O jogo de dados dos governistas e a Petrobras

(Fonte da imagem: Exame)
Bom dia pessoal. Hoje irei utilizar o Minuto Produtivo para comentar sobre a repercussão dos recentes imbróglios envolvendo a Petrobras. Para ser mais exato, será sobre a forma como os governistas reagem com as notícias de que a estatal não anda tão bem (na verdade, nos últimos meses anda mal, pronto, falei). Basicamente a reação deles se resume a papagaiar falar as seguintes coisas: a produção subiu, a empresa nunca investiu tanto como agora, nunca se lucrou tanto e outros blá blá blás. Enfim, tentarei, a luz de alguns conceitos que são esquecidos ou propositalmente omitidos por quem argumenta dessa forma para dizer que nosso "orgulho nacional" anda bem como nunca andou antes.

"Nunca se produziu tanto como agora"

Em primeiro lugar, para entender o quanto o indicador "produção" é relevante (ou não) para uma empresa, é necessário entender primeiro a história dos sistemas de produção(1) desde o início do século XX, quando surgiu o sistema de produção em massa, sistematizado por Frederick Taylor e, posteriormente, por Henry Ford. Um dos aspectos da produção em massa é que esta é empurrada, ou seja, independente de haver no momento demanda do cliente ou não o produto é produzido. Outra característica desse sistema e que, como na quantidade, também não havia preocupação com a qualidade dos produtos, já que o mercado, com pouca ou nenhuma concorrência servia como "esponja" no que se refere à demanda(2). O sistema de produção em massa pode ser caracterizado também por pouca variedade de produtos, grandes estoques e índices de perda igualmente elevados.


Porém, nos anos 1950, surge no Japão, mais precisamente na Toyota um novo sistema de produção, sistematizado por Eiji Toyoda e Taiichi Ohno, que posteriormente seria denominado de Sistema Toyota de Produção (3). Um dos aspectos do toyotismo é que a produção é puxada, ou seja, ela só ocorre a partir das demandas do cliente. Como naquela época a concorrência e a exigência dos clientes já era maior, a preocupação com a qualidade também aumentou. Neste sistema de produção a variedade de produtos é maior, os estoques são mínimos, e a meta para os índices de perda é zero. Tal sistema, inicialmente adotado pela Toyota, foi reproduzido pelas montadoras norte-americanas a partir dos anos 1980 e a partir daí foi disseminado pelo mundo, não ficando mais restrito ao setor automotivo.

Alguns de nossos leitores devem estar se perguntando: por que você falou tudo isso e o que tem a ver com a Petrobras? Bem, vamos nos ater ao aspecto principal de cada um dos sistemas de produção, que é o comportamento do mercado consumidor, ou seja, os clientes. Conforme explicado nos parágrafos anteriores deste tópico, os clientes deixaram de comportar-se como meras "esponjas", em que cabia apenas aceitar o que era produzido pelas empresas e passaram a ter um comportamento mais ativo, exigindo produtos de melhor qualidade, e adequados ao uso para aquele momento (a propósito, cai como uma luva a visão dos "sete certos da logística") (4). Enfim, diante disso, qual a relevância de aumentar os indicadores de produção (não confundam isso com produtividade, só lembrando)? Por si só, nenhuma. Deve-se verificar, antes, se isso atenderia às demandas do mercado. E mesmo se atendesse, precisaria verificar-se outros fatores, como o custo de atender essa demanda, o que se deixaria de ganhar caso esta não fosse atendida, o que seria ganho caso o custo de atender essa demanda fosse, na verdade, usado em uma aplicação financeira...Enfim, caimos na questão do custo de oportunidade (5).

Enfim, comemorar aumento de produção de alguma coisa, seria uma boa...Para o século passado.

"Nunca se investiu tanto"

Outro argumento dos governistas para dizer que a Petrobras vai muito bem (obrigado) é que a cada ano, a estatal, nos próximos anos, investiria centenas de bilhões para elevar sua produção (6). Para aqueles que possuem pouco ou nenhum contato com ferramentas de gestão de negócio, parece óbvio que uma empresa "mal das pernas" não vai investir tanto, não é? Muita hora nessa calma.

Primeiro, para se investir, existem duas opções para investimentos: capital próprio e capital de terceiros (7). Em linhas simples, o capital próprio seria os recursos do dono ou fundador da empresa (no caso da Petrobras seria a União) bem como dos investidores que aportam capital em troca de participação (no caso, os acionistas). Já o capital de terceiros seria apenas recursos externos à empresa, como empréstimos e financiamentos. A vantagem de usar o capital próprio seria o controle total por parte do dono da empresa e seus sócios, e a liberdade de como e quando crescer, quem contratar, como gastar, etc.(8), porém a desvantagem é que as perspectivas de expansão são mais limitadas, baseando-se apenas no reinvestimento de parte dos lucros. Já com o capital de terceiros existe a possibilidade de ampliação acelerada das atividades (em relação ao que ocorreria com capital próprio) e, caso tudo dê certo, os lucros também seriam maiores. A desvantagem é que o dono se vê obrigado a gerar lucro suficiente para arcar com a dívida, e os investidores perdem um pouco de autonomia na tomada de decisões.

Pois bem, aí que mora o grande problema do "montão de investimentos" que a Petrobras vem fazendo nos últimos anos: para bancar toda essa farra zorra esse faraonismo, sobretudo por conta da euforia provocada pela descoberta do pré-sal, boa parte dos recursos vieram de terceiros, e isso pode se observar no endividamento da companhia, que aumentou mais de seis vezes desde 2007(9), como mostra o gráfico abaixo.

(Fonte da imagem: Achados Econômicos - UOL)

A entrevista com a economista Paula Barbosa ao blog Achados Econômicos (vide último link do parágrafo anterior), elucida bem a situação:

"Pergunta: O que explica o aumento da dívida da Petrobras?

Resposta: Houve dois grandes fatores. Primeiro, com o pré-sal aumentou a necessidade de investir, por exemplo, em equipamentos, estudos, perfurações etc. A Petrobras hoje é uma das empresas de petróleo que mais investem em descobertas, o que é bom. Mas isso aumenta a necessidade de caixa.

Em segundo lugar, tivemos uma conjuntura nacional e internacional desfavorável. Com a crise de 2008, diversas ‘torneiras’ dos bancos estrangeiros se fecharam. A Petrobras teve que se socorrer com bancos públicos nacionais para cobrir despesas de curto prazo.

P: Então o crescimento da dívida ocorreu por um bom motivo, que foi a necessidade de investimento?

R: Sim. Mas depois, outros fatores entraram e não ajudaram, como a disparidade entre preços no Brasil e no exterior [o preço do petróleo aumentou no mundo, mas a Petrobras não repassou inteiramente essa elevação para seus clientes, de modo que ela perde dinheiro quando importa gasolina e vende-a mais barata]. Além disso, a gestão operacional não foi equacionada da melhor forma possível. Nos últimos dez anos, a empresa teve um crescimento muito forte dos projetos, mas deixou de atingir metas. As estimativas de gastos e custos ficaram sempre aquém do que foi efetivamente realizado."

Resumo da ópera: a empresa resolveu se endividar monstruosamente para realizar investimentos em algo completamente inédito em nosso país (como o pré-sal), portanto com um grau maior de risco e de incerteza. Ou seja, se ela quiser de fato, sair da situação de endividamento sem precisar de um ajuste mais rigoroso, ela precisará contar com a situação de que todos esses novos campos deem bastante produção de petróleo...E claro, que o mercado tenha apetite no momento para que a Petrobras lucre ao menos o suficiente para cobrir, em longo prazo, os quase R$ 270 bi de dívida. Tem certeza que o investimento é um indicador confiável? Eu, no mínimo, ficaria com os dois pés atrás.

"Nunca se lucrou tanto"

O mais engraçado é que quando aqueles que veem com ceticismo a gestão da Petrobras falam que pelo fato da meta da empresa ser o lucro certas decisões da empresa fogem deste princípio os governistas correm para falar da "função social" que a empresa tem para o Brasil. Mas uma vez que o "maldito" fica favorável ao ponto de permitir uma narrativa, ainda que bastante frágil a luz dos fatos.

Primeiro que o lucro do ano passado, apesar de sua alta em relação a 2012, é o segundo pior da série histórica construída a partir de 2008 (10). Veja o gráfico abaixo:

Lucro líquido da Petrobras entre 2008 e 2013. (Dados: link 10. Elaboração do gráfico e fonte da imagem: Acervo pessoal do editor)

O que dá fazer interpretação pedestre de dados...(Fonte da imagem: Divulgação/G1)
Enfim, o resultado é longe de ser algo digno de orgulho e comemoração, uma vez que é apenas superior ao valor de 2012, o pior da série. É quase 20% inferior ao valor médio do período e um terço inferior ao pico registrado em 2010. Um trecho da matéria do blog Achados Econômicos (vide link 9) nos dá um bom entendimento do quanto a empresa deveria ir melhor, bem como algumas observações:

"Em 2007, o endividamento da companhia correspondia a 185% do lucro líquido. Hoje, a relação é de 1.136%, o que quer dizer que a empresa precisaria de 11 anos de trabalho para chegar ao valor atualmente devido aos credores.

Mas o lucro líquido, embora seja um indicador fácil de ser compreendido, não é o melhor parâmetro para com a evolução da dívida, pois sofre influência de fatores que nada têm a ver com o bom funcionamento da empresa.

Por exemplo, quando um conglomerado vende uma de suas empresas, o dinheiro que entra, se não for gasto em seguida, é registrado como lucro. Então um desavisado pode olhar para a demonstração de resultados, notar que o lucro disparou e achar que a companhia está em ótima forma, quando na verdade ela pode estar se desfazendo de negócios justamente por viver uma crise.

Outro exemplo de como o lucro é uma medida enganadora: uma empresa pode aproveitar que está em ótimo momento e usar parte dos seus ganhos para fazer uma grande amortização de sua dívida. Nesse caso, quem olhar só para o lucro vai achar que a companhia não vai tão bem.

Por isso, Barbosa sugere que olhemos não só para o lucro, mas também para a relação entre a dívida líquida e o Ebitda ajustado. Ebitda é a sigla em inglês para “lucro antes do pagamento de juros, impostos, depreciações e amortizações”. O Ebitda ajustado, particularmente, elimina fatores extraordinários, como a compra ou venda de ativos da empresa.

Em 2010, a dívida líquida era igual ao Ebitda ajustado. Hoje, ela é 3,5 vezes maior, de acordo com dados levantados por Barbosa."

(Fonte da imagem: Achados Econômicos - UOL)
Enfim, mais uma vez, as comemorações dos governistas diante dos "bons" indicadores da Petrobras caem diante de uma análise simples e óbvia de dados e fatos. "Mas ah, ela lucra, produz mais e tem patrimônio e valor de mercado maior que nos tempos de FHC", revolta-se um apoiador irredutível do governo. Pode até ser, apesar de que o contexto do país e da Petrobras na época era bem diferente - e mais dificíl - durante os anos 90 e início dos 2000. Mas o fato é que a estatal já teve dias bem melhores e seu quadro geral não está tão perto do que se considera uma empresa saudável.

Encerrando

Enfim, o fato é que a nossa estatal e "orgulho nacional" precisa de um ajuste. Para ontem, isso dizendo o mínimo. E não estamos falando só de investidores e "especuladores" estrangeiros (afinal, especulação você encontrará em toda e qualquer economia, em maior ou menor grau, isso vai depender do grau de confiança da mesma), estamos falando de várias pessoas e famílias que investiram na empresa acreditando que teria seguramente recursos para garantir um melhor padrão de vida no futuro. Enfim, o petróleo pode não ser nosso. Mas o rombo, esse, provavelmente, será nosso.

Referências:

1 - Produção em massa X Manufatura enxuta - FEA/Unicamp;
2 - Produção puxada e empurrada - Conceito e aplicação: Sobre Administração;
3 - Sistema Toyota de Produção -  IFMA;
4 - Logística como Arma Estratégica - Prof. Dr. Sérgio Bio (FEA/USP);
5 - Custo de Oportunidade - Portal Investimento.org;
6 - Petrobras prevê investimentos de US$220,6 bi de 2014 a 2018 - Exame;
7 - Capital próprio ou de terceiros: vantagens e desvantagens de cada decisão - André Saito (FGV);
8 - Crescer com recursos próprios ou de terceiros? - Conaud Consultoria e Auditoria
9 - Dívida da Petrobras aumenta seis vezes desde 2007; entenda - Achados Econômicos (UOL);
10 - Lucro da Petrobras sobe 11% e alcança R$ 23,6 bilhões em 2013 - G1.

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