a opressores vs. oprimidos, burguesia vs. proletariado, classe média branca machista fascista nazista tudo-ísta vs. pobres, e que defendem um modelo de sociedade que em alguns casos, não permitiria sequer sua existência.

"Defenda a igualdade sem dizer que os países mais igualitários do mundo são, também, os mais miseráveis. Jogue a meritocracia no lixo, afinal, a competição promove a diferença. Não aprofunde na teoria de Marx para que não lhe questionem.

Por exemplo: para Marx, o valor de uma mercadoria se dá pelo trabalho empregado. Porém, a teoria da Utilidade Marginal refuta tal noção de modo simples: o valor depende, na verdade, da utilidade do produto, pois, no mercado, de nada vale algo de muito trabalho se for inútil. Mas você não vai dizer isso a seus alunos. Use camisa de Che Guevara e passe filmes como O Diário de Motocicleta. Só não mostre o discurso de Che na ONU em 1964, defendendo os fuzilamentos."

Neste início eu discordo um pouco de Tebaldi. A igualdade, é sim, algo importante. O problema é quando ela é tratada como se tivesse fim apenas nela mesma, sem preocupação com outros fatores como a liberdade econômica ou política. Lembrando que alguns países extremamente pobres são menos desiguais em relação a outros bastante desenvolvidos (o Afeganistão é mais igualitário que o Canadá, só para você, leitor, ter uma ideia).

Sobre a questão da meritocracia, isso pode ser muito bem exemplificado na denúncia feita pela estudante catarinense Isadora Faber (conhecida pelas críticas na página Diário de Classe, que inclusive se tornou tema de uma postagem no dia 16/11/2012), que foi publicada no blog do Rodrigo Constantino no site da Veja, no dia 18/04. É lamentável que aqueles que defendam um modelo de "educação para a vida" queiram ignorar (quando não é contrariar mesmo) um dos aspectos mais importantes da mesma, que é um mundo cada vez mais competitivo. A propósito, se a intenção é de fato a igualdade nos resultados, qual a necessidade de notas (como bem salientado pelo economista)? Não seria melhor, por exemplo, que em vez de cotas as vagas das universidades não fosse definidas por sorteio? As chances finalmente seriam "iguais" a todos, não concordam? Sugiro inclusive a música abaixo para o caso disso ocorrer.


Sobre o valor de uma mercadoria, a questão é um tanto mais complexa em relação ao que Tebaldi citou (você pode conferir meu post sobre sistema de preços aqui), mas de fato o fator "utilidade do produto" (que na verdade eu prefiro chamar de "percepção de valor do cliente") influencia na formação desse. Ah, e quanto a coisas que provavelmente seu professor de História, Filosofia ou Sociologia não irá falar, além do discurso de Che defendendo os fuzilamentos, é que o regime que ele acha tão bonito matou ao ponto da famigerada ditadura militar precisar repetir-se milhares de vezes para igualar em cadáveres. Ou ainda que o número de mortos por Stálin e Mao Tsé-Tung supera facilmente o número de mortos por Hitler no Holocausto. A propósito, Hungria e Polônia, países duramente atingidos tanto pelo socialismo como pelo nazismo, tem repulsa a qualquer coisa que lembre esses regimes, ao ponto de proibirem exibição de seus símbolos. Nada mais justo, na minha humilde opinião.

"Caso o aluno diga “a gente fomos” ou “nois pega”, não se preocupe. Esqueça a Gramática. O importante não é dominar a norma culta, e sim comunicar-se. Jamais corrija um erro, pois sua atitude fascista é um preconceito linguístico. Orgulhe-se, ao fim, por produzir o analfabetismo.

Tais práticas formam jovens vazios de tudo e cheios de si. Com vestibulares cada vez menos rigorosos, o analfabetismo funcional chegou à universidade e interpretar textos tornou-se um desafio. Acostumados ao “achismo”, os graduandos lançam opiniões quando deveriam construir conhecimento.

As políticas em vigor há pelo menos 20 anos expõem seus resultados: dentre 122 países, estamos entre os 35 piores; somos o 57º na qualidade de mão de obra; e temos a 13ª pior educação básica do planeta."

E depois disso tudo você nem se surpreende pelo fato de que "a culta e bela" acaba sendo motivo de reprovação para 40% dos candidatos a estágio no Brasil. E, como muito bem dito pelo colunista, o resultado dessa ópera bufa é a inevitável chegada do analfabetismo funcional às universidades, e um dos exemplos que citei estão no meu comentário ao segundo trecho citado, que são os "comentaristas de manchete", que poderiam ser também denominados de "leitores de 140 caracteres", que mal e porcamente conseguem interpretar um texto de sua própria área de conhecimento, quanto mais fazer uma análise crítica do mesmo (aí é que não rola mesmo). Quanto aos resultados, ruins por si só, apenas acrescento mais um ao "hall of shame" feito por Tebaldi: menos de 2% dos estudantes brasileiros sabem resolver problemas complexos ligados a situações do dia-a-dia. E há quem queira jogar 10% do PIB nesse trambolho aí...

"Neste contexto, qualquer voz dissonante está fadada ao grito do bando que ecoa em Caps Lock seus cacoetes. No país onde “o sucesso é insulto pessoal”, a educação, mais do que um trabalho, tornou-se uma arte. Arte, pois só o artista convicto mantém-se em cena diante das vaias alheias de ilustres desconhecidos.

É sincero questionar: será que vale a pena educar? Ora, se “a alma não for pequena”, sempre valerá. Em verdade, enquanto houver quem queira aprender, educar será sempre uma arte tão necessária quanto deliciosa."

Não só usam o Caps Lock como te chamam de toda sorte de chavões (como eu mesmo já fui chamado em alguns momentos). Cito alguns: reaça, fascista, coxinha, burguês, atrasado, neoliberal, entre outros. Outro exemplo você pode conferir no vídeo abaixo, em que a professora Ana Caroline Campagnolo responde às declarações da deputada estadual catarinense Luciane Carminatti (PT) sobre uma entrevista em que a docente denuncia exatamente a questão da doutrinação também dita pelo Tebaldi.


Enfim, aqui no Brasil, a educação, mais que um trabalho e uma arte, é uma mágica. Principalmente se o intuito é educar o indivíduo para que ele lide com a realidade e saiba usá-la a seu favor. Ou repensamos para ontem nosso modelo educacional, ou dependeremos sempre de alguma mágica (ou de sorte) para que nosso país corra o risco de dar certo.

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