Bubbles, bubbles everywhere...

(Fonte da imagem: R7)
Boa noite pessoal. Há praticamente um ano, havia escrito neste blog um texto comentando sobre a ineficácia da política de incentivos fiscais e creditícios capitaneada pelo governo federal. Já no final de janeiro deste ano, quando os governistas vibraram com a "surra" que a empresária do setor de varejo Luíza Trajano deu no jornalista Diogo Mainardi, havia dito que não haveria tantos motivos para comemoração. No final das contas, o que se revelou mais adiante é que o integrante veneziano do Manhattan Connection tinha um certo fundo de razão ao ver o "copo meio vazio" (duas postagens sobre o desempenho recente do setor varejista: aqui e aqui). São apenas alguns poucos exemplos em que comentei sobre a condução um tanto surreal da economia brasileira.

Mas onde que quero chegar com tudo isso (daí o título desta postagem)? Bem, apesar da controvérsia que existe em torno deste assunto, eu defendo a ideia de que não existe apenas uma, mas três bolhas econômicas em curso no Brasil. E todas em condições de estourarem e causarem um razoável estrago num futuro não tão distante. Na verdade não é a primeira vez em que falo dessa forma, uma vez que tanto no primeiro episódio da última temporada de podcasts como na entrevista que fiz com o economista Adolfo Sachsida (ver a partir de 14:00), mas hoje é a primeira vez que escrevo neste blog para falar explicitamente disso. Essas bolhas em gestação seriam: a imobliária, a automobilística e, por fim, a varejista.

O que esses três setores tem em comum? Em linhas gerais, foram os mais agraciados pelas "bênçãos" do governo: ora desonerações, ora abertura das carteiras de crédito (por meio dos bancos públicos ou incentivando os bancos a fazerem isso), ora ambas as medidas. Também foram os setores que passaram por um boom em vendas, mesmo em um período em que a economia praticamente andava de lado (como nos últimos três anos). E parece ser exatamente isso, passaram.

Este ano, porém, as dúvidas que já existiam em relação ao setor imobiliário (ver uma matéria sobre a defesa da ideia da bolha nos imóveis aqui) começaram a se espalhar para outros setores. No final do mês passado, uma matéria no Infomoney falou sobre a possível bolha automobilística. Um trecho delineia os cenários inicial e atual:

"Muitas pessoas correram para adquirir seus primeiros automóveis através de financiamentos a se perder de vista e sem condição de mantê-los, gerando uma grande euforia no mercado - afinal, a classe C emergia e a expectativa era de muitos carros ainda a serem vendidos. A desaceleração da economia após a crise do subprime e as subsquentes reduções do IPI (Imposto por Produto Industrializado) só ajudaram a acelerar esse efeito. 

Nesse cenário, fábricas foram inauguradas, cadeias foram formadas. No auge da euforia as montadoras instalaram novas indústrias no Brasil, que só foram recentemente inauguradas. Outras diversas montadoras aumentaram suas próprias fábricas e fizeram investimentos que é capaz de não serem pagos em um futuro próximo. Tudo para disputar um mercado que, naquela época, parecia muito interessante.

"A indústria embarcou na euforia do crescimento do mercado, apostando, como muitos fazem, que o mercado ia 'crescer para sempre'. Mas o mercado não cresceu", alerta [Andre Massaro]. Para um setor tão importante quanto o automobilístico, há um grande efeito em toda a economia - afinal, são milhares de empregos que ela cria, diretamente e indiretamente. Algumas das cidades com melhor qualidade de vida no Brasil são fortemente ligadas a essa indústria."

No tópico seguinte, quase que em tom profético, a matéria fala sobre uma possível reação do governo:

"Com essa importância, o mais provável é que o forte lobby das montadoras recorre a ajuda do governo, que já sinalizou novas medidas para ajudar o setor - e deve promulgá-las em breve. "O governo usualmente cede na forma de incentivos fiscais e medidas protecionistas, quem perde com isso?", indaga Massaro.

Para ele, a resposta da sua pergunta é simples: você. "O grande perdedor, de fato, é o contribuinte, pois ele sempre acaba colaborando (muitas vezes sem saber) com ações de “salvamento” de certos setores e indústrias, via incentivos e isenções fiscais", destaca. É um cenário que também impacta os vendedores e distribuidores desses automóveis, pela desaceleração do mercado. 

Há a possibilidade também dos trabalhadores das montadoras também serem demitidos - principalmente os que foram contratados para lidar com a demanda aquecida -, mas isso é menos provável. "Eles têm sindicatos fortes e a ajuda governamental é muitas vezes vinculada a proteção desses empregos", salienta. Mesmo assim, caso as demissões ocorram, não demora para que o efeito seja sentido por todos, principalmente em um salto da inadimplência."

Dito e será uma questão de tempo para o "feito" acontecer. Uma matéria da Folha de S. Paulo, de ontem, fala sobre este plano de socorro às montadoras que está para sair em breve. Segue abaixo:

"O pacote para impulsionar a venda de veículos no país inclui uma injeção de R$ 5 bilhões para financiar a aquisição de carros novos e esvaziar o pátio das montadoras.

O setor vive uma crise decorrente de queda nas exportações e nas vendas no Brasil, com corte de produção e ameaça de demissões.

A Folha apurou com representantes da indústria que a ideia do governo é utilizar parte do dinheiro que os grandes bancos são obrigados a reter no Banco Central, o chamado compulsório, e direcioná-lo para que os bancos de montadoras ampliem seus empréstimos.

A maior parte das montadoras é dona de instituições financeiras, que respondem por 60% do crédito para veículos novos.

CARTEIRAS DE CRÉDITO

A injeção de recursos seria feita por meio da compra de carteiras de crédito, ou seja, dos empréstimos concedidos. Os grandes bancos colocariam o dinheiro do compulsório em um fundo de investimento, que compra a carteira do banco de montadora.

Isso valeria por cinco meses, com estimativa de liberar até R$ 1 bilhão por mês em empréstimos, o que representa aumento de 13% na oferta.

O devedor continua a pagar a prestação no banco em que pegou o dinheiro. Este repassa o recurso para o fundo.

A ideia é usar o compulsório sobre recursos a prazo, que ficam no BC e rendem taxa Selic. O banco grande receberá essa rentabilidade mais 1% ao ano.

Para a montadora, a vantagem é receber o dinheiro do empréstimo de volta antes da quitação e, dessa forma, ter recursos para novos financiamentos. Em troca, essa instituição assumirá o risco em caso de inadimplência.

A operação precisa do aval do BC, que resiste, pois a liberação de compulsório aumenta a circulação de dinheiro, pressionando a inflação.

Para a indústria e outros setores do governo, é necessário salvar um dos setores que mais empregam e mais têm peso na economia. Há ainda o risco político de demissões em ano eleitoral.

RESERVA

O pacote prevê outra medida para liberação de crédito. O governo quer permitir que os bancos reduzam a reserva de capital exigida para financiamentos de veículos.

A redução seria gradativa, conforme o pagamento das prestações. Se o cliente se mostrar um bom pagador, o banco reduz a reserva para aquele empréstimo. Isso possibilita à instituição emprestar mais e até reduzir juros.

Na média, o banco precisa de capital equivalente a, no mínimo, 11% dos empréstimos. Para veículos, a exigência é menor, de 8,5%. A proposta é que ela possa cair para até 5,5%.

Outra medida prevê agilizar a retomada de veículos de clientes inadimplentes, o que depende de mudança na legislação. Hoje, só 12% dos automóveis são recuperados."

Resumindo: mais crédito a um setor que já está sofrendo justamente com as consequências de uma expansão agressiva de crédito (com uma expansão de renda não necessariamente na mesma proporção). A sorte é que pelo fato de estarmos em uma situação de "pleno emprego" (ou nem tão pleno assim) não houve ainda um estouro da inadimplência, mas é evidente que o atual cenário econômico, de baixo crescimento com alta inflação ajudou no corte do apetite pelo consumo, o que por enquanto também ajuda a manter a inadimplência em patamares baixos. Como se isso não fosse o bastante, enquanto no Velho Continente o BCE fala justamente em aumento das reservas de capital para os grandes bancos para melhor amortecimento dos choques provenientes de crises, a proposta para dar sobrevida ao setor automobilístico vai no caminho oposto (inclusive é oposto ao Basileia III, que propõe mínimo de reservas de 7%). Isso sem falar ainda no aumento da circulação de dinheiro sem nada que o "lastreie" o que, como bem dito na matéria da Folha, pressiona a inflação (que já ronda o teto da meta).

Diga-se de passagem, a redução do compulsório para aumento na oferta de crédito foi uma medida tentada em 2012 justamente com o intuito de estimular a economia. O resultado é que naquele ano o PIB cresceu 0,9%, e no ano passado tal medida, junto com os juros artificialmente baixos, acabaram trazendo um efeito colateral, que foi justamente a aceleração da inflação. Errar é humano, mas duas vezes...

Ok. Mas e o varejo? Como disse anteriormente, os três setores tem vários aspectos em comum: crédito farto, incentivos fiscais, uma explosão no consumo, nos novos empreendimentos (e expansão dos já existentes) para acomodar os novos clientes e...Muito endividamento. Se nos setores imobiliário e automobilístico tal combinação de fatores (entre outros) já caracteriza uma situação de bolha, por que não aplicar a lógica ao setor varejista? Sem contar os sinais de esfriamento (um deles você pode conferir aqui).

(Fonte da imagem: Johnny Cloaca)
Encerrando

Qual seria a solução para evitar um estouro dessas três bolhas? O mais simples e óbvio: subir os juros dos financiamentos e reduzir o volume de dinheiro disponível para crédito, tornando este mais curto e rigoroso. O governo quer isso? Não. Os bancos querem isso? Não. Os setores "abençoados" querem isso? Muito menos. Teremos mais rodada de estímulos de crédito e desonerações pontuais? Ah, claro que teremos, e como teremos...Se isso é sustentável economicamente, a resposta está em 2008 nos EUA. Não se espera resultados diferentes de ideias iguais, é o que dizem por aí. E como diria o Buzz Lightyear, "ao infinito e além"!

Adendo: Lembra do copo cheio da Luíza Trajano? Não parece que está tão cheio assim...

Adendo 2: Um post no blog do Carlos Munhoz trata exatamente da irresponsabilidade da dona do Magazine Luíza em ter uma postura tão baba-ovo. Confira aqui.

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