IPEA e a semana do "estupro estatístico"

De fato, nenhuma mulher merece ser estuprada. Mas as estatísticas também não. (Fonte da imagem: VEJA)
"É o velho descoco causado pela interpretação pedestre de estatísticas. 32% dos acidentes de trânsito ocorrem quando o motorista está embriagado. Conclusão apressada: dirigir bêbado é mais seguro do que dirigir sóbrio." (Flavio Morgenstern)

Sexta-feira, 04 de abril de 2014. Na tarde de ontem, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) terminou de escrever um dos capítulos mais constrangedores na história da pesquisa e da estatística no Brasil. Depois da informação chocante de que 65% dos brasileiros entrevistados concordavam total ou parcialmente de que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas" e de que 58,5% concordavam com a frase "se mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros" (a pesquisa, ainda com os primeiros resultados, você pode conferir aqui), que acabou levando à campanha viral "eu não mereço ser estuprada", potencializada pelos grupos feministas de sempre e que se tornou símbolo da luta contra o "pensamento medieval e machista" da sociedade brasileira, o instituto descobriu um "pequeno" deslize na pesquisa: os 65% que concordavam pelo menos parcialmente com a primeira afirmação na verdade eram...26%. Esse vacilo, resultado de uma troca de colunas de Excel (!) foi o suficiente para que Rafael Osório, diretor de Estudos e Políticas Sociais do IPEA, pedisse exoneração, e que o assunto acabasse virando piada nas redes sociais. Ironias e brincadeiras a parte, apesar do erro cometido pelo instituto ter sido de fato grosseiro, vejo tal episódio como apenas um desfecho trágico de algo que começou de qualquer forma, exceto a mais razoável (melhor nem se fala). Nos próximos parágrafos irei explicar o porquê disso.

A "pesquisa"

De fato, como disse no parágrafo de abertura desta postagem, o erro cometido pelo IPEA, apesar de grosseiro em todos os sentidos, foi apenas o desfecho de uma sequência que não é necessário ser um expert em estatística para perceber que algumas das conclusões da pesquisa inicialmente divulgada estavam muito longe do razoável, seja pela amostra utilizada, seja pela formulação das perguntas, seja pela conclusão tirada em função das respostas a essas.

Para isso, vamos, apenas por um momento, esquecer do fato de que o IPEA cometeu esse erro crasso e tomemos a princípio como verdadeiras todas as informações fornecidas inicialmente, inclusive a de que para 65% dos entrevistados, "roupa curta seria motivo para ataque". Em primeiro lugar, a amostra: 3810 entrevistados, algo equivalente a menos de 0,002% da população brasileira. E destes 3810 entrevistados, em torno de 66% são mulheres, algo que foge completamente do padrão da população da maioria dos países do mundo, inclusive o Brasil, de que para cada um homem existe uma mulher (na verdade, existem um pouco mais de mulheres que de homens, mas para efeito desta postagem tal observação é irrelevante). Para uma amostra reproduzir as afirmativas de uma população a primeira, necessariamente, precisa ter características semelhantes às da última. A não ser claro, que, se admitíssemos que todos os homens tivessem concordado com tal afirmação, para fechar as contas, teríamos que admitir que quase metade das mulheres também acham que o tamanho da roupa as tornam "atacáveis". Ou seja, além de considerarmos que todos os homens são brucutus, machistas, opressores e patriarcais, também deveríamos levar em conta que uma parcela considerável das mulheres são assim. Mesmo em se tratando de Brasil, que conclusão estranha, hein?

E por falar de conclusão estranha, é de se esperar isso quando se interpreta mal a pesquisa, tanto em relação às perguntas como às respostas. Para começo de pesquisa, trata-se de uma pesquisa popular, ou seja, com afirmações que precisam ser entendidas por qualquer pessoa, mesmo aquelas que mal sabem de algo além de escrever e rubricar seu próprio nome. Isso explica, por exemplo, afirmações escritas em forma de ditados populares como "em briga de marido e mulher, não se mete a colher" ou "a roupa suja deve ser lavada em casa". Tais afirmações, assim como as conhecidas "tá com pena de bandido leva pra casa" e "bandido bom é bandido morto", devem ser interpretadas dentro do contexto de entendimento dos pesquisados e não de forma (quase) literal, como alguns "mestres" do coitadismo fazem.

"Ah, mas e as afirmações que não são ditos populares?", alguém pode se questionar. Lembre do que eu disse: uma pesquisa popular deve conter perguntas que permitam o pleno entendimento por qualquer pessoa e que sejam interpretadas na medida do entendimento dos entrevistados (sempre que possível). E, de preferência, que não dê margem à ambiguidades. E, como disse, é outro dos problemas que a pesquisa do IPEA apresentou, mas nem os coitadistas e, por sinal, a grande imprensa, notaram isso.

Tomemos, por exemplo, as duas afirmações mais polêmicas da pesquisa:

"Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas."
"Se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros."

Para entender onde que quero chegar nessa questão (se bem que a análise do autor da frase de abertura desta postagem no Implicante é ainda mais certeira), vamos aos significados dos verbos merecer, atacar e comportar, no dicionário (uma ferramenta necessária, mas não necessariamente suficiente):

"merecer 
me.re.cer 
(lat vulgar *merescere, incoativo de mereri) vtd 1 Ser digno de: Merecer um prêmio. A pátria tudo merece de nós. vtd 2 Tornar-se merecedor de: Terás de conquistá-la, para a mereceres. vtd 3 Ser credor de, ter direito a: "Melhor é merecê-los, sem os ter, que possuí-los sem os merecer" (Luís de Camões). vtd 4 Estar no caso de receber, fazer jus a: Merecer absolvição, merecer um castigo, merecer um prêmio. vtd 5 Estar nas condições de obter: Esse fato merece menção especial. O orador mereceu aos ouvintes calorosas palmas. vtd e vint 6 Valer: Merecer o preço. "Quem merece muito não aceita pouco, e não pede nunca" (Rebelo da Silva). vti 7 Prestar relevantes serviços a: Ao invés de carpir, exalçai os que bem mereceram da pátria.

atacar2
a.ta.car2
(ital attaccare) vtd 1 Acometer com ímpeto; agredir, assaltar. vpr 2 Investir reciprocamente. vtd 3 Efetuar a ação que o contexto define: Atacar fogo (atear); atacar o fogo (deter o incêndio). vtd 4 Iniciar. vtd 5 Acometer (diz-se de uma doença). vtd 6 Arguir, impugnar. vtd 7 Reg (Sul e Centro) Deter, impedir: Ataque o gado, senão escapará todo. vint 8 pop Ser capaz: Você não ataca nada. Antôn (acepção 1): defender, proteger.

comportar 
com.por.tar 
(lat comportare) vtd 1 Admitir, permitir, suportar: "A língua italiana... não comporta essa métrica, que arranha o ouvido" (Barão de Paranapiacaba). vtd 2 Conter em si: O teatro comporta mais de mil pessoas. vpr 3 Portar-se, proceder: Ela comportou-se dignamente."

Conforme visto no significados das palavras destacadas e o público a que se destina a pesquisa, já dá para se perceber o perigo de se interpretar as respostas a bel-prazer dos pesquisadores. Tomemos, por exemplo, o caso de "alguém merecer alguma coisa". Quando uma mãe diz para uma criança travessa que fica correndo para lá e para cá que ela "merece cair e ralar o joelho", qual seria a interpretação mais razoável: a de que essa é tão rancorosa ao ponto de rogar um mal à criança? Ou a de que o pirralho ou a pirralha está aprontando muito ao ponto de que ela corre um risco sério de se esborrachar no chão? Quando um pai ou mãe pede a seu filho ou filha adolescente que ele não leve seu notebook para a escola ou à faculdade e ele desobedece, se o pai ou mãe falar que ele ou ela "merece ser assaltado(a)", "tá pedindo para ser assaltado(a)" ou coisas do tipo, será que eles estão rogando uma "praga" à aquele(a) que foi gerado e cuidado com tanto carinho (é o que se espera)? Ou será que o filho(a) está se expondo a um desnecessário risco de ter seu notebook levado?

Diante disso, voltemos à primeira das frases polêmicas. O que o entrevistado entende por "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas"? Será que os entrevistados pensam que um ataque (o que inclui o estupro) seria um castigo pelo fato da mulher usar uma roupa mais chamativa? Ou seria uma questão de prevenção, de que pela mesma lógica que não é seguro andar mexendo no iPhone numa rua deserta em plena madrugada, também não seria seguro andar com uma roupa que sirva de "isca" para estupradores, encoxadores e demais tarados de plantão? Não sabemos (embora eu acredite mais na segunda alternativa), mas sabemos que a militância feminista e demais coitadistas de plantão escolheram a pior delas, para variar.

Sobre o uso dos termos "atacar" e "comportar", também existe margem para ambiguidades, não tão grandes, mas existe, como muito bem relatado no blog do Felipe Moura Brasil na Veja. Como que o entrevistado entendeu o termo "atacar"? Seria realmente "estuprar", como os aderentes à campanha "Eu não mereço ser estuprada" entenderam? Ou pode significar qualquer forma de chamar a atenção das mulheres que usam roupas que mostram o corpo, inclusive "cantadas de pedreiro" e "fiu-fius" (pior que até isso é visto como demonstração de "opressão machista")? Também não sabemos, mas mais uma vez a militância escolheu o pior dos sentidos. Por fim, outra dúvida fica quanto ao termo "comportar": os entrevistados realmente acreditavam que para evitar estupros as mulheres deveriam usar burcas, como ocorre nos países muçulmanos? Ou cairíamos na questão da prudência e da prevenção, a mesma do termo "merecer" (a mesma que nos leva a não andar numa rua deserta em plena madrugada com um iPhone na mão ou ainda entrar com uma Mercedes na periferia enquanto só os "soldados" estão acordados)? Mais uma vez, a margem de ambiguidades deixada pelo IPEA permitiu às militâncias de construir a pior narrativa em torno da pesquisa.

(Fonte da imagem: VEJA)

Como assim não importa?

Depois de que o erro foi revelado pelo instituto o tom do discurso já começa a mudar. Se antes o argumento era de que a pesquisa provava que a sociedade brasileira era extremamente "machista, opressora e patriarcal", agora que os dados mostram que não é bem assim o argumento é de que "eles não importam e que enquanto existir pessoas que pensem que existam mulheres "estupráveis" é perfeitamente válido fazer selfie seminua, fazendo cara de mau (ou ainda mostrando o dedo médio) e segurar um cartaz dizendo "eu não mereço ser estuprada", ainda que o resultado disso não seja nada além de atrair mais tarados tanto virtualmente como na vida real. A questão é que pesquisas como essa costumam ser base para políticas públicas, e emocionalismos baratos, por mais comoventes que sejam, não devem embasar tais ações por parte do Estado. Os dados e os fatos devem, sempre que possível, servir de norte.

Só para entender a ideia deste tópico: imagine que você é dono de uma empresa e encomenda uma pesquisa de mercado com a finalidade de lançar um produto X. Inicialmente os resultados desta pesquisa apontam para que o produto X seria aceito por 65% dos usuários, o que mesmo levando em conta uma margem de erro aponta para uma liderança folgada de X no mercado (que diga-se de passagem, é da ordem de bilhões de reais). Então você prepara a fábrica e faz todos os investimentos contando com o fato de que a pesquisa era confiável. Uma semana depois, os responsáveis pela pesquisa descobrem um pequeno erro e que, na verdade, X só seria aceito por 25%, o que, na melhor das hipóteses, o levaria a uma ferrenha disputa com concorrentes pela liderança e, na pior, uma situação de "coadjuvante de luxo". Pior ainda: boa parte dos investimentos já foram executados e os que estão para acontecer não podem ser desfeitos. Resultado final: prejuízo quase certeiro, novos contratos de consultoria cancelados e se você fosse processar os responsáveis pelo erro na pesquisa, teria toda razão para fazer isso.

"Ah, mas estamos falando de poder público, as leis econômicas não se aplicam". Será? Implementar políticas públicas requer toda sorte de recursos: financeiros (a.k.a.: impostos), físicos e, principalmente humanos (que os "conscientes" sociais dizem se preocupar). Se pensarmos em uma proporção direta entre o uso desses recursos e a porcentagem de entrevistados que acreditam que uma roupa curta torna uma mulher "estuprável", utilizar de 2 a 3 vezes mais dinheiro, infraestrutura e pessoal que poderia muito bem ser utilizado em outras políticas públicas realmente não importa? Uma questão de custo de oportunidade (que não necessariamente precisa ser econômico).

Mas particularmente eu entendo isso. Para ser bem honesto, coitadistas e militantes de diversas causas que estão na moda hoje raramente usam fatos e/ou dados para usá-los como bases em argumentos, e sim como pretextos, uma vez que o que importa a esses não são os dados, fatos ou mesmo o contexto por trás deles, e sim o efeito emocional que isso provoca na população. Foi assim na questão dos protestos, foi assim na questão dos rolezinhos (as colunas de Eliane Brum sobre o assunto foram uma demonstração clara disso, basta conferir aqui e aqui) e está sendo assim em relação ao celeuma criado em torno da pesquisa do IPEA. E, não querendo desanimar vocês leitores, será sempre assim.

Encerrando

Como diz uma das leis de Murphy: "Tudo que começa bem, termina mal. Tudo que começa mal, termina pior". E o último caso é a representação exata da pesquisa do IPEA: um trabalho mal conduzido que deu margem às piores conclusões e piores intenções em torno deste. E o nosso numerólogo-mor e Ministro da Fazenda nas horas vagas Guido Mantega pode finalmente respirar aliviado: ele finalmente possui um adversário à sua altura.

O IPEA está errando mais do que eu...Ufa! (Fonte da imagem: Blog do Fábio Campana)

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